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15/07/2018

O professor sem lógica, e sem história, e o tema da felicidade


Uma frase do Leandro Karnal (a escolha desse personagem é aleatória) dá bem um exemplo para meus alunos do que é um pensamento alheio à lógica, ou seja, o pensamento confuso. Ei-la: “Há trezentos anos ninguém escolhia profissão ou com quem ia casar. Hoje podemos escolher. E, curiosamente, não nos tornamos mais felizes – nos tornamos mais livres para escolher a infelicidade”. (frase tirada de entrevista, que me caiu às mão via Internet).

Pois bem. Eis o primeiro problema: quem disse que deveria haver uma relação lógica entre escolher profissão ou casamento e ser feliz? O autor pede um silogismo entre um tipo de escolha e a felicidade, mas ninguém com algum bom senso pediria isso. Ser feliz no mundo clássico, até Santo Agostinho, é conseguir o cumprimento da eudaimonia, a prosperidade, e a prosperidade não é algo que tem a ver com escolhas – é algo do cumprimento do ethos da polis ou do ethos do humano com Deus. No mundo moderno as escolhas tem a ver com ampliação de vida individual, com a centralidade do pensamento na condição do indivíduo ao ser sujeito, não mais membro do clã ou da polis. Mas isso é dito das escolhas sobre as escolhas, não é algo do âmbito da felicidade. Ninguém põe a escolha livre (ou aparentemente livre) como o que traz felicidade. Modernos consideram a felicidade um estado de espírito, que inclusive pode vir de modo aleatório, por uma sorte!

Aliás, o mundo moderno é, lembra bem Sloterdijk, a época em que a felicidade é boa se não está ligada a nenhum esforço, sem vem pela sorte. O heroi Fortunatus dá a narrativa da felicidade moderna: nada de escolhas, apenas a sorte (a Fortuna) de ter, por exemplo, encontrado uma bolsa que sempre repõe a ele, magicamente, o dinheiro já gasto. Assim pensamos nossa felicidade: a chance de alcançá-la de um só golpe, por herança, bilhete de loteria, um emprego miraculoso, uma união que dê posses, um remédio que nos deixe mais inteligentes e jovens etc. A jogatina financeira como sendo o suprassumo do capitalismo é posta como o Fortunatus nosso. Nossa felicidade está no aleatório, acreditamos nisso.

Mas voltemos ao Karnal, vamos ver se há uma saída para ele.

Bem, pode-se imaginar, então, que o dito por Karnal queira falar algo assim: vejam que felicidade não tem a ver com escolha – eis a verdade. Mas, dito desse modo, é pressupor que alguém teria apostado que a felicidade deveria ter a ver com escolha. E ninguém pensaria isso, nem mesmo o liberal mais crente no liberalismo. A doutrina liberal está longe da busca da felicidade. A modernidade não busca a eudaimonia, e a felicidade se tornou algo psicológico, de busca individual, mas não se relaciona logicamente com poder escolher. Escolhas pessoais podem ser dramas. Sim, podemos escolher nossas infelicidades, descobertas a posteriori. Mas o problema é que Karnal quer desmontar, com essa frase, alguma coisa que não está montada. Nenhum dos que querem decidir as coisas por si mesmos acham que fazendo isso serão automaticamente felizes, ou mesmo indiretamente felizes. Sendo assim, achar isso ideológico e querer fazer a denúncia do direito de decidir é uma tolice.

As pessoas querem escolher porque estão num mundo em que a escolha é o ethos. Ser humano é escolher. Fora a assunção ilógica de Karnal, há ainda um outro problema, e este não de lógica, mas de filosofia da história e de psicologia política. Este: se há trezentos anos o que havia, em termos de felicidade, não é pior que agora, quando podemos escolher ou até devemos escolher, então não temos que achar que hoje há mais chance de sermos felizes que antes?

A vida do servo e da mulher era melhor, não escolhendo. Eles eram felizes. A vida dos filhos era melhor, tendo de seguir o clâ ou a ordem social estabelecida e também o destino posto pelo pai. Eram mais felizes assim. Ora, a literatura desmente isso. É justamente na época de transição entre o mundo aristocrático feudal e o mundo moderno liberal que criamos o romance, as histórias dos dramas vividos pela não-escolha num mundo em que a escolha já estava aparecendo no horizonte. Horkheimer chegou até a dizer que a vontade de escolher e, portanto, lutar contra a família para poder “casar por amor”, despertou o sentido utópico do homem moderno. Pequenas lutas, grandes ideais. Ideias são ideias de vida, ideias que dizem, escolher é melhor que não escolher, mas isso não diz, e sabemos disso, coisa como “se escolhemos, então somos felizes”. Diz: se escolhemos somos livres individualmente, e o mundo da não-liberdade individual não é o futuro.

É fácil concluir que se pudermos ligar, ainda que de maneira tênue, felicidade e liberdade individual, como Karnal quer fazer, então sua frase se torna mais errada ainda. E aí não pela lógica, mas pela história: quem seria o tolo que acharia que os que escolhem o destino, ao menos antes da escolha, seriam menos felizes que os que, vendo no horizonte a possibilidade da escolha, sentissem as amarras de não escolher? Ora, há trezentos anos foi exatamente isso que ocorreu. E foi justamente isso que detonou revoluções políticas dirigidas por uma psicologia política nova. As pessoas disseram: “vamos escolher, pois se isso não traz felicidade, há de trazer mais aventura, chances, capacidade de cumprir o futuro, não escolher é coisa do passado”. Essa disposição psicopolítica fez a vida querer cumprir o que parecia ser o que viria.

Os alunos de filosofia precisam aprender lógica, não podem fugir da disciplina. E os alunos de história, além de lógica, precisam estudar filosofia se querem se meter no assunto felicidade e correlatos. Essa coisa de leigo falar do que não sabe, está prejudicando o estudante.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 24/08/2016

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30 Responses “O professor sem lógica, e sem história, e o tema da felicidade”

  1. 17/09/2016 at 20:08

    As vezes penso na questão de querer SER, pois haverá sempre alguém contradizendo aquele SER que pretende SER, na verdade é uma questão de acreditar ou não e fazer acreditar.
    Posso contradizer ser querer SER, mas não posso afirmar, pois tem gente que acredita, serei apenas um contraditor levando em contra que podemos contradizer algo real ou imaginário, nunca podemos saber a verdade.
    Tudo é questão de razão ou emoção, emocionalmente queremos ser, mas racionalmente podemos não ser, pois a razão é uma regra de convivência e a emoção é regra do EGO.
    Penso que o conhecimento real, esta desligado do do EGO, devemos ser humildes, para entender as energias do mundo

  2. 17/09/2016 at 19:49

    O problema é acreditar se é feliz ou não, depende do individuo, acreditar que a trezentos você poderia escolher a profissão ou não é especulação, sabemos que a liberdade de trabalho existe desde que o homem dividiu o trabalho.
    O problema é que algumas pessoas querem ser felizes com coisas desnecessárias , como alguns que querem ser filósofos para se auto-adoração, sem ao menos ser, mas como dize antes é tudo uma questão de acreditar.
    Por isso, acredito ser um idiota e sou feliz,

    • 17/09/2016 at 19:57

      Ronaldo a questão NÃO é essa. Não no meu texto.

    • 17/09/2016 at 20:11

      Sabemos que felicidade depende do individuo, independente do tempo ou trabalho, mas entendo vc.

    • 17/09/2016 at 22:35

      Não Ronaldo. Se fosse assim, eu não teria nada a escrever. Se uma ideologia barata como essa fosse boa, não teríamos filósofos. Bastaria o senso comum.

  3. Petrus Silva
    11/09/2016 at 02:19

    Karnal acha que o aumento da liberdade de escolha não produzir necessariamente um aumento da felicidade parece um paradoxo, quando não é. A conclusão perigosa que se pode tirar desse raciocínio torto é a seguinte: “se quando temos mais liberdade de escolha não ficamos mais felizes, para que darmos às pessoas mais liberdade de escolha?”

    • 11/09/2016 at 08:30

      Petrus, o duro é termos de ficar escrevendo isso, pois a juventude cai fácil nesse pensamento que não pensa.

  4. Dalai Lama
    26/08/2016 at 12:20

    O problema é que Ghiraldelli acredita que vivemos no “mais perfeito dos mundos”, prodígio que foi conseguido graças ás demandas da geração dele (anos 60). Então, se alguém diz (seja o Karnal seja lá quem for) que o nosso mundo não se tornou mais feliz após os hippes deixarem de tomar banho, esse alguém precisa ser combatido. De fato, sem os anos 60 Sabrina Sato não seria possível é sem ela o mundo não haveria sr tornado tão leve…

    • 26/08/2016 at 12:36

      Dalai, você tem lama, e na cabeça. Leia dez vezes o texto. Aí vai começar entender um pouco. Então, leia mais dez.

  5. João Neto
    25/08/2016 at 12:41

    Viva, Paulo.
    Há agora dois “João Neto”, putz.
    Eu digo sempre “beba água” e nunca “abracinho”.
    Deixando essa questão ridicula de lado, era para reforçar a admiração pela qualidade do texto, mais uma bola dentro, lá na gaveta. Tambem compartilho da tua opnião sobre os midiagogos.
    Cumprimentos, Paulo, muita luz.
    Beba água.
    J

    • 25/08/2016 at 14:06

      João Neto, o outro João Neto fala “abracinho”. Xi, coisa de viadinho chato. Não é você. Bebo água.

    • 26/08/2016 at 06:56

      Talvez o mundo moderno abriu horizontes para o individuo e fez ele ficar mais triste por não poder aproveitar essas oportunidades

    • 26/08/2016 at 08:02

      Ronaldo, isso é de uma banalidade tão tola que não precisaria ser dita. Não é verdade? E dito do modo que foi dito pelo personagem do texto, fere a lógica, e serve como um bom exemplo de como não pensar.

  6. Felipe Sonego
    25/08/2016 at 12:07

    Pra mim eudaimonia, ethos e fortunatos são palavras chaves. Falar sobre hedonismo traçando paralelo entre 300 anos é o ponto Central. Incrível pq estou cursando filosofia e esse conteúdo fala muito do momento que estou vivendo. Como arrumar emprego qdo parece que vc encontrou prazer em não fazer nada? Digo que não sou feliz não fazendo nada. Gostaria muito de estar entre cidadãos trabalhando do que em casa pensando qual o melhor passo a tomar. Produzir dá sentido para vida. A gente se distrai um pouco desse mundo ora paranóico ora persecutório.

  7. Osmar G. `Pereira
    25/08/2016 at 11:40

    Bom dia Professor,
    “Leigo falar o que não sabe” não passa pelo não entendimento de liberdade? Especie de “profanação” exaltada com o peremptório “essa é a minha opinião” tão em voga no momento – em qualquer debate -, que encontra sua “legitimação” nas “falas e análises” dos “especialistas” midiáticos?

    • 25/08/2016 at 12:31

      Leigo falar o que não sabe é um direito, agora, o triste é quando quem houve começa a dar crédito.

  8. Orquideia
    25/08/2016 at 08:32

    Tem razão,prof.,se “escolher” não rende felicidade, “não escolher” ainda por cima é falta de responsabilidade,e com consequências que nos deixam… menos felizes.

  9. Felipe Silva
    24/08/2016 at 20:55

    Concordo com o Professor Paulo em todos esses detalhes. Mas creio que o Karnal tenha dado um exemplo geral para iniciar uma resposta de dois ou três minutos de um tema abrangente. A velocidade das perguntas, o formato da entrevista muitas vezes atrapalham alguém que poderia dar explicações mais aprofundadas ou melhores para pessoas que estão com pressa e agitadas. Isso leva a respostas prontas, rápidas porque a próxima questão já será formulada e terá que ser respondida com a mesma rapidez. Penso que o jogo midiático é um jogo mais de divulgação, de apresentação de assuntos. Isso é ruim porque é generalizante mas tem um lado bom de apresentação das disciplinas. Muitos equívocos são cometidos, mas penso que é muito mais pelo formato da mídia e da pressa do que por aqueles que tentam pensar.

    • 24/08/2016 at 21:37

      Felipe, meu texto não é sobre o Karnal. Putz!

  10. joao neto
    24/08/2016 at 19:49

    Paulo se fosse uma questão de escolha você ia querer um roda viva só pra você? Com entrevista da Luana Piovani? O karnal é o queridinho da esquerda média intelectualizada. Vai por mim, tenho amigos gays da faculdade que dizem que casariam com o Karnal!! Sei lá, tem gosto pra tudo. Mas você acha que temos tanta liberdade assim? ou é daquela galera da filosofia, geralmente especialista em Nietzsche que diz que a sorte da humanidade já está decidida? abracinho

    • 24/08/2016 at 21:38

      João Neto fico triste quando uma pessoa não entende meu artigo e fica preso nos personagens, não no conteúdo. Mas, felizmente, meus alunos e bons leitores entenderam.

    • joao neto
      24/08/2016 at 22:29

      Ai Paulo, você já foi mais bem humorado! Uê gente, só você tirar os personagens e responder as dúvidas..
      especialista em Nietzsche que diz que a sorte da humanidade já está decidida..
      boa sorte!
      Vou torcer pra um De frente com Gabi com Ghiraldelli

    • 25/08/2016 at 12:35

      Eu sou bem humorado, mas quando o cara fica com os personagens e apresenta dúvidas pífias ou não tem dúvidas, não dá para falar nada. Foi o que fiz. Você jamais verá uma Gabi comigo. Acorda cara. Não faço o tipo. Ela funciona com guru, a mídia funciona com guru. Não tenho vocação para cultivar o errado.

    • LMC
      25/08/2016 at 11:06

      Joãozinho,você acha o Roda Viva
      ruim?Então,você não viu o Canal
      Livre,da Band.kkkkkkkkk

  11. Guilherme Pícolo
    24/08/2016 at 18:19

    Realmente trata-se de uma colocação muito mal feita por ele, cheia de premissas sem qualquer correlação, que por isso não permitem alcançar uma conclusão.

    Aliás, não consigo ler a conclusão dele, por inferência pode ser qualquer uma das seguintes: 1- apesar de conquistas em relação às liberdades individuais, ainda não conseguimos alcançar a realização pessoal; 2- as liberdades individuais são irrelevantes para a conquista da felicidade; 3- somos infelizes porque somos livres para casar com quem queremos e escolhemos nossos empregos. Hehehee!

  12. F.M.
    24/08/2016 at 15:19

    O Karnal não é nenhuma criança. Será que ele também não leu Sartre e os existencialistas ? A liberdade de escolha pode significar tudo, até angústia, mas felicidade não. Nem filosófica nem psicologicamente.
    Mas se o Karnal diz isso talvez ele o faça jogando pra plateia. Karnal é o retrato daquele novo tipo das ciências humanas que fala de tudo ,desde psicanálise até filosofia.É natural que alguém assim tenha de dizer uns clichês para a plateia.

    • 24/08/2016 at 16:03

      FM, o Karnal é um achado para mim. Toda vez que preciso de um exemplo errado, encontro nele. O Pondé perdeu.

    • LMC
      25/08/2016 at 11:09

      Tem gente pior,PG.O Vladimir
      Safado,por exemplo.

    • 25/08/2016 at 12:32

      Ele não comete erro de lógica, ele fica aquém de erro. É non sense. Mas meu artigo não é sobre Karnal.

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