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20/11/2017

O PT do ministro Gilberto Carvalho é socialista? De que forma?


Uma boa parte das pessoas de esquerda acha correto que um estudante universitário, uma vez 00_Gilberto_Carvalho_estudio_do_PT_Foto_Richard_Casas_PTformado em universidade pública e gratuita, trabalhe algum tempo em lugares mais sofridos, talvez por um salário não muito atrativo. Em um país como o Brasil, de diferenças sociais enormes, parece ser um princípio de justiça que aqueles que puderam se dedicar mais tempo aos estudos possam, depois, dar uma contribuição mais decisiva para que as diferenças regionais e sociais sejam amenizadas. Essa forma de igualitarismo pode ter variações aqui e ali, mas, de um modo geral, ela não está em oposição ao liberalismo do filósofo americano John Rawls, por exemplo.

Rawls diz que as diferenças incentivadas em uma sociedade são legítimas quando o resultado delas segue um sentido que é o de colaborar com os que tiveram menos sorte na loteria do nascimento. Assim, a máxima do liberalismo tradicional, de deixar a liberdade agir de modo que ninguém seja tolhido em suas vocações e possibilidades, é combinada com a máxima do liberalismo moderno, que a promoção de certo igualitarismo, que às vezes não é diferente do que prega a social-democracia. O liberalismo moderno prevê, como função do governo, a determinação de certos benefícios para as camadas mais pobres, de modo a não criar um fosso muito grande entre os ricos e poderosos e os menos ricos e sem poder.

Quando pensamos assim, podemos ser simpáticos ao ministro Gilberto Carvalho, quando ele diz acha justo que o governo cubano fique com parte dos salários dos médicos cubanos que irão trabalhar aqui no Brasil pelo programa “Mais Médicos” (Veja aqui!). Todavia, será mesmo que esse programa respeita quem pensa de forma liberal moderna ou de forma social-democrata?

Ponho três observações na mesa, para pensarmos em objeções.

Primeiro ponto.  O médico cubano do “Mais médico” (não os médicos de outros países no mesmo programa) não recebe o salário, é o governo cubano que recebe e é este que determina a porcentagem que o médico irá receber. A experiência de alguns analistas diz que o que o médico recebe é algo entre 25% e 40%. Bem, convenhamos, o fato do médico não receber o salário já é algo desagradável. Além disso, ficar sujeito a este cálculo governamental pouco generoso com o indivíduo é bem desagradável. Um brasileiro gostaria de trabalhar assim? Isso está bem longe de ser um “imposto de renda retido na fonte”, é quase o inverso! É o salário retido na fonte e o que seria, no Brasil, a parte do governo, no caso desse acordo é o que vai para o trabalhador.

Segundo: O ensino em uma universidade pública, tanto aqui quanto em Cuba como em qualquer lugar do planeta, não é gratuito. Os estudantes pagam, uma vez que seus pais pagam impostos. Esses impostos já sustentam a universidade pública. Então, trabalhar por salários menores em lugares inóspitos, para o governo, de modo a cumprir com a ideia de justiça social, não deve ser visto como obrigação, mas como favor. Afinal, o estudante está, em princípio, pagando duas vezes! O caso de Cuba é o mesmo, nesse sentido. Ninguém vive na Ilha sem que uma porcentagem do que ganha vá para o governo e, portanto, para as universidades.

Terceiro. Diizer que os médicos se inscreveram individualmente no programa “Mais Médicos”, e que sabiam das condições, que é o que o ministro Gilberto Carvalho diz, não garante que não exista coerção. Para um país como Cuba, pequeno e sem oportunidades, e onde as pessoas não tem a possibilidade de deixar o local facilmente, programas como o “Mais médico” são oportunidades únicas. Ou é isso ou nada! Desse modo, a coerção está posta desde o início. Participar de programas como o “Mais médico” no exterior, para o estudante cubano, é o mesmo que fez a geração passada, aquela que Fidel Castro enfiou nas lutas africanas. Naquela época Fidel exportava pessoas para matar e morrer, agora, exporta para salvar vidas. Melhorou o objetivo, mas do ponto de vista da exploração do trabalhador cubano, a coisa continua a mesma.

Esses três pontos, se bem analisados, mostram que só na aparência muito superficial o que se faz no “Mais médicos” respeita algo que, fazendo justiça social, ainda se situa no campo do liberalismo e que pode ser democrático.

Sendo assim, quando o ministro Gilberto Carvalho diz que acha justo que o governo de Cuba abocanhe os salários dos médicos cubanos que irão ficar aqui por três anos, ele pode muito bem estar pensando em outras formas de organização social e política, e não a vigente no Brasil, não aquela que endossamos pela nossa Constituição.

Precisaríamos saber mais do ministro. O que ele está dizendo pode ser interpretado como um apoio à forma de justiça social regrada pelo comunismo cubano (se é que se trata de comunismo ou socialismo)?

Ora, nós sabemos bem que há na esquerda brasileira, inclusive a que está no PT, quem apoie ditaduras. Mas há gente de esquerda que, dentro ou fora do PT, nunca concordou com nenhuma forma de ditadura, nem mesmo em situação transitória. Dentro do PT, Suplicy nunca apoiou o regime cubano. Fora do PT, no PSOL por exemplo, alguém tão digno como Jean Wyllys, defensor de minorias, apoiaria ditaduras? Claro que não! A esquerda brasileira não é necessariamente a favor de fórmulas não democráticas, como em geral a direita gosta de cacarejar por aí.  Desse modo, Gilberto Carvalho deveria explicar mais. Também o ministro Padilha deveria explicar mais. O governo do PT deveria explicar mais. Ideologicamente as coisas não estão claras.

Talvez tenhamos que colocar de novo uma questão que não deveria mais ser uma questão importante, mas que, diante do que estávamos vivendo, parece ser necessária. Trata-se da pergunta que o filósofo Norberto Bobbio, então senador do Partido Socialista Italiano, colocava para seus pares do Partido Comunista Italiano, nos anos setenta e oitenta, quando este partido gramscista tinha um grande eleitorado. Bobbio dizia: vocês comunistas estão competindo nas eleições do que chamam de “democracia burguesa”, e vocês não possuem uma milícia revolucionária, então, isso significa que a democracia que temos deixou de ser importante para vocês como mera ponte, e que agora ela ganhou uma finalidade em si mesma?

Os comunistas nunca responderam isso claramente. Quando quiseram responder, veio a Queda do Muro de Berlim e depois o fim da URSS. E eles não responderam a mais nada. Eles, do Partido Comunista Italiano, que poderiam sobreviver dado que tinham grande eleitorado, não sobreviveram. O Partido praticamente fechou as portas. Ora, então, por conta da não sobrevivência, poderíamos dizer que uma parte de seus eleitores e mesmo as cabeças do partido estavam na “democracia burguesa”, mas com um olho no comunismo existente. Ou seja, todos eram “eurocomunistas”, mas o eurocomunismo, que se fazia passar por social democracia, estava mais ligado por laços afetivos ao comunismo existente do que os próprios militantes podiam admitir para si mesmos. Ora, nós sabemos que no Brasil ocorreu algo parecido.

Essas questiúnculas ideológicas não interessam à população em geral. Ou melhor, não interessavam. Até pouco tempo eram questões de professores. Mas agora, com o “Mais médicos”, o que se faz no Brasil pode ser uma afronta às leis trabalhistas vigentes em nossa democracia. Desse modo, vale sim se preocupar com a fala do ministro Gilberto Carvalho. Todos nós, e não só os professores de ciência política ou filosofia política, precisam de respostas. Queremos saber se há ou não gente no governo que está disposta a romper, por meio de subterfúgios como o “Mais médicos”, com os princípios liberais e democráticos que garantimos a partir da nossa última constituinte.

Isso não é patrulhamento ideológico sobre o ministro Gilberto Carvalho não. É apenas uma forma de colocar as questões para saber qual o tipo de Welfare State que o PT tem em mente, se se trata de algo mais democrático ou menos democrático.

O que temos é um interesse pragmático, afinal, muitos de nós somos funcionários públicos, e com filhos na universidade pública, então, temos o direito de saber as intenções das pessoas do governo. As falas em forma de frases soltas podem não dizer muito. Em geral, não dizem. Ora, o que custa aprofundarmos essa conversa?

Paulo Ghiraldelli Jr., 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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19 Responses “O PT do ministro Gilberto Carvalho é socialista? De que forma?”

  1. Carlos
    08/09/2013 at 11:59

    Como bom filósofo (aquela imagem de filósofo pintada por Nietzsche e Bachelard), Ghiraldelli exibe seu egipicismo. Ele se recusa a historicizar as coisas: naturalizou o capitalismo e impôs suas regras à análise dos fatos. Pouco importa se em Cuba todas as pessoas tem seu acesso à moradia, alimentação saúde e educação garantido pelo Estado, tornando desnecessária a briga sanguinária entre os homens por mais dinheiro. Não entende que a medicina, fora de uma sociedade capitalista, é orientada por sua função social. Não percebe que, fora de uma sociedade capitalista, a formação em curso superior garantida pelo Estado não tem como objetivo dar ao indivíduo condições de ganhar mais dinheiro que outros, que não é objetivo da medicina cubana formar uma casta de profissionais liberais endinheirados. Falta de sentido histórico, eis o defeito hereditário dos filósofos. É bem um filósofo esse Ghiraldelli. E com ainda mais justeza, um filósofo da cidade de São Paulo, comprometido com a naturalização da lógica de exploração do homem pelo homem.

    • 09/09/2013 at 10:48

      Carlos, quando se está no primeiro ano de ciências sociais, aprende-se essa crítica, a da naturalização. E também essas frases como “exploração do homem pelo homem”. Claro, minha geração aprendia isso no ensino médio. Mas agora, numa boa escola, no primeiro de Humanidades, aparece isso. Mas você tem de sair disso, e não ficar nisso. Se começar a estudar, antes do final do ano você já estará com vergonha de ter escrito isso acima. Claro, estudar corretamente, querendo aprender.

    • Antônio Carlos
      17/09/2013 at 21:04

      “Não percebe que, fora de uma sociedade capitalista, a formação em curso superior garantida pelo Estado não tem como objetivo dar ao indivíduo condições de ganhar mais dinheiro que outros, que não é objetivo da medicina cubana formar uma casta de profissionais liberais endinheirados.” Na realidade, não há muita opção. Em um mercado unicamente dominado pelo cartel do estado não há muita escolha. É por essas e outras razões que o médico cubano nunca, em suas missões fora de seu país, irá receber um salário que diferencie muito o recebido na ilha. Um salário extremamente mais alto ou extremamente mais diferenciado que o recebido por lá iria criar um mercado desigual, fazendo com que o mercado cartelizado da ilha tivesse que se modificar para conseguir fixar seus profissionais. É só esperar esses indivíduos conseguirem acesso a mercados mais abertos que abandonarão a ilha e nunca olharão para trás. Aposto tranquilamente, as deserções dos profissionais de lá que virão para cá chegarão na casa de um quarto do total até o fim do programa, quiçá mais. Na realidade não precisa nem apostar, o mercado é óbvio, pelo menos nesse caso.

  2. Orivaldo
    30/08/2013 at 10:14

    Concordo Paulo, mas os competentes não só pra ganhar eleições, acabam se soltando dessas amarras que uma doutrina que não evolui proporciona. Tem gente que independente de pender pra esquerda ou direita continua sempre seguindo em frente. Não são poucas as pessoas que já defenderam idéias e hoje abominam as mesmas e isso não só porque elas mudaram, mas também porque o mundo mudou.

  3. Saulo
    29/08/2013 at 20:28

    Esse ghiraldelli parece que quer sentar no colo de Jean willis.

    • 30/08/2013 at 10:55

      Saulo, este é o seu problema, talvez você idolatre mesmo os parlamentares que são iguais a você. Eu gosto dos que são diferentes, mas que são honestos, trabalhadores e competentes. Sei que o Jean pode incomodar você,ele costuma mesmo incomodar pessoas que não tiveram mãe, que foram obrigadas a ficar na chocadeira.

    • Saulo
      30/08/2013 at 17:42

      Se Jean Willis tomar banho de mar com água pela cintura, Ghiraldelli se afoga agora.

    • 01/09/2013 at 18:35

      Saulo, tadinho de você. Digno mesmo de pena.

  4. Robson de Moura
    29/08/2013 at 15:55

    Bom acerto. Precisamos de fato esclarecer as motivações para essa ação (e a defesa) do Mais Médicos, da forma que foi feita. Mas como? A atitude do nosso governo é desequilibrada: empurram-nos sem conversa seu programa mirabolante enquanto afinam com vizinhos afrontosos. Gostaria mesmo de ouvir o que tem o governo a dizer sobre essas questões que você levantou, (afinal isso tudo é patacoada ou maquinação lúcida?) mas o que me parece é que aqueles que tinham tutano lá caducaram. Há interlocutores lá?

  5. Márcio
    29/08/2013 at 15:29

    Paulo, imagino que o interesse deles também seja absolutamente pragmático. Certo é que estão usando uma ferrameta perigosa ao instrumentalizar o ressentimento contra os médicos de forma política – isso tende em não dar em coisa boa. Quanto à questão dos direitos trabalhistas, creio que vejam isso como um infortúnio, afinal de contas, diriam eles, “se não formos nós, serão outros”.

    E imagino, por fim, que para eles o custo nem tenha sido muito caro. Afinal de contas nessa a Dilma garantiu a reeleição e, quiça, o governo do Estado de São Paulo.

    • 29/08/2013 at 17:39

      Não há tanto cálculo assim, é meio difuso. Mas o projeto eleitoreiro existe.

  6. Orivaldo
    29/08/2013 at 12:00

    O Problema do PT ( e não só dele) não é o fato de ser socialista ou comunista mas sim de ser incompetente. A Pessoa , ou o partido, inteligente é a favor daquilo que da certo, Devemos mudar nossa rota toda vez que erramos o caminho. Como diz o GPS: “REFORMULANDO A ROTA”. Errar faz parte, mas gostar do erro é maluquice. E maluquice e burrice não é privilégio da direita nem da esquerda. É privilégio de quem não pensa. Ta certo que não é só de burrice e maluquice que vive essa gente. Tem também interesses escusos que leva um político a defender até o que nem ele mesmo acredita.

    • 29/08/2013 at 17:40

      Orivaldo, eles não são incompetentes em ganhar eleição. O problema da militância de esquerda, da doutrina, existe sim. Trata-se de uma doutrina que não evoluiu. Algo de manual. Isso dá certa incompetência.

  7. sergio
    29/08/2013 at 00:38

    Mas é lógico que essa cambada toda é socialista. Só não ver quem for cego. A estratégia comunista mudou: eles se fazem de liberais usando pessoas como o Jean Wyllis, e vão solapando a democracia aos poucos. Não pregam mais a tomada do poder através de revolução armada. Até o Pòndé reconheceu isso em um de seus últimos textos. Vai dizer que ele é velho gagá como o Olavo? Passar por cima da constituição, usando como argumento medidas pragmáticas de bem estar social, é especialidade desses lixos comunistas.

    • 29/08/2013 at 02:30

      Sérgio, o Pondé é mais jovem que eu. O Olavo não é formado em nada, não porque não quis, porque não passou no vestibular. E sobre comunismo, acorda vai, acho que você dormiu em 56 e acordou agora, mas ainda não saiu na rua. Meu Deus, como aparece louquinho por aqui mesmo quando a gente escreve fácil.

  8. Orivaldo
    28/08/2013 at 22:08

    Como empresário gostaria de poder abrir uma firma de prestação de serviços onde através de uma terceirização eu pudesse ficar com + ou – 70% do valor pago pelos contratantes e os 30% restante eu direcionaria a meus funcionários que felizes agradeceriam, todo mês, a possibilidade que eles estão tendo de ter um emprego. Quer dizer, se eu fosse um empresário muito do filho da puta e se meus funciovoluntários fossem umas bestas quadradas ou não tivessem outra opção a não ser essa.

    • 28/08/2013 at 22:36

      Orivaldo, mas é isso que eu quero mostrar, que estão abrindo um precedente perigoso na legislação.

  9. 28/08/2013 at 21:49

    Enviei este texto para uns amigos petistas que acham que sempre tem que concordar com o que o governo faz porque já foram militantes do PT… então já foi… Parabéns Ghiraldelli por mais esta fala lúcida e inteligente.

    • 28/08/2013 at 22:36

      Claudia, será que o pessoal do PT consegue pensar. Faz tempo que não encontro mais vida inteligente no PT.

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