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18/11/2017

O que devemos aos franceses?


Como nasceram as ciências humanas. Qual a relação delas com a filosofia?

“Liberdade, Igualdade e Fraternidade” são os lemas que atribuímos à Revolução Francesa. Os franceses assim o tomam, e também o mundo assim compreende. Mas, na verdade, o lema colocado de modo tripartite é fruto de um período mais longo que o da Revolução. Teve idas e vindas no processo de aceitação, especialmente o terceiro item, a fraternidade, que talvez tenha a ver antes com o cristianismo de metade do século XIX (principalmente após 1848) que com o processo inicial da Revolução. Mas, a partir da Terceira República (1870-1940) o lema tripartite se oficializou e se manteve nas constituições francesas do século XX.

Liberdade e igualdade já eram lemas que haviam sido anunciados pelo liberalismo inglês, com uma revolução vitoriosa de bem antes da francesa. O lema fraternidade é, de certo modo, a parte mais francesa do trio. Fixou-se na preferência da “revolução burguesa”, expressão esTa que põe sob uma única rubrica mudanças não só políticas, mas econômicas, tecnológicas e culturais do Ocidente, o que tomamos como “a modernidade”.

Toda essa narrativa pertence não só à historiografia, mas é também à narrativa das “ciências humanas”, um conjunto de saberes que nasceu com a modernização e/ou o aburguesamento das universidades, e que procurou acotovelar não só a teologia, mas também a filosofia, na tarefa de compreender o homem. É interessante notar que esse conjunto chamado ciências humanas, como o lema da Revolução Francesa, está sob um tripé. Não à toa. O destino histórico aí teceu seu teia. Entender o homem moderno, para vários professores universitários do final do século XIX para o início do XX, passou a ser levar a sério certos pilares da revolução burguesa ou pilares da própria modernidade européia espraiada. Desse modo, a liberdade individual, articulada à noção de indivíduo, então contraposto ao conceito de sociedade, deu o objeto e a razão de ser da nova Psicologia; a igualdade perante a lei trouxe a razão de ser da Sociologia, em um feedback constante com os já existentes estudos jurídicos; o problema da fraternidade ou, em certos casos, da solidariedade (como em Durkheim), ganhou rapidamente um locus na Antropologia (com Mauss à frente).

Claro que, em alguns lugares, a filosofia ainda permaneceu lá, como um tipo de rainha da Inglaterra, soberana mas sem mandar mais nada, com os encargos da Metafísica. Depois que Nietzsche avisou todos os acadêmicos daquilo que mal ou bem eles já sabiam, que o Absoluto estava morto, o mundo universitário, no campo dos estudos humanos, chegou ao seu destino nas ondas dos três surfistas da Revolução Francesa.

Assim, por essa narrativa, creio que dou uma boa pista para que pensemos na história das ciências humanas como uma questão a mais do destino do Iluminismo, e não como uma simples questão de “aumento do conhecimento” que levaria a filosofia a ter que dividir-se em especializações. Também com essa pista, há de se deixar de pensar em eventos técnológicos deslocados, como na frase de piadistas pouco aptos ao mundo intelectual, os que dizem que “o Viagra foi uma invenção mais revolucionária que a obra de Marx”.

A Enciclopédia dos filósofos franceses já havia anunciado o que seriam as ciências humanas, e isso bem antes da Revolução Francesa. Mas os lemas da Revolução organizaram o modo de lidar com o conceito de homem saído do século XVIII e que veio a ganhar forma no século XIX, e encontraram na universidade o campo no qual se criariam os departamentos de “ciências humanas” ou, como disseram os alemães, “ciências do espírito” ou, como depois completaram os americanos, “ciências sociais” e, enfim, no final do século XX, “estudos culturais” – nesse último caso trazendo para o conceito de homem uma série de elementos das chamadas minorias sociológicas. Nesse último caso, sob a rubrica da igualdade e, em especial, da fraternidade.

Ora, como nesse processo todo, no campo político, principalmente a partir do final do século XIX, surgiram as “sociedades de massa”, guiadas por alguma ideia de democracia (que passou a ter adejtivos como “liberal”, “social-democrata”, “popular” e até mesmo sendo chamada para batizar estados autoritários), as ciências humanas universitárias receberam mais uma onda de tinta para o seu visual. Os seus objetos não mudaram, mas os formatos e as maneiras de abordagem ganharam um tom mais politizado, todavia, ainda segundo o rumo deixado pela Revolução Francesa, o da disputa entre direita e esquerda. Assim é que surgiram professores que podiam se dizer conservadores ou progressistas. Os estudos de Marx e Freud adentraram as universidades e, em certo momento, quiseram, inclusive, substituir o próprio rótulo “ciências humanas”. Marxismo e Freudismo, assim, com letra maiúscula, durante algum tempo deixaram claro que queriam ser a Ciência das ciências humanas.

O eixo dessa discussão ainda não se alterou. Começamos o século XXI ainda pensando em liberdade, igualdade e fraternidade. Nossas ciências humanas funcionam no registro das três disciplinas que abarcaram para si a preocupação com esses temas. Todavia, de algum modo, o acotovelamento com a filosofia diminuiu bem nos últimos anos. De um lado, os filósofos se acostumaram a colher frutos das novas ciências, de outro os homens de ciência passaram a entender que “o Absoluto está morto” não significava “a filosofia não tem mais narrativas”. Além disso, cresceu muito a área de filosofia social,  que passou a permitir novas narrativas, numa confluências de saberes. Vivemos exatamente essa situação hoje nas ciências humanas. A filosofia tem uma narrativa não científica e não literária, mas também não mais metafísica, para falar de muita coisa, mas quanto a essas coisas é difícil dizer que podemos abandonar os campos de força e atração postos por Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Dois filósofos a que venho dedicando estudos e textos, trabalham com tais narrativas exatamente com a preocupação moderna de liberdade, igualdade e fraternidade, Richard Rorty e Peter Sloterdijk. E há mais coisa em comum entre eles do que se pode imaginar à primeira vista. Um é americano e outro alemão, mas, meu Deus, como devem aos franceses!

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo. São Paulo 18/07/2016

Imagem: vídeo game francês polêmico (2014) ambientado nos tempos da Revolução Francesa

 

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5 Responses “O que devemos aos franceses?”

  1. Pedro de Sousa Portela
    24/07/2016 at 19:55

    Prof. Paulo, esses dias um jornalista comentando os recentes atos terroristas na Europa, deu a entender que a França estava sendo o maior alvo dos ataques pelo fato de ter sido a Revolução Francesa com o seu lema de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a responsável pelo modelo de sociedade contestada pelos radicais Islâmicos. Será que essa leitura procede?

    • 25/07/2016 at 00:07

      Se formos pensar que a revolução burguesa francesa, exportada por Napoleão, conformou o Ocidente, sim, mas o mais correto é pensar no imediato, ou seja, a França andou bombardeando o ISIS e está com o revide.

  2. José Capobianco
    24/07/2016 at 17:45

    Na manhã do dia da execução, o guarda bateu na grade da cela e mandou:
    – Chegou a hora, Joe. Só tem um problema: a cadeira elétrica está em reparos, você pode escolher a forca ou o fuzilamento, o que vai ser?
    – Que bela escolha você me dá! – ironizou o condenado.
    – Ué! – respondeu o guarda – você devia se sentir privilegiado. No Brasil eles chamam isso de democracia.

    • 24/07/2016 at 17:50

      Felizmente não temos pena de morte, talvez fosse assim, literalmente.

  3. Thiago Carvalho
    18/07/2016 at 12:48

    Bom.

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