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25/07/2017

“O homem mais honesto do mundo” e sua ex-doméstica


Uma das formas conhecidas do mundo moderno se mostrar moderno é sua capacidade de dar aval para tudo que vem do sofrimento. Claro que isso tem a ver com o cristianismo e com a substituição do código ético-moral da honra pela regra pautada no sentimento de pena. Tem a ver com a conquista do mundo moderno no sentido de criar um tipo de política – a liberal – que se guiou pela ideia cristã e iluminista de diminuir a humilhação dos fracos pelos fortes. 

Hegel e Nietzsche nos ensinaram a ver cristianismo e iluminismo como movimentos de mútua colaboração, e desmentiram Voltaire insistentemente, ainda que este tenha ficado nos manuais escolares mais que aqueles. Mas, é só observarmos um pouco, e vemos que o homem moderno diz buscar as coisas pela própria razão e faz dessa razão algo irracionalmente subserviente da diretriz fácil e ideológica de que o que parece humilhado é o melhor.

Assim, a política moderna tomou um rumo inusitado. É necessário se mostrar, de alguma forma, um self made man, um vencedor individual, e ao mesmo tempo é necessário aparecer como o mais humildade e humilhado dos homens. Um bom político populista, então, deve ter uma vida sofrida, honestíssima (quando relatada por ele mesmo), deve ter sido salvo por Deus de morrer de fome no inferno de alguma região e, claro, é bem útil que tenha uma esposa que foi empregada doméstica (afinal, há alguma que não é humilhada?). Claro que esse político deve, ao falar isso, já ter roubado o suficiente para não estar nessa condição e, então, poder falar isso tendo quem o escute. Seu relato deve ser algo do passado remoto, mas um trunfo que pode ser tirado do bolso do colete (mesmo sem colete) em momentos televisivos. Todo político que consegue fazer isso, garante que sua mediocridade não o atrapalhe.

Há grandes líderes mundiais que, de origem humilde, se recusaram a desempenhar esse papel. Lincoln é o caso clássico, Mujica é um caso atual, e Obama um caso atual e especial, por ser negro. Foram homens que, exatamente por não terem se envolvido em corrupção, jamais usaram para fazer política, para falar, de outra coisa que não propostas. Foram homens que falaram principalmente de problemas de suas nações. Nenhum deles  possui discursos de uma hora falando de si mesmos, de quanto sofreram, de quanto vieram “dos de baixo” e, principalmente, do quanto apesar de amizades espúrias ligadas a corrupções de seus partidos, nunca souberam de nada sobre o dinheiro que os elegeu. Nos três casos, a imunidade ideológica de suas mulheres não ocorreu, pois eles não tiveram esposas com a salvação moderna de terem carteirinha eterna de ex-doméstica.

Lincoln morreu assassinado por um fanático sulista. Mujica está vivíssimo e, depois que deixou a presidência, vive na sua chácara, que não melhorou em nada por ele ter sido presidente. Obama salvou os Estados Unidos de sua segunda maior crise e deixará o cargo para se recolher a alguma fundação não de engrandecimento próprio, mas de problemas do país. Os que não acreditam na democracia liberal deveriam olhar bem para esses homens, do sul e do norte em nosso grande continente, e pensar melhor. O liberalismo moderno, com suas variantes de Locke a Sloterdijk, passando por Rawls e Rorty, tem um modo bom de acontecer.

O segredo desses homens é não ter endossado a ideologia maldita que diz “sou pobre eternamente, sou humilhado eternamente e, por isso, ganhei o direito de não prestar nenhum depoimento em justiça nenhuma. “Sou o homem mais honesto do mundo”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: VOCÊS SABIAM que Marx escreveu para Lincoln cumprimentando-o pela re-eleição nos Estados Unidos e dizendo que os trabalhadores do mundo iriam para onde os trabalhadores do “país da bandeira listrada” fosse?

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15 Responses ““O homem mais honesto do mundo” e sua ex-doméstica”

  1. Daniel Ricco
    08/03/2016 at 14:38

    Pelo menos fica claro nos escritos de Marx, que ele não pretende eliminar o liberalismo e muito menos se livrar de suas heranças históricas. Marx entende, por sua noção de história como sendo um círculo (a liberdade como ponto de partida e chegada ao mesmo tempo), que o liberalismo deve ser superado e não eliminado, ou seja, elegeu o comunismo como uma alternativa de superação do capitalismo através de sua história, que é a própria dele na qual vivia todos os dias. Nesse sentido, bate com o pensamento de que devemos ser “versões melhores de nós mesmos” de Rorty e, que para isso, precisamos da história não para renegá-la, como se o passado fosse pior do que hoje, mas para tomá-la como herança e transformar-nos em melhores versões. De forma alguma Marx era contra o Liberalismo. Elogiou os burgueses e a Revolução Francesa por terem conseguido superar o feudalismo. Depois fez a crítica pelos desdobramentos dessa conquista, confirmando sua dialética (superação).

    • 09/03/2016 at 00:14

      A última coisa que há em Marx, Ricco, é uma filosofia da história ou teoria da história circular. Não mesmo.

  2. Jordan Bruno
    06/03/2016 at 18:41

    o Nova Acrópole, aqui em Teresina pelo menos, me parece uma espécie de Casa do saber… ou seja, é uma coisa pra quem não quer passar pela universidade mas ter o contato com aquele conteudo. Além disso tem um pé na autoajuda que me pareceu estranho… não sei se é assim em outras cidades…

    • Anderson Zabrocki
      07/03/2016 at 15:48

      Acho que a nova acrópole é assim em todo lugar. Uma vez eu fui em uma palestra atraído pela réplica de um instrumento pitagórico, em Curitiba. O palestrante iria tratar de música, matemática e filosofia. Mas foi tudo ridiculamente superficial . E ele se omitiu de responder ou comentar uma questão minha dizendo que eu teria de fazer um curso extensivo, semestral, para obter as respostas… Aí vi que se trata de algo parecido com uma seita ou escolinha para adultos.

  3. John Quimera
    06/03/2016 at 15:32

    Muito bom o artigo, foi uma indireta e tanto. agora mudando de assunto, quem é essa aqui mesmo? http://ghiraldelli.pro.br/wp-content/uploads/giphy.gif

    e onde foi que isso aconteceu? qual é o vídeo?

    • 06/03/2016 at 17:14

      PROGRAMA “SEM CALCINHA” QUE MINHA ESPOSA, A FILÓSOFA FRANCIELLE, que dirige o Hora da Coruja, chegou a fazer na Flix TV. Mas ela parou porque o Hora da Coruja já dá trabalho suficiente.

    • John Quimera
      08/03/2016 at 18:05

      Obrigado Professor.

  4. Alisson
    06/03/2016 at 13:47

    Pesquisando sobre institutos de Filosofia no Brasil, observei que em sua maioria ou na sua totalidade, os institutos são em universidades públicas, ou ligados a universidades particulares.

    Por incrível que pareça, apenas o CEFA, o Instituto de Filosofia da libertação e a Nova Acrópole não são ligadas a universidades. A pesquisa filosófica no Brasil está imersa na produção acadêmica!

    É tão difícil assim uma saída da universidade para a produção filosófica, ou para a produção filosófica é necessária a universidade? Lembrando que, na Europa e nos EUA existem muito mais institutos que não são ligados a universidades.

    • 06/03/2016 at 13:57

      Alisson mas o CEFA está ligado à universidade pelos seus frequentadores, somos todos honrados por termos feito universidade. Ela é necessária.

    • John Quimera
      08/03/2016 at 18:04

      Obrigado Professor.

  5. 06/03/2016 at 13:03

    É isso mesmo: homem de muitas virtudes, passaram pelo poder, mundo afora, sem permitirem que suas biografias fossem maculadas pelos desvios éticos e morais e/ou pela mais danosa delas a corrupção nas suas múltiplas formas (omissiva, comissiva, culposa ou dolosa).

    Belíssima e elucidativa a sua postagem!

  6. Anônimo
    06/03/2016 at 12:30

    Admiro suas críticas contra o Lula, feitas sem cair no anti-petismo tosco e rotineiro de facebook, e os elogios à cultura norte-americana, sem cair naquela pagação de pau burra típica do Rodrigo Constantino.

    • 06/03/2016 at 12:42

      Sou filósofo. Agora, por favor, não me compare com Bostantino, eu tenho formação, currículo e história.

    • Anônimo
      07/03/2016 at 13:50

      Sim.
      Posso fazer um pedido? Escreva um artigo sobre Adorno e o riso, explicando pq a direita não ri.

    • 07/03/2016 at 13:59

      A esquerda ri? ANônimo, escreva aqui com seu nome real e foto.

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