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28/06/2017

O psicanalista Francisco Daudt e o pensamento mágico


Meu amigo psicanalista Francisco Daudt da Veiga é um crente na relação de causa e efeito (Gol de quem?). Todos nós, os escolarizados, somos crentes nisso. Mas nem tudo que aprendemos na escola deve ser matéria de fé. O pensamento mágico que, enfim, segundo Daudt, poderia ser posto na berlinda facilmente caso levássemos a sério a causalidade, nunca foi de fato derrotado, e isso por uma razão simples: também a causalidade nos é estranha, a nós, filósofos. Temos tido dificuldade com ela!

Todos nós sabemos que Hume desafiou a realismo que toma a causalidade como algo exterior a nós. Que um evento cause outro evento, disse Hume, não é nada senão algo de nossa produção mental, psicológica, que por hábito de ver dois eventos juntos os associa. Essa associação cria a figura da causalidade. Nunca poderemos apostar que um evento “b” e um evento “a”, que ocorrem mais ou menos juntos no tempo e no espaço, estão em relação causal para além do nexo forjado por nós. Pois não temos como confiar na indução. Que algo ocorra mil vezes não nos dá o direito de dizer que ocorrerá mais uma vez amanhã. A indução nem de longe pode nos dar a certeza da dedução.

Ora, Kant deu uma boa resposta para Hume. Ele disse que a causalidade não era do âmbito do exterior a nós, concordando com Hume. Mas ele acrescentou que o mundo fenomênico não seria possível sem que tivéssemos a causalidade como alguma coisa estrutural no sujeito cognoscente. Desse modo, Kant colocou a causalidade como condição posta pela razão humana para que possa existir a experiência. Assim, ele mudou o enfoque para se livrar do problema humiano. Não devemos focar nossa atenção na causalidade, mas na atividade racional que é base para que possamos organizar o mundo racionalmente e, então, entende-lo.

Temos várias respostas para o “problema da causalidade” hoje em dia. Uma delas, que gosto muito, é a de Donald Davidson (1): descrevemos tudo causalmente, inclusive as razões (que podem ser tomadas como causa, segundo a tese original de Davidson), como uma das linguagens que mais nos dá condição de lidar com o que chamamos de real. A ontologia que criamos, com causalidade como parte do mundo, é um dos vocabulários possíveis para viver de acordo com o jogo de linguagem com o qual estamos nos saindo bem – nós, os escolarizados ocidentais. Davidsonianos como meu amigo Richard Rorty e eu mesmo não buscam “o real” ou o “psicológico” da causalidade, nem nos preocupamos com a base racional que possibilita a compreensão do mundo e a experiência humana do mundo, simplesmente achamos que o jogo de linguagem que aprendemos,  para o usarmos corretamente e lidar com o mundo de uma maneira que vem dando certo, contém as palavras causa e efeito e contém as regras pelas quais causa é causa de um efeito e não de outro. Viver é questão de saber usar um jogo de linguagem aprendido socialmente.

Essa solução davidsoniana é desinflacionada metafisicamente, por isso ela nem precisa

Donald Davidson

Donald Davidson

competir com o jogo de linguagem mágico. Não precisamos, dessa maneira, entrar em desespero se ao nosso lado outros possuem outros jogos de linguagem em que a causalidade não se ponha, ou que se ponha de um modo em que causa pode ser causa de qualquer coisa. Ninguém tem de ser culpado de alguma coisa, nem tomado como inferior, se pensa como estando em um conto de fadas. Para que possamos viver em comum acordo, nós e os que estão em contos de fadas, o importante é que em atividades comuns, possamos estar em sintonia sob um só jogo de linguagem. O jogo de linguagem de jogadores e juiz, no campo, é aquele no qual causa de um efeito é causa de um efeito. Mas o jogo de linguagem da torcida, quando não está discutindo se foi falta ou pênalti, mas apenas torcendo, pode ser aquele em que causa é causa de qualquer coisa. Isso não muda nada!

Quando nos voltamos para afazeres particulares, como ver um jogo de futebol do sofá, fora do momento do pênalti, podemos tranquilamente voltar ao jogo de linguagem mais coadunável com o nosso entretenimento, talvez o do conto de fadas, sem com isso sermos considerados frustrados ou impotentes ou qualquer coisa assim.

Esse pensamento davidsoniano faz com que possamos, no plano social, moral  e político, lançar mão da tolerância liberal de Locke, e isso em bases bem coadunáveis com o que pensamos hoje sobre diversidade e direitos humanos.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

1. Para saber sobre Davidson, meu livro: Introdução à filosofia de Donald Davidson. São Paulo/Rio de Janeiro: Luminária, 2011.

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2 Responses “O psicanalista Francisco Daudt e o pensamento mágico”

  1. 29/06/2014 at 01:32

    O importante é se eu pedisse pra você (se você fosse, p. ex., um mecânico) consertar meu carro, importaria pra mim que você o fizesse, e não desse nele marteladas. Não importa se não posso ter com você uma conversa sobre o papel das mulheres na relação conjugal (ou mesmo sobre haver existência de um papel).
    Seria isso? Deixar de lado nossos pré-conceitos acerca do que as pessoas devem fazer ou deixar de fazer – ou, o que devem pensar ou deixar de pensar-? Vê-las, portanto, sob um viés utilitarista, e não moralista?

    • 29/06/2014 at 10:56

      João, não entendi nada do que você disse. Está mesmo falando do meu artigo sobre “causalidade”? Você não conhecia nada da crítica de Hume e Kant? Ou voCê se enganou de artigo?

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