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16/08/2017

O que conversei com Peter Slorterdijk? Ou: o filósofo de Richard Rorty


A foto junto deste texto mostra um dos momentos de conversa com o professor Sloterdijk. Você está curioso para saber o que conversamos?

Quem me acompanha nessa minha jornada filosófica (que já tem 40 anos firmes), creio que já tenha adivinhado sobre o que conversei com Sloterdijk. Gosto de falar novidades para quem é escritor e filósofo. É isso que alimenta um intelectual. Então, não deixei de contar a ele da minha amiga Mary Rorty, filósofa da bioética, mórmon e viúva do meu querido Richard Rorty (filósofo com quem tive a honra de compartilhar um livro: Ensaios pragmatistas sobre subjetividade e verdade, Rio de Janeiro, DPA, 2006). Mary é tradutora e comentadora de Sloterdijk nos Estados Unidos. Quando contei isso, o professor Sloterdijk me olhou com espanto. Ele não esperava! Os filósofos se conhecem menos uns aos outros por fora de esteriótipos do que podemos imaginar. Filósofos são de carne, osso e muitos preconceitos, aliás, como todo mundo.

Peter Sloterdijk não sabia do que contei, menos ainda que eu havia mandado para Mary observações dele sobre a morte de Rorty, e que ela havia gostado muito da abordagem (isso está em um dos últimos livros de Sloterdijk: veja aqui). Na verdade, talvez o que Sloterdijk jamais tenha notado, é que na maior parte do tempo, Rorty jamais idealizou o filósofo do futuro como alguém que é possível de encontrar, ao menos hoje, fora do perfil do professor Sloterdijk.

Rorty nunca pensou em um filósofo do futuro que viesse a estabelecer novamente linhas não borradas entre narrativas capazes de nos contar histórias morais e estéticas e narrativas com pretensão de nos mostrar a Realidade Como Ele É. Ele viu a si mesmo como alguém que, na América e com instrumentos próprios da filosofia acadêmica desse lugar, fosse mais ou menos o equivalente de Derrida na Europa. Pragmatistas e desconstrucionistas, ele dizia, são antes de tudo, ao menos no que ele gostava, exterminadores de relíquias inúteis depositadas em terrenos que precisam ser varridos. Em particular Derrida deveria ser lido antes como filósofo que tinha a dizer sobre a amizade, para uso privado, e menos sobre questões de uso público, como a política, por exemplo. Talvez em um primeiro momento, Rorty viesse a dizer que também este poderia ser o caso de Sloterdijk. Mas, tomando as observações mais gerais de seu pensamento, é difícil não ver que aquilo que Sloterdijk faz como filosofia está exatamente no perfil do que seria algo como o filósofo de Rorty. 

Sloterdijk está bem longe do filósofo que busca nos dizer, com linguagem superior, que estamos enganados no modo como vemos a realidade, e que a Realidade é o que brota de sua narrativa. Nada disso. Essa maneira nova de ler e fazer filosofia, que Rorty expôs didaticamente em seu belo texto “Duas utopias“, falando da Bíblia e do Manifesto Comunista antes como contos morais do que exposições sobre o real, é bem coadunável com as narrativas de Sloterdijk. Não raro, Sloterdijk se põe como um macro historiador filosófico, e é difícil não ver o quanto Rorty buscou apontar para uma tal figura como sendo aquele que lhe daria a leitura preferida. Falo aqui não do Sloterdijk do passado, mas, claro, do Slorterdijk da trilogia das Esferas, que Rorty não chegou a ler.

No projeto das Esferas, Sloterdijk quer encontrar as fontes da solidariedade, mas sem qualquer pretensão de fazer ciência ou gerar fundamentos metafísicos para projetos políticos. Ora, Rorty entendia que o bom filósofo do futuro, necessariamente não fundacionista, seria capaz de criar narrativas que possibilitariam à filosofia manter um discurso viável, distinto do discurso da ciência e da literatura. Muitos disseram que sem ser metafísica a filosofia só poderia se envolver em narrativas negativas – críticas e, em certo sentido, desconstrucionistas. Qualquer positividade e a filosofia estaria, então, invadindo o terreno da ciência, de forma completamente desnecessária. Rortianamente, vejo que Sloterdijk é, talvez, o único filósofo positivo do momento. Sua narrativa última, no Tomie Otake aqui em São Paulo, que buscou mostrar o quanto não podemos mais ser ignorantes sobre a nave espacial chamada Terra, é um discurso sofisticado no sentido de enfrentar aquela situação em que há de se consertar um barco estando nele e em alto mar, e só tendo como material de consumo o próprio barco. Rorty já vinha apontado para essa situação. Sloterdijk a tem posto e reposto, tentando encontrar uma equação para essa luta de titãs que virá. Nessa luta, a história da natureza estará subsumida inteiramente à história. A busca será ver como que cada um poderá ter sua cota, no futuro, de emissões – de gases, lixo, pensamento, boas ideias, peças de computador etc. No mundo do descarte – é o que pensa Sloterdijk – teremos de aprender, de modo autodidata, ou seja, sem professor, como descartar e o quanto cada um poderá descartar. É difícil não ver aí um eco rortiano.

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9 Responses “O que conversei com Peter Slorterdijk? Ou: o filósofo de Richard Rorty”

  1. Diego A.
    08/10/2016 at 18:31

    Interessante seus apontamentos de um filósofo que viabilize narrativas não instrumentais (perdoe a minha interpretação). Acompanho seu site pois é um dos únicos que se debruçam sobre a obra de Sloterdijk. Tive a alegria de fazer uma meia-pergunta (o equipamento de tradução falhou) pra ele no Goethe Institut em SP e passei aqui pra saber se você teria boas novas a respeito da visita dele. Uma alegria ler esses apontamentos. Porto, por outro lado, comecei a me interessar a partir do seu site… Posso ter o atrevimento de pedir uma sugestão de leitura dele? Obrigado Paulo.

    • Diego A.
      08/10/2016 at 18:34

      No penúltimo parágrafo leia-se RORTY ao invés de PORTO, por favor (maldito corretor automático) .

    • 08/10/2016 at 18:38

      Diego, venha para o CEFA, conhece? Procure saber o que é.

    • Diego A.
      08/10/2016 at 19:03

      Obrigado pelo convite, certamente irei nessa próxima semana. Até logo.

    • 08/10/2016 at 19:54

      A reunião presencial próxima é 12-15 de novembro. Fique atento.

  2. jordan bruno
    08/10/2016 at 14:38

    que bom professor…fico contente em ver que aquela vida de professor de alunos que não queriam a filosofia passou…

    • 08/10/2016 at 17:33

      Sim Bruno, estou numa faculdade da Igreja Católica, com gente interessada e culta.

  3. 08/10/2016 at 10:23

    Nossa, parece-me que adivinhei o conteúdo da conversa!
    Porém, agora eu gostaria de compreendê-la em palavras, mas falta-me o idioma!

    • 08/10/2016 at 14:11

      Pega um texto, cata milho, aprende. Tendo o vocabulário aumentado, comece a ouvir vídeos.

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