Go to ...

on YouTubeRSS Feed

20/11/2017

O politizado não vale o que diz valer


Exige-se a politização. Mas ela é mesmo algo que vale a pena sustentar?

Quando jovem Alcibíades disse a Sócrates que desejava ser um líder de homens, um dos que pudessem falar na Ágora e encaminhar os negócios da cidade. Sócrates lhe disse que essa tarefa demandava conhecimento. Alcibíades retrucou afirmando que, perto dos homens de destaque na Ágora, o que ele sabia já era até mais que o suficiente. Criando uma narrativa sobre a preparação de príncipes na Pérsia e outros reinos do mundo antigo, Sócrates o fez ver que ele sabia bem menos do que imaginava saber para poder ser o que desejava. O que ele desejava, afinal, era ser um político. O filósofo tentou mostrar a ele, talvez por meio de uma exposição muito mais imaginativa do que pudesse admitir, que ele não tinha que pensar em suas necessidades objetivas a partir de seus pares, mas a partir das necessidades de Atenas diante do exterior.

Alcibíades era sobrinho do grande Péricles. Apesar de Sócrates frequentar a casa de Péricles, e de dizer que recebia aulas de dialética da esposa estrangeira do governante, a bela Aspásia, ele estava longe de ser um admirador de políticos. Decididamente, Sócrates não os achava inteligentes. Muito menos acreditava que, para poder tocar os negócios da cidade como eles vinham sendo levados adiante, era mesmo necessário algum conhecimento digno de nota. Na verdade, Sócrates não tinha lá em alta conta o saber político.

A ideia de um saber político não veio dos gregos, mas dos romanos. Quando as cidades reemergiram nos tempos finais do feudalismo, o saber burguês de organização dos burgos não tinha onde beber senão em novos teóricos que, por sua vez, só tinham como exemplos práticos o modo de governo dos diversos locais que haviam sido, um dia, centralizados pelos césares. A própria Revolução Francesa e a Americana se travestiram com roupas romanas. Todavia, elas inauguraram o novo apreço pela cidade e criaram um saber político diferente. Elas geraram a ideia da política como ligada a classes sociais, a grupos dos burgos e, principalmente, às divisões entre ricos e pobres, entre direita e esquerda.

Quando Marx analisou esses processos todos, ele procurou reescrever a história sob o signo dessas lutas modernas classistas. Ele deu grande valor às revoluções políticas e sociais. Insistiu na questão da divisão entre ricos e pobres e procurou distinguir o que os fazia existir no novo contexto. Ao terminar sua vida, Marx deixou para Engels um vocabulário totalmente novo, um modo de falar parecido com o que conhecemos hoje no campo da filosofia política. Há aí um saber especial, o saber político moderno, e só sobre ele pudemos ter gente como Rawls e Nozick nos dias de hoje falando em teorias políticas. Mas, decisivamente este não é o saber dos professores universitários em sua maioria, muito menos dos jornalistas e dos próprios políticos, ainda que estes achem que estão falando de Marx ou até de Weber, ou de fundamentos utilizados por estes, o saber de Rousseau, Locke etc. Hoje em dia há professores universitários que acham que sabem alguma coisa ao dizer que Marx ou Rousseau eram “marqueteiros”. Gente assim, perdeu a vergonha!

O que se faz no âmbito desse senso comum escolarizado que se diz “politizado” não é propriamente filosofia política, quando muito é um arremedo de ciência política misturada ao jornalismo, não raro militante.  Fala-se então, em termos antes simplórios que simples, da luta pelo poder, o poder em si mesmo e os modos de administrar o lugar de poder e as funções da cidade. Compreender esses elementos corriqueiros, sem sofisticação filosófica, mesmo sem ser alguém do poder, é o que hoje se chama “politização”. Só então, por um desvio pouco alvissareiro, é que essa “politização” surgiu como sinônimo de “ser bem informado” e “ser crítico”.

Principalmente após as transformações dos sixties, ser politizado tornou-se um imperativo para aqueles que queriam ser chamados de intelectuais, de homens inteligentes. Na verdade, a caricatura do intelectual é que deu a marca do “politizado”, que veio a se autoproclamar o protótipo do homem inteligente.

É um fenômeno recente, portanto, exigir de um homem o distintivo de “politizado” para caracterizá-lo como culto ou inteligente ou “de letras” ou um intelectual.  A versão pobre disso tudo, se é que se pode descer mais, são os estudantes que, filhotes de professores universitários de pouca capacidade, se tornam esses inteligentes por serem os politizados. Eles sabem só uma coisa: devem ter uma posição “coerente” à esquerda ou à direita. Assim, os da direita acham que ser inteligente é ser de direita e os da esquerda acham que ser inteligente é ser de esquerda. Que brilhantes! E todos são “coerentes”. Nunca leram Emerson lembrando que o medíocre e o mesquinho só pode ser o coerente.

Somente em um mundo onde tudo virou caricatura de mau gosto é que se poderia imaginar a politização, até mesmo a aparentemente sofisticada, como sinônimo de inteligência. Os bons intelectuais de todas as épocas, os grandes filósofos, até os mais engajados politicamente, nunca viram na política um grande conhecimento propriamente dito, capaz de poder caracterizar um homem e seu saber.  Só nós, atualmente, pensamos isso. Principalmente nós, os ainda herdeiros da cultura francesa. Como dizia Rorty, franceses sempre buscaram o êxtase no lugar em que americanos jamais o buscariam: na política, não na cama.

Entre nós então corre essa lenda ridícula. Os que olham com desdém para a política ou mostram que ela não é senão um conglomerado de tiques psíquicos de gente que poderá ir do pedestal à prisão em poucas horas, são vistos como tolos. Ensina-se na escola que é necessário ser um cidadão “consciente e crítico”, em uma palavra: “politizado”. Nada há de mais tolo que isso. Um homem inteligente não tem nada a ver com um homem politizado, seja este em forma de caricatura ou não. Filósofos que cedem à politização (clara ou disfarçada) nunca passam de arautos de camarilhas, bastardos de coronéis, bonecos de pano de bancos e empreiteiras ou puxa saco de governantes que adulam e massacram a universidade.

O estudante politizado é antes de tudo um frouxo – mental e fisicamente. Já faz tempo que ele se esconde por detrás do discurso de jornalistas reacionários para dizer que ele é melhor que seu professor marxista. Já faz tempo que ele se esconde no DCE tomado por grupelhos de esquerda para dizer que seu professor é “machista, homofóbico, elitista e racista”. Em ambos os casos, a politização nada é senão um véu para esconder a incompetência, a mágoa pessoal, o medo do fracasso que já está ocorrendo e, enfim, a vagabundice de gente cujo DNA é de vagabundo.

A noção de homem inteligente como homem politizado é um mito moderno. Mito caricaturesco contemporâneo. Não se sabe nada sabendo da política além do que um símio já não saiba ao conseguir comandar suas fêmeas e dar continuidade à prostituição, coisa que todo bando de macacos já faz.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 57.

Tags: , , , , , , , , , , ,

11 Responses “O politizado não vale o que diz valer”

  1. Joaquim Cruz
    24/05/2016 at 21:06

    Prezado amigo Paulo Ghiraldelli, passei no google para pesquisar sobre Politização de um Ser humano, pronto!!! Vi esse testo perfeito e competente… E agora vejo o quanto estamos longe de manter essa medalha no peito e dizer que somos homens e mulheres politizados. Obrigado, por nos agraciar de forma tão espetacular sua visão da politização moderna do mundo atual, pois abriu o buraco negro que se encontrava na minha mente. E a luz resplandeceu no fim do túnel, parabéns e colei seu pensamento no meu facebook, pois não suportava mais essa briga de esquerdopatas e direitista pelo poder…. Valeu!!!! Abraços… Ass: Joaquim Cruz um admirador.

  2. FERNANDO
    30/09/2014 at 14:07

    acredito que o Paulo está aprendendo muito com o Robert KUrz, parabens,….

    • 30/09/2014 at 14:09

      Fernando, você desenterrou defunto, mas não entendeu meu texto. Não foi capaz de entender um texto fácil, completamente otimista. Tente ler mais vezes e notar que meu pragmatismo não deixa eu colocar objetivos que não sejam os meus. Portanto, se a teleologia energizada acabou, melhor, posso ter mais espaço para a minha, cotidiana. Não que é todo dia texto novo, todo ano mais livros, o CEFA, o Hora da Coruja? Não sacou? Não percebeu nada? PUtz!

    • FERNANDO
      07/10/2014 at 08:32

      PAULO: SEI DA TUA CAPACIDADE, ACREDITO QUE NÓS PODEMOS APRENDER MUITO COM OS MORTOS E COM OS VIVOS TAMBÉM, ELES DEIXARAM GRANDES CONTRIBUIÇÕES PARA O “DESENVOLVIMENTO HUMANO”, DIFERENTEMENTE DOS QUE SE DIZEM QUE JÁ NASCERAM INTELIGENTE E FILÓSOFO ( SERÁ QUE ISSO É UMA CONDIÇÃO BIOLÓGICA? EU NAO SEI ) EU ESTOU SEMPRE TENTANDO A APRENDER, ENTENDO QUE ESSES DEFUNTOS DEIXARAM GRANDES CONTRIBUIÇÕES, Marx, Freud, Nietzsche, Einstein, Kurz, Platão, Etc., ENFIM, EXISTE POUCAS COISAS NOVAS HOJE, SE É QUE PODEMOS CONSIDERAR NOVAS, QUE NÃO SEJA A CONTINUAÇÃO DE ALGO JÁ EXISTENTE QUE VEM APENAS COM UMA NOVA ROUPAGEM, ESPERO CONHECER O NOVO. NÃO PRETENDO SER DISCÍPULO DE NINGUÉM, MAS MINHA “CONSCIÊNCIA” PERMITE DEFENDER ALGO QUE PENSO QUE PODE SER “BOM” PARA A HUMANIDADE. ENFIM, VOCE TEM ALGUM ARTIGO FALANDO SOBRE O DINHEIRO? QUE EU POSSA LER. OBRIGADO, UM ABRAÇO.

      O FIM DA POLÍTICA – 1993 – Robert Kurz

      http://obeco.planetaclix.pt/

    • 07/10/2014 at 13:31

      Não sei se tem gente que nasce inteligente, agora, que tem gente burra eu sei porque o número de limítrofes detectados é grande. Há muita coisa falando sobre dinheiro. Marx fala demais em O capital, e fala coisas interessantes. Simmel tem a filosofia do dinheiro. Há um artigo legal de Rorty sobre isso. Eu tenho meu artigos sobre mercadorização no meu blog.

  3. Guilherme Gouvêa
    29/09/2014 at 10:49

    O Levy Fidelix teria confidenciado a simpatizantes (eles existem?) que gostaria de ser convidado para a Hora da Coruja discutir alternativas de uso para o aparelho excretor. Hahaha…
    *
    Que desilusão essas eleições.E que sentimento de frustração e não-pertencimento a nosso próprio país!

  4. Valmi Pessanha Pacheco
    29/09/2014 at 09:37

    PAULO
    Brilhante comentário.No Brasil a Universidade está infestada, há tempos, desses “politizados” que você caracteriza de maneira irretorquível.Não de outra forma, as chamadas Políticas Públicas são comandadas por aqueles que confundem “Policy” com “Politics”. Neste tempo de mediocrização prolongada creio que necessitamos de um novo “Renascimento”.
    Parabéns.
    Valmi.

  5. Pedro
    28/09/2014 at 19:29

    É, terei muito sobre o que pensar… Tiro certeiro!

  6. 28/09/2014 at 09:47

    Eu não sei bem o que o caro filósofo entende por “politizado”, mas chamar um estudante “politizado” de frouxo, intelectual e fisicamente, é no mínimo uma acusação pesada, eticamente falando. Então o nobre filósofo defende que os nossos estudantes sejam “despolitizados”, ou seja, que nada entendam de política e não militem em causa nenhuma? Que os estudantes, como na época da ditadura militar, sentem seus bumbuns nas cadeiras dos colégios e faculdades e não se metam em política? É isso, senhor Ghiraldelli? Se assim for, sua posição não deixa de ser também polítizada, ou seja, política, mas no sentido negativo. Será que entendi seu conceito?

    • 28/09/2014 at 10:20

      Chico o texto é bem explicado. E dado que já expliquei em outros textos e você não entendeu, não creio que você queira entender. Mas vou tentar em poucas frases, talvez as pessoas estejam querendo pensar por meio de poucas palavras. A politização NÃO é sinônimo de inteligência, porque ela diz respeito ao problemas de poder da cidade, e a vida na cidade, a vida política, não é a única nem a melhor dimensão da vida humana, esta é mais complexa e quem consegue equacionar problemas da vida humana em geral tem chances de ser mais inteligente, ou se mostrar que é mais inteligente. Colocar a questão do poder na cidade como sendo sinônimo de inteligência e até sinônimo de ser gente é um erro. E não é isso que Aristóteles indicou falando do homem como animal política, aliás, uma tese com opositores fortes, como Agostinho. Se agora não deu, desisto.

    • Usp10
      29/09/2014 at 11:30

      Se participar da política é ser inteligente, então saber atravessar a rua também é inteligente, já que se não soubermos não podermos sair de casa e viver em sociedade. Quem sabe o quanto horário político é um saco sabe o quanto a política também é!
      Bom Texto Paulo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *