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29/03/2020

O poder do jaleco branco


Para Mariangela Cabelo

O sociólogo Émile Durkheim escreveu que o correto era tratar os fatos sociais como “coisas”. O que ele tinha em mente: a sociologia para ser ciência precisa fazer como as ciências naturais. Deve tomar as coisas naturais como efetivamente coisas. Deve olhá-as pela sua apresentação, como o que está sujeito única e exclusivamente às relações de causa e efeito. Nada de tentar compreender a subjetividade inerente aos relacionamentos entre as pessoas. Quem quis tomar a vida social levando em consideração os pensamentos e desejos das pessoas a escola alemã, que produziu o historicismo de Max Weber – a rival da escola francesa.

Se olhamos bem para esse início da sociologia, podemos intuir, então, que já naquela época, há algum tempo as ciências naturais haviam se desenvolvido de modo peculiar e consagrado um método. Esse método havia operado um desenvolvimento inaudito nas ciências. Servia de modelo para outras ciências, que vinham se constituindo.

O método de não criticar, de não negar, ou seja, de tomar tudo positivamente – o positivismo – havia se estabelecido nas ciências naturais. Desse modo, o saber médico moderno se fez antes do saber sociológico. Antes de sociólogos, os médicos estavam sendo treinados para lidar com a natureza olhando para ela como os físicos olharam o universo. O saber médico se estabeleceu no interior do positivismo. E assim se fez um saber desejado por todos, isto é, um saber que deveria olhar antes para a doença, e não para o doente. Antes para sintomas e não para o estado de penúria do doente. Desse modo, o médico aprendeu a ter uma visão abstrata, capaz de procurar causas e efeitos, e voltado para dar combate à doença sem ficar procurando saber qualquer coisa do hospedeiro da doença que fosse relacionado à doença.

Muitos acharam essa postura do médico algo insensível. Mas nenhum médico é insensível. O que ocorre com os médicos é que eles fizeram da objetividade da ciência, ou da objetividade que se busca na ciência, também uma postura para lidar com o doente. A objetividade da ciência contaminou a própria postura do homem de ciência, em especial o médico. Desse modo, ele encontrou no jaleco branco uma capa milagrosa, capaz de transformá-lo naquele que adentra um lugar sem perguntar qualquer outra coisa senão o que está – segundo o cânone de aprendizado de sua faculdade – inerentemente ligado à doença.

O médico se tornou aquele que pergunta se o seu paciente fuma não para fazer avaliação moral, mas para saber que tipo de exame ele deve pedir. A pergunta sobre o consumo de cigarros é uma pergunta que visa alimentar um tipo de objetividade, aquela que irá direcionar fotos do pulmão, e não fotos de paciente na praia, triste por não ter cigarros ou contente por ter cigarros e poder fazer charme para a mulher ao lado (supondo que esse paciente tenha vivido sua adolescência nos anos 70).

A foto do pulmão dará para o médico, desse modo, uma gravura da realidade do seu pulmão. É assim que funciona a ciência positiva, o saber médico que, abençoado pela filosofia, caberá dentro do campo da filosofia positivista.

Não sou um positivista. Tendo mais ao pragmatismo. Para mim, a chapa fornece meios para a construção de uma narrativa a respeito do pulmão. Haveriam outras. Além disso, não sendo médico e sim filósofo, eu tenderia a fazer uma avaliação moral, sim, sobre o ato de fumar. Isso poderia incluir ou não uma análise histórica. Todavia, por mais que eu goste do meu pragmatismo, eu prefiro ser atendido, quanto às doenças, pelo médico positivista. Dispenso, nessa hora, o filósofo pragmatista que sou, a não ser que eu veja que vou ter que procurar a famigerada “segunda opinião”.

Drauzio Varella é o médico positivista, como todo bom médico. Ele atende o doente enquanto portador de doença. Para ele, o cigarro faz mal – no sentido de quem olha o pulmão. Se, terminada a consulta, ele dá um abraço no tabagista, isso se faz pelo fato de que o jaleco branco foi posto de lado, e ele acabou se comovendo por algum aspecto do tabagista. Muitos médicos não podem ficar  com o jaleco o tempo todo. Eles se sufocam. Nessa hora, viram homens e mulheres comuns. Mas, mesmo assim, a sombra do jaleco permanece: se o abraço ocorre, nada ocorre além disso.

Mariangela Cabelo é minha noiva. Ela está treinando na medicina a usar do poder do jaleco branco. Por isso, no vídeo que fez sobre o caso Drauzio Varella-Suzi, ela foi quem melhor explicou o episódio.

Mas, no episódio, há mais: se a Rede Globo foi mais atacada pela direita que o próprio Drauzio, é porque a direita brasileira está obedecendo Steve Bannon, que deu as diretrizes, no mundo todo, para a extrema direita que ele alimenta: ataquem a imprensa liberal e façam as pessoas desacreditarem dela. As pessoas precisam se educar pelas bolhas interneteiras – é isso que ele quer. Bem, mas isso é outra história, que explorei em vídeo meu.

Paulo Ghiraldelli Jr., 63, filósofo

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One Response “O poder do jaleco branco”

  1. Thiago Leite
    16/03/2020 at 14:31

    Médicos e filósófos também são gente.

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