Go to ...

on YouTubeRSS Feed

19/11/2019

O pensamento trágico-realista e a ideologia


Eleger a realidade como o único parâmetro a ser seguido ou torná-la criticável diante de idealizações e até utopias?

O pensamento conservador, ilegitimamente a meu ver, às vezes se serve da filosofia trágica para chamar idealistas e utopistas de ingênuos.  Não raro, podem até dizer que tais pessoas estão de má intenção. A vida é trágica, ou seja, seja lá por qual caminho se ande, o final deve desembocar em nada bom, e inevitável.  Caso tudo dê certo, ainda assim haverá no final inexoravelmente a morte, portanto o fracasso. Assim, ou reificamos a realidade ou somos uns bobos. Ou até mesmo maus, porque nos fazendo de idealistas queremos nos passar por bonzinhos aos olhos de outros. Assim funciona a cabeça do pensador trágico conservador.

Esse pensamento seduz alguns que, hoje em dia, querem se fazer de rebeldes. Vivemos tempos conservadores. E há certo charme, ao menos em camadas da classe média decadente ou temerosa diante de forças democráticas e plebeias, em manter um ar blasé, um desdém pelo futuro, e um culto da inteligência se ela é realista, ou seja, não idealista e não utópica. Todavia, nada há de efetivamente blasé nisso. Por baixo do pano esse pensamento é engajado, é politicamente conservador – alimenta o ativismo do conservadorismo. Seu lema: atenção ao real!

Assim, se existe progresso científico com experimentos com os animais, essa é a realidade. O preço do progresso é o da crueldade de muitos para que outros muitos se salvem. Caso apareça algum ativista que fale pelo bem dos animais, é visto como um utópico e idealista, o que para quem diz isso significa só uma coisa: um tolo ou um hipócrita.

Mas tudo seria uma maravilha para o cérebro simplório se a vida fosse simples. Não é. Não raro o pensamento conservador vê os ditos progressistas usando desses seus esquemas. Alguns exemplos ajudam.

Os progressistas defendem que se possa abortar sem implicação legal, já que na realidade o aborto ocorre com perigos e danos para a mulher. Os progressistas defendem a legalização da prostituição, já que as profissionais do sexo existem mesmo e não irão desaparecer nunca. Antes a profissional com carteira e direitos do que sem nada. Como se pode ver, nos dois casos são os progressistas que se utilizam aí do realismo, ainda que não inteiramente do pensamento trágico.

E há também circunstâncias em que os conservadores traem a plataforma realista e trágica. Fazem isso quanto às cotas étnicas. Fervem de ódio contra as cotas porque, segundo o que dizem, sonham com uma escola pública boa para todos que acolha também os negros, distribuindo-os depois em universidades e empregos em igualdade de condições. Quando são contestados pelos que dizem que se a escola pública for boa a classe média branca volta para ela e expulsa os negros, respondem ainda de maneira mais utópica, no estilo progressista: ora, mas não lutaremos para melhorar a escola, se a aceitamos como está, e as cotas só servirão para tentar tapar o sol com a peneira, e então o estado se desincumbirá da educação. Podem inclusive chamar o utopismo para falarem mais ainda contra as cotas: que sociedade é esta que não deposita confiança no negro em conseguir sozinho o que deve conseguir? Que sociedade é essa que se impede de sonhar com os negros como sendo iguais mesmo e, portanto, capazes?

Todavia, no caso da criminalização da homofobia, eis aí que os conservadores voltam ao pensamento trágico e realista. Para eles o crime existe em cada sociedade e nunca é possível dizer que o gay é mais ou menos exposto à violência, de modo que protegê-lo seria desprezar o real e, pior, seria começar a privilegiá-lo diante de outros que não são gays e que vão contar só com a lei comum para a proteção.

O que podemos perceber, portanto, ao menos em termos genéricos – como faço aqui – é que o pensamento trágico realista aparece antes como instrumento oportuno que convicção filosófica. Aliás, é isso que vale a pena tirar de filósofo de tudo que escrevi até aqui: querer fazer do pensamento trágico uma muleta filosófica para o realismo conservador é um erro crasso em filosofia. Quem os associa, deveria fazer isso no máximo de modo ad hoc. Todavia, não é isso que vejo. Em geral o que se quer fazer é usar da filosofia trágica para dar bases, fundamentos para o conservadorismo realista. Isso não cabe.

Além disso, o que se deve notar disso tudo é no cotidiano funciona mesmo, na política, sempre uma saída exclusivamente retórica. É a saliva o que conta. Sou conservador? Ah, então posso lançar mão do meu tragicismo e de meu realismo, mas quando isso não for suficiente, posso sorrateiramente utilizar do modo de pensar que o progressista reclama como sendo propriamente dele. Por sua vez, o progressista faz o mesmo. Ele se mantém idealista e utópico, mas não raro puxa uma cordinha do realismo, ainda que não necessariamente trágico, para jogar as bases de sua requisição de “um mundo melhor”.

Desse modo é que a frase “isso funciona na teoria, não na prática” deve ser tomada como uma bobagem. O mais correto é dizer “na prática a teoria é outra”. Ou seja, sempre há alguma teoria na nossa prática, mas nem sempre é aquela anunciada. Nos meandros disso, conforme somos convidados para o auto-engano, então podemos identificar aí a velha senhora, a ideologia.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: , , , ,

19 Responses “O pensamento trágico-realista e a ideologia”

  1. Roberto
    13/08/2016 at 20:50

    O pensamento trágico apropriado por conservadores se transformaria num pessimismo? O trágico, como entende Nietzsche e não os conservadores, seria diferente do pessimismo, por estar comprometido com a vida?

    • 14/08/2016 at 10:07

      O trágico de Nietzsche, sim, não tem a ver com pessimismo e muito menos ele é a besta que vai dizer que conseguiu ver “o real”.

  2. João Pedro
    04/12/2014 at 14:11

    Professor, porque nietzsche não pode ser considerado um pensador trágico? Ele não foi influenciado por Schopenhauer?

    • 04/12/2014 at 14:53

      João Pedro não é por influências que se pensa um filósofo, é por ele mesmo.

    • João Pedro
      04/12/2014 at 16:27

      Mas ele não fala da aceitação do destino, do sofrimento, de encarar a vida como batalha, etc? Não tornariam essas afirmação ele um trágico?

    • 04/12/2014 at 17:01

      Não fala! Nietzsche não fala em aceitação de destino, ler o “amor fati” é não entender nadinha nadinha, e esse é o erro.

    • Hayek
      05/12/2014 at 11:12

      Nietzsche era um bom poeta, menos filósofo! heuuehueehe

    • 05/12/2014 at 17:13

      Hayek você não precisa ser uma besta e começar gritar “sou uma besta”. Seja uma besta silenciosa, vai passar menos vergonha.

    • Hayek
      08/12/2014 at 11:17

      Gramsci era besta?

    • 08/12/2014 at 13:55

      Gramsci uma vez teve um cara que escreveu algumas coisinhas sobre ele, este cara uma vez encontrou uma besta.

  3. 27/11/2014 at 00:54

    Li a coluna do Pondé e esse texto de análise profunda desmonta o realismo proposto por ele que é puramente ideológico.

    • 27/11/2014 at 03:32

      Enoque obrigado pela resposta! Sim, também acho que aquilo que ele faz é ideológico no sentido mais explícito.

  4. João Pedro
    26/11/2014 at 14:58

    Professor, como o senhor disse, muitas vezes eles traem o pensamento trágico discursando utopias. Por exemplo o seu amigo se diz contra os ativistas dos animas, por eles estarem contra o progresso e defenderem a “idade da pedra” mas são contra avanços sociais como o bolsa família, dizendo que isso é “mundo melhor”, um mundo que cria fracos e acovardeia as pessoas.
    Eles próprios entram em contradição!

    • 26/11/2014 at 19:05

      João Pedro, por isso certas filosofia só ad hoc são apoios à política. O erro desse pessoal é não fazer essa acoplagem “ad hoc”, mas por meio de vínculos entre fundamentação (filosofia) e fundamentado (política). É disso que meu texto trata.

  5. Romildo Bocão.
    26/11/2014 at 13:45

    Por que vc só fala de bobagens? Não tem uma coisa que se possa aproveitar na vida real. Vc parece estar sempre no mundo metafísico.

    • 26/11/2014 at 19:07

      Romildo o blog é só para gente escolarizada, você não pode compreender nenhuma sentença aqui. Não tente.

  6. Nelson
    26/11/2014 at 10:12

    “Querer fazer do pensamento trágico uma muleta filosófica para o realismo conservador é um erro crasso em filosofia.”
    Posso imprimir isso em um banner e colocar lá na PUC, pro Pondé ler? Ha ha ha, abraço Paulo!

    • 26/11/2014 at 10:52

      Nelson, ele leu, me mandou um e-mail. Mas as respostas dele não convencem, foge do assunto. Mas pode fazer o banner sim. Talvez um dia ele acorde.

    • LMC
      26/11/2014 at 13:57

      O Pondé não lê essas coisas,
      Nelson.Melhor seria dar pra
      ele a biografia do Churchill.
      Quem sabe,ele acorda.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *