Go to ...

on YouTubeRSS Feed

17/12/2017

O pensamento infantil das “teorias da conspiração”


Quem são os que inventam as chamadas teorias da conspiração? Os bem escolarizados tratam essas pessoas como “café com leite”. Deixam-nas falar e, não raro, alguns até, perversamente, riem pelas costas. Afinal, até nas melhores famílias há aquela figura que vê alienígenas, comunistas e banqueiros verdes que moram no centro da Terra manipulando tudo. Mas o problema pelo qual me interesso não são essas pessoas, embora elas tendam a ser eleitores perigosos em determinados momentos. O que acho que vale a pena para a filosofia comentar é o modo pelo qual opera o pensamento mágico dos adeptos de teorias da conspiração. Até por uma razão simples, devemos ficar atentos a isso, afinal, não custa estar alertas de modo a perceber se os filhos estão ou não conseguindo  ultrapassar o pensamento mágico quando adentram a escola.

Os problemas dos adeptos das teorias da conspiração é que lhes falta um bom entendimento das relações causais. As causas precedem os efeitos, aprendemos isso. Ou seja, alguns aprendem isso, outros não. Mas, quando não se trata de uma criança ou de um adulto limítrofe, a causalidade é compreendida e, a partir de certa idade, no ensino médio, é possível então tratá-la já no âmbito de teorias complexas, como a física newtoniana etc. Todavia, algumas pessoas que entendem a causalidade, às vezes passam despercebidas, como se fossem entendedores de algo que é fundamental, o nexo causal relevante, mas vistas mais de perto, com mais atenção, nota-se que elas não sabem distinguir um tal nexo. Ou seja, no contexto de escolha entre séries causais, não conseguem apontar para o nexo causal que efetivamente importa. Há várias causas para um efeito, mas elas não são equivalentes. Há plausíveis, as efetivas as improváveis e as impossíveis. Nisso, o que acredita em teorias da conspiração, tende a ser perder. Como?

Ele simplesmente não consegue distinguir o nexo causal efetivo, pois ele se perde na hora de escolher qual cadeia causal seguir. Ele não tem o que chamamos de capacidade de distinção e hierarquização que deveria lhe dar o nexo causal eficaz, o relevante. Ele pega qualquer nexo causal e força o pensamento a aceitá-lo. Esse é o núcleo maldito das teorias da conspiração. Por isso, elas não cedem às evidências. Se você mostra detalhadamente a sequência causal de um acidente, o adepto da teoria da conspiração não vê sentido nisso, pois ele sempre pega uma cadeia causal irrelevante, escolhida por seu gosto, e aí ele vê uma sequência lógica se instalar à revelia do que você mostrou para ele. Às vezes essa cadeia causal que ele pega é plausível, mas é o ponto de partida que está errado. No limite, ele não sabe escolher cadeias causais. O plausível, o efetivo, o improvável e o impossível não lhe caem bem. Ele fica atordoado na distinção disso. Por quê?

O pensamento mágico que está na base das teorias da conspiração nunca são destruídos, mesmo em uma época como a nossa, a da inexistência da possibilidade de se ter segredo e até mesmo de fazer alguma coisa em privado. Dopar um piloto ou criá-lo num esquema de lavagem cerebral ou gerar um defeito num avião particular são coisas que, hoje em dia, com câmeras em todo lugar, Internet em todo canto, amantes e secretárias bisbilhoteiras de todo tipo, leva a maioria das pessoas escolarizadas e de bom senso, a dizer o seguinte: é melhor analisar uma queda de um avião, que sai do Campo de Marte (como o avião que carregava o ministro Teori), pelas questões meteorológicas, e não somente pelo checagem de câmeras para notar visitas estranhas ao avião ou então buscar testemunhas que falem sobre algum distúrbio psicológico do piloto etc. Tudo isso pode ser investigado, deve ser e realmente é, e quem assim quer não é necessariamente o adepto de teoria da conspiração. Mas a sequência causal mais plausível não deixa de ser as ligadas à falha humana relacionados ao tempo ruim – coisa já vista em vários acidentes naquela região do mar de Parati. Tão comuns, que o piloto morto, no caso em questão, fazia palestras sobre o assunto. Ora, todos sabemos que morre no mar quem sabe nadar e confia em sua capacidade. Uma coisa é ser experiente e cuidadoso, outra coisa é ser muito experiente a ponto de se sentir sempre seguro.

Uma causalidade que vá da intenção de alguém criar uma pane no avião, até a contratação de um segundo para fazer o serviço de sabotagem, até a ocorrência desse serviço no hangar do avião particular, tendo como piloto o próprio dono, é a sequência causal que, se verdadeira, viria à tona rapidamente num mundo como o nosso, sem privacidade. Nem precisaria de muita investigação. Além disso, exatamente por ser de fácil descoberta, também é a menos indicada na qual apostar. Quem toparia fazer um plano desses, tão furado? Mas a questão da falta de privacidade, que dá o elemento para não fazer dessa sequência causal a rainha de tudo, é justamente o que falta no entendimento de quem acredita em teoria da conspiração. É aqui que vem a resposta para o drama todo: o mundo para este indivíduo, ainda que sempre cercado de causalidade, não é de fato o seu mundo. Ele não é alguém do âmbito do mundo desencantado, como Weber caracterizou os tempos modernos. No seu mundo há mistério, há forças fantasiosas por detrás de tudo. Às vezes essas forças são de duendes, outras vezes são de deuses, e outras, ainda, para os que se acham mais inteligentes, são executivos ligados às máfias do submundo que ele imagina poderem fazer tudo sem rastro. É importante notar: sempre sem rastro. Assim, a opção pela tese do misterioso fecha a questão: mesmo que tudo fique esclarecido pela investigação, para o teórico da conspiração, só ele sabe que ficou faltando pesquisar algum lugar, justamente onde reside o mistério, o oculto, aquilo que só ele sabe e que não virá nunca à tona, pois, afinal, é sem rastro que agem os seres misteriosos que imagina. Só ele sabe onde está esse ponto misterioso, onde tudo foi tramado e executado. Ele e a Rede Globo sabem, mas esta, tão misteriosa quanto o ponto misterioso, tentará enganar o “povo ingênuo”. Tudo para manter “a dominação”. E assim vai. Esse tipo de raciocínio de “eram os deuses astronautas” é o que chamamos de infalsificável. Ele sempre será imbatível para quem o adota. E quem o adota não consegue entender o próprio princípio da falsificabilidade (Popper).

Temo que aquilo que produz isso nas crianças, bloqueando o pensamento delas de modo a fazê-las sair do pensamento mágico, é o modo de vida da família. Quando a família possui elementos fortes para pensar de modo infantil (as religiões que leem a Bíblia de modo literal ajudam nisso), não é difícil levar os filhos menos inteligentes para o mesmo caminho. A escola tenta quebrar isso, mas nem sempre consegue. Pode-se dar o azar de se ter uma professora também adepta do pensamento mágico, ao menos hoje em dia. Afinal, com o salário de miséria que se paga nas escolas hoje, não custa nada a professora ser mais tosca que a mãe vinda de uma zona desprovida de tudo. E aí,  o destino de um ou outro estudante, está perdido.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 22/01/2017

Tags: , , , , , , ,

13 Responses “O pensamento infantil das “teorias da conspiração””

  1. 18/02/2017 at 19:42

    Interessante.

  2. Fabiano
    18/02/2017 at 11:21

    Enquanto o maléfico globalista George soros não for contido, estaremos perdidos!

    • 18/02/2017 at 11:42

      Pois é Fabiano, essa tara contra Soros, de olavistas e outros energúmenos, é exatamente um tipo de pensamento infantil que desemboca em teoria da conspiração.

  3. Antonio Jose L. Pereira
    01/02/2017 at 16:29

    É os nosso homens “filósofos” infelizmente são pessoas que vivem dentro da casinha,e se recusam a enxergar o que salta aos olhos,de que tem algo de muito errado no mundo,e que a história mostra,o que o poder é capaz de fazer com a mente de certas pessoas,não é de se estranhar que o mundo tenha chegado a onde chegou,as pessoas que deveriam ser capazes de fazer algo,justamente por ter conhecimento,além da maioria,não conseguem ver,pessoas como essas,eles já mataram os montes,só tenho a lamentar tamanha ignorância letrada.

    • 01/02/2017 at 17:49

      Antonio, nós que estudamos somos tolinhos, por isso temos que ouvir você, o sabichão, que sabe tudo sobre as mortes que não sabemos, mas que não informa a polícia.

  4. Danusa Lorenzzoni
    24/01/2017 at 13:38

    Paulo, e a louca história de que a filha mais nova do czar russo Nicolau II, a princesa Anastácia Romanova, não teria sido assassinada pelos bolchviques de Lenin, em julho de 1918, juntamente com sua família, e sim, teria conseguido fugir do cativeiro e vindo diretamente para o Brasil, indo morar na pacata cidade de Poços de Caldas, sul de Poços de Caldas? Se o senhor tiver tempo-e, sobretudo, paciência chinesa-, para visitar o Cemitério Municipal da cidade sul mineira, pedindo a orientação da administração, terá a oportunidade- e a surpresa- de ler na lápide de uma sepultura já carcomida pelo tempo e mal cuidada, uma vez que é da década de 50 ou 60, o epitáfio com a seguinte inscrição: “aqui jaz AnAnastácia Romanova, princesa russa”. Mas, é óbvio que ela não está sepultada ali, mas sim outra pessoa, ou mesmo, o túmulo está vazio! Quem fez isso e porquê, é outro mistério. Em 2011, se não me engano, o governo russo divulgou o resultado de uma investigação, com a ajuda de testes de DNA e ressonância magnética, foi, sim, brutalmente assassinada com seus pais e irmãos, tendo seus corpos jogados numa cova profunda e dissolvidos em ácido, consumindo-os quase por completo. Nas décadas seguintes várias impostoras se apresentaram como a legítima princesa Anastácia Romanova, a mais famosa de todas a inglesa Ema Goldman.

    • 24/01/2017 at 14:37

      Danusa, fantástica história. Deveria escrever sobre isso. Há outras parecidas, mas não conhecia nenhuma no Brasil.

  5. Bruno
    24/01/2017 at 00:04

    Com a falta de privacidade dos dias de hoje, um escritor tem que se contorcer para criar um bom suspense.

  6. 23/01/2017 at 16:32

    Nesse caso especifico, as teorias conspiratórias partem de uma outra suposição banal, além da escolha da causa errada: do fato de que apenas um único homem poderia “revelar” quem são todos os envolvidos na corrupção. Uma vez morto Teori, ninguém mais poderia fazer o trabalho que ele fazia. Mas, o mais incrível disso tudo é que boa parte dos autores dessas recentes teorias conspiratórias sobre a morte do juiz, acham que a Lava Jato era exatamente uma conspiração para acabar com o PT.

  7. Eduardo Rocha
    23/01/2017 at 00:09

    Hoje é comum isso. Muitos canais do youtube principalmente tratam das teorias da conspiração. As principais delas: O homem não foi à lua, a terra ser plana, illuminatis, Área 51, Maçonaria, farsa do aquecimento global, Aids criada em laboratório, princesa Diana assassinada, 11 de Setembro, Nova ordem mundial, redução da população, Vargas, Kennedy, Clube de Bilderberg, etc.

  8. Hilquias Honório
    22/01/2017 at 23:13

    Realmente! Esse pensamento mágico revela uma incapacidade fantástica dos seus detentores. Um amigo meu (desses que acham que a urna eletrônica é fraudulenta e que contar no papel é melhor), o rapaz disse na vitória de Dilma em 2014, que a Eleição havia sido fraudada, pois ele “não conhecia ninguém que voltou em Dilma”. Faz sempre falta uma boa escola mesmo.

    • 23/01/2017 at 01:18

      Sim, o argumento de que não conhece ninguém pesquisado também é muito legal! Dá para rir.

  9. Eduardo
    22/01/2017 at 18:18

    Paulo, muito bom o texto, importante até para ser trabalhado com jovens em sala de aula. Essa abordagem pode ajudar muito a proteger os jovens dessas coisas.
    Toda essa celeuma em torno da morte de Teori me lembrou o pessoal que diz que Hitler não se matou no final de abril de 1945, mas que ele teria fugido com Eva Braun e um grupo de pessoas em submarinos e veio morar na Argentina, numa região isolada. Existe até um documentário da Discovery Channel em que alguns pesquisadores ingleses afirmam ter certeza disso. Circula na internet até uma suposta foto de Hitler já velho vivendo pacatamente na Argentina e a cópia de um documento da CIA afirmando que ele fugiu de Berlim. Segundo esses pesquisadores, o governo americano sabia do plano e deixou acontecer em troca de os cientistas alemães colaborarem com o programa espacial americano. Os tais pesquisadores também dizem que Hugh Trevor-Ropper, historiador britânico, foi o inventor da tese do suicídio, mas que jamais isso foi comprovado.
    Há alguns anos foi amplamente noticiado que uma estudante brasileira fez uma dissertação de mestrado dizendo que provava que Hitler viveu no Brasil, no Mato Grosso, e ela teria até exumado os restos mortais dele. Ela até publicou isso, olha só: http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2014/01/livro-defende-tese-de-que-hitler-foi-enterrado-em-cidade-de-mato-grosso.html

    Fico me perguntando que tipo de universidade aprova um projeto de pesquisa desse e, pior, que banca de avaliação aprova uma dissertação dessa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *