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20/11/2017

O problema não é o ódio


Ódio todos têm. Mas nem sempre há consequências. Crueldade sim, é um problema. 

A inveja social pode se acoplar a ódios étnicos e de grupos ou de classe e até de gênero. Uma sociedade sem ódio seria de tal modo algo estranho que, talvez, nem pudéssemos usar o termos burguês “sociedade”, ou seja, “empresa”. Uma empresa sem ódio externo não faria coisa alguma, não processaria a natureza, não exploraria humanos e assim por diante. Não seria uma empresa. Internamente, sem conflitos hierárquicos, de poder e de revanches sexuais, uma empresa seria mais um negócio de S. Pedro nos Céus que sua Igreja na Terra.

O ódio é inevitável. Mas a crueldade é facultativa. Aliás, a maioria dos nossos ódios não resulta em crueldade. A crueldade implica na retirada da ajuda, na completa falta de solidariedade, no descaso e, mais que isso, no voluntarioso ato de ferir e fazer sofrer. Os maiores ódios não resultam necessariamente em crueldade. O ódio é como uma teoria que precisa desinibir-se para encontrar seu sujeito e passar à ação. Nessa passagem, as energias se dissipam. Algo se perde. E os resultados práticos do ódio, não raro, terminam por não se efetivar em situações de crueldade, somente em batalhas talvez terríveis e, no entanto, suportáveis.

Desse modo, uma sociedade precisa notar em que momento que seus membros estão se tornando cruéis. Ver em que momento odeiam, seria uma tarefa inesgotável. Toda educação boa tem como objetivo não a eliminação de divergências que podem carregar ódio, mas a atenção para com as práticas que fazem a crueldade se tornar corriqueira, banal, constante, permissível e até elogiável. Aliás, a crueldade é crueldade por conta da constância. “O trabalho liberta”, é o que estava escrito no portão de Auschwitz. O que queria dizer? Nada senão a ideia do peso. O trabalho é o que fazemos e fazemos e fazemos. É nossa ideia de cotidiano e repetição. Num lugar em que todos serão dizimados, a ideia é do peso contínuo. Essa continuidade é a crueldade.

Bobagem em falar em ódio. Este não é cotidiano, não tem continuidade, é histriônico, sofre intempéries. Não tem disciplina. Só a crueldade tem disciplina. Não há nenhum ódio em matadouros, só crueldade. São reinos do trabalho, do cotidiano, da disciplina e do que se exerce na monotonia do trabalho. Liberta? Claro. Os mortos ficam livres. Nossos animais sonham a libertação. Vivem sob a disciplina. A crueldade pertence aos laboratórios e matadouros.

Cada criança de nossa sociedade que aprende a disciplina da dureza, do contínuo, do sofrimento que deve ser infringido porque liberta, é a aprendiz da crueldade. E vai se cruel. Quando filósofos e pensadores sociais começam a falar de ódio, estão apenas querendo jogar com ideologias. Todavia, se realmente impedem a crueldade, aí sim agem como pensadores, como sábios, como quem realmente está interessado em mudar nossa vida para algo melhor.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

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8 Responses “O problema não é o ódio”

  1. LMC
    05/01/2016 at 11:11

    O bestão do Trump se for eleito
    Presidente dos EUA vai botar
    pra fora todos os muçulmanos
    que vivem na América.

    No Brasil,a Polícia mata pobres
    inocentes que ela acha que são
    bandidos.

    E há os que pedem um golpe
    militar,já que seu candidato
    favorito não ganhou as ultimas
    eleições.

    Se não existe ódio nestes
    casos,passa bem pertinho…

  2. G. DE JESUS
    04/01/2016 at 10:52

    Origem da palavra Trabalho

    Do latim tripalium, termo formado pela junção dos elementos tri, que significa “três”, e palum, que quer dizer “madeira”.

    Tripalium era o nome de um instrumento de tortura constituído de três estacas de madeira bastante afiadas e que era comum em tempos remotos na região europeia.

    Desse modo, originalmente, “trabalhar” significava “ser torturado”.

    • 04/01/2016 at 11:47

      Jesus você lembrou bem. Mas, mesmo que eu tivesse isso em mente, procuraria não ir por essa via no meu texto, por razões que são as do velho preconceito contra o trabalho, etc etc. Usei a palavra “peso” e “disciplina”, que é para ficar no vocabulário que tenho mantido nos últimos dois anos, por conta de Sloterdijk.Agora, por essa sua via, dá um outro texto, talvez fique bom.

    • G. DE JESUS
      04/01/2016 at 15:05

      Sempre vejo você partir desse tal “Sloterdijk”, não o conheço… Por onde começar a lê-lo?

    • 04/01/2016 at 15:09

      Existe em português, que acho bem interessante, O Palácio de Cristal (Relógio D’Água).

  3. 04/01/2016 at 10:32

    Enfim, alguém diz algo que preste sobre este espinhoso assunto e o retira da sacristia…

    • 04/01/2016 at 10:37

      Paulo Timm não tinha pensado nisso. Obrigado!

  4. Maximiliano Paim
    04/01/2016 at 08:02

    Difícil é ainda perceber e ter de falar que existe a crueldade em alguma situação familiar com animais domésticos. Nunca se imagina e muito menos se deseja um momento desses.

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