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30/05/2017

O professor pecador como exemplo


Temos um bom ensino? Os governos batem em professores com a polícia. Qualquer governo! As mães xingam o professor. Qualquer mãe! Os estudantes tentam humilhá-los. São poucos os estudantes que ainda entendem o que é um professor! Há até estupro de professor. Há linchamento de professor que conversa com a aluna! Onde começamos a errar?

Por que o professor se tornou um pecador? Quando foi declarado um novo Judas do mundo, com direito a mais que um dia de malhação pública? Quando ele se tornou aquele que merece castigo diário?

O professor era o símbolo da franqueza e da honestidade intelectual. Isso chegava ao extremo. Quando recebíamos as provas de volta, para vermos nosso desempenho, nossa nota baixa nos fazia chorar. Era vergonha, fracasso. O fracasso estava no horizonte, e se descuidássemos um pouco, ele nos abraçava. Não discutíamos nota, aceitávamos a nota. Ela nos dava a exata dimensão de nosso fracasso e, portanto, a correta medida de quanto deveríamos nos esforçar para não sermos a escória. Sabíamos disso. Era verdade contra verdade. Fazer prova era por-se à prova. Era um ato de coragem e sabedoria. Não sofríamos muito não, pois esta era nossa sociedade. Tínhamos essa nossa sociedade como o que é uma sociedade senão perfeita, ao menos correta.

O professor era nosso amigo porque não nos enganava nisso, no nosso trajeto. Ensinava e corrigia. A prova era o ápice dessa correção. Marcava o início de uma nova etapa. Ir adiante ou ficar. O desonroso não era só ficar, repetir. Isso era desonroso, sim, mas havia algo pior: desistir. O repetente que desistia (no terceiro ano do grupo) era a escória. Os que não desistiam, uma vez mais velhos, não se cansavam de falar bem da escola e de serem amigos dos professores que tiveram. Minha geração viveu isso. Falo bem da escola e lembro dos meus professores com carinho. Meus colegas fazem o mesmo. O autodidatismo louvado por alguns nunca teve valor nessa minha sociedade do passado. Só a escola e o professor dava socialidade e disciplina no interior da socialidade. Inteligência era inteligência social. Não era inteligência falsa, daquele que berra à margem para que tudo fique sempre como está ou pior, o que se acha injustiçado por ser um gênio repetente incompreendido.

Por ser esse homem exemplar, o professor, capaz de dar aval aos destinos escolhidos por cada um, tinha enorme autoridade. Era legítima sua autoridade. Os pais confirmavam isso: autorizavam o professor a nos castigar, delegavam para o professor o que a sociedade e a lei haviam já  delegado. Ele, o professor, era competente porque sabia o que tinha de saber, mas principalmente porque podia usar do saber como elemento moral. Afinal, a escola nasceu em função da moral, só depois veio a se acoplar à aquisição do conhecimento e, então, do conhecimento científico. O professor honrava essa origem da escola. Por isso, durante um bom tempo da República, ele só ampliou salários e direitos.

Mas, a partir de um determinado momento, o professor foi forçado pelos novos costumes trazidos por um tipo de aburguesamento da pedagogia a agir diferente. E então, até pela lei que, afinal, incorporou o novo ethos de uma sociedade de mercado exageradamente adocicada (para vender, precisamos ser doces), ele foi posto  a mentir, a ser um falso. Bem vindo ao mundo moderno – isso foi anunciado! Todos vocês, professores, devem agora “vender seu peixe”, que vença não o melhor peixe, mas o melhor vendedor. Os alunos vão comer o peixe e lhes dar nota não pelo peixe, mas pela pantomima que fizerem ao mostrar dotes teatrais de mercado. Que vença o melhor marketing. Os alunos imitaram então, que vença o melhor marketing! No limite, anos depois, iria se ensinar até “empreendedorismo” na escola, a ideologia máxima de uma  sociedade que se criou para produzir e que se tornou uma roda girando em falso.

Nessa trajetória toda, pareceu Xuxa e outras bonecas loiras, e o professor começou a ser comparado com ela. Só então apareceram tolos de esquerda para teorizar sobre a TV e dizer o mesmo da direita: o professor não pode competir com a TV, com a tecnologia, “a escola está afastada da realidade” etc. Não se seguiu Anísio Teixeira ou Paulo Freire dizendo que deveríamos nos educar juntos (só detratores de filósofos, como Pondé, acreditam que seguimos), mas seguiu-se a ideia de que o professor deveria ser um “comunicador”, o que foi logo tomado sob o crivo da docilidade, do marketing, do excesso de festa, do engodo: Sílvio Santos vendendo a farsa do Baú era o bom comunicador. Flávio Cavalcante quebrando discos era bom. Bozo devia ser seguido. Isso era a educação de vanguarda! Hoje os teóricos não falam que Faustão é bom, que é melhor que qualquer professor, mas acreditam nisso! Os que mais falam contra a TV hoje são os que mais a copiam no pior, exigindo do professor que a imitem. Os que mandam que a população desligue a Rede Globo são exatamente os que mais acreditam que esses que citei competiam com a escola porque eram professores influentes. São os “pedagogos do amor”. Do outro lado, os grandes intelectuais chefiados pelo Danilo Gentili, o homem que o jornal Estadão já mostrou várias vezes que perde para todos no ibope (como se mantém, então, senão pelo dinheiro da política de direita?).

O nosso hoje é o tempo em que o professor tem de agradar o ignorante, o que não estuda, o desonesto e o energúmeno. Afinal, todos devem ser doces numa sociedade em que tudo é para vender, que tudo é doce. Uma sociedade de confeiteiros e formigas de nariz empinado; querem o doce, mas fazem “cu doce” para tudo. Então, aos poucos o professor foi corrompido. Ele se tornou falso sem perceber. E eis então que todos os alunos ganharam diante de si o exemplo do que no passado era o que não se devia imitar de modo algum, o falso. Ser corrompido tornou-se um ideal. Na escola particular ou na pública, ou o professor é um palhaço na frente do quadro, pulando e agradando, e depois mentindo na nota de cada um, ou não é professor. E se é professor, mesmo agradando, vai apanhar. Apanha do governo, do patrão, do sindicato populista, dos pais e dos alunos.

Mas o exemplo negativo não funciona. Funciona o positivo. O exemplo negativo funciona como exceção, não como regra. Uma vez todos os professores se tornaram falsos, o que se tem como espelho é a falsidade se espraiando. E então criamos uma geração inteira de “mimimosos”, gente que quer respostas hipócritas, que quer se agradada, que não suporta o revés e que, enfim, não tem nenhum caráter. Gente que não pode pensar, pois pensar doi a cabecinha. Fizemos isso num prazo de quarenta anos, com ricos e pobres, mulheres e homens, até gays caíram nisso. Estamos agora imerso nessas fezes. Essas fezes são de uma sociedade que perdeu completamente aquilo que Alcibíades sentida ao menos na presença de Sócrates: vergonha.

– “Seu filho foi reprovado, senhor”. “Ele sequer veio às aulas”

– “Eu quero que aprove meu filho, ele teve problemas”

– “Mas senhor, vai ser bom para ele ver o fracasso, saber perder, saber recuperar-se”

– “Aprove-o simplesmente, estou mandando, esse é o seu serviço, da educação do meu filho cuido eu”.

Não fizemos isso tudo que fizemos de errado por política, em sentido estrito, fizemos isso por vida social e organização de nossa vida em torno da nossa forma de produção. A mercadorização de tudo teve um peso nisso. Fez de nós todos comerciantes, pessoas que precisam de toda maneira agir de maneira suave de modo tão extremo que acabou se tornando hipócrita ao extremo. Toda nossa vida foi atingida por isso, como tão bem previram e descreveram os clássicos da filosofia e sociologia Marx, Durkheim e Weber, e como Rawls e Nozick, por vias diferentes, tentaram consertar com uma sobreteorização filosófica. E a legião de eunucos falsários que criamos, na frente da sala de aula, é o espelho para a legião de jovens falsários e futuros eunucos, na carteiras.

Quanto mais grito de impotência são ouvidos na Internet, quanto mais “ódio social” reverberado aparece, quanto mais organizações de direita e esquerda se fazem em torno da ideia do “fascio”, mais vemos o quanto tudo isso se liga ao fim da escola como respiradouro intelectual de franqueza. A soberba do ignorante é o chantili de ressentido. Aparece então esse tipo de bolo, para empaturrar uma sociedade em eterna festa de pirralhos. Ali também, na escola, ou principalmente ali, todo o exemplo sadio se tornou contra-indicado. Deu no que deu.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 57.

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8 Responses “O professor pecador como exemplo”

  1. André Santos
    30/04/2015 at 02:18

    E por falar em educação, olha só isso:

    https://www.youtube.com/watch?t=584&v=SQGY9-JIuXw

    • Crodi
      30/04/2015 at 18:00

      Terrorismo intelectual. (?)

  2. Luma
    29/04/2015 at 19:24

    Que triste isso, Paulo…Realmente, se o professor tenta agir como esse professor de antigamente que você descreveu, ele se torna inimigo dos alunos mimimi…

    • ghiraldelli
      30/04/2015 at 09:54

      Luma mas por isso fizemos algo como o CEFA. Não deixe de construí-lo. É mais seu que meu.

    • Luma
      30/04/2015 at 23:45

      Obrigada, Paulo. Só estando perto de pessoas como você para ter forças para continuar a fazer a coisa certa.

    • ghiraldelli
      01/05/2015 at 08:09

      Luma os leitores sem perfil ficam com o perfil oficial, que é o burrinho. No seu caso, o contraste total, você é inteligente, bonita e doce. Não vamos deixar você fugir para a Hungria.

  3. ghiraldelli
    29/04/2015 at 16:49

    Meu caro, o Olavo é um fracassado. Ninguém gosta de estar na pele dele. Além disso, ele é débil mental, ele não consegue sequer saber a lei da gravidade. Ninguém quer ser debilóide. E por fim: as igrejas compram livro dele e os reacionários débeis mentais, por isso, ninguém quer vender livro para quem ele vende. Quando eu quiser ter inveja de alguém, será de gente de valor. De resto, vir falar de PT para mim é realmente não entender nada de nada.

  4. Matheus Kortz
    29/04/2015 at 15:29

    Sobre o fim do texto, a arrogância (no mundo acadêmico, porque o mundo intelectual aprece que morreu) https://www.youtube.com/watch?v=TPmpYeMbXOg

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo