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28/02/2020

O paulistano contra o rolezinho


“Vote no Lula, um brasileiro igualzinho a você”. Este foi o slogan da campanha de Lula para governador de São Paulo, em 1982. Foi certamente o pior de todos os slogans políticos de todos os tempos no Brasil, mas ensinou muito, pela prática, aos que não haviam lido o básico de sociologia política ou de filosofia política até então.  

Grupos sociais de todos os tipos, mesmo quando têm do que se orgulhar, mas estão abaixo na hierarquia social, tendem a mostrar muitos membros que procuram de toda maneira escapar de serem identificados com os setores mais abaixo, principalmente se estes setores estão subindo. Muita gente que era até mais pobre que Lula em 1982, não queria votar nele, e não queria nem ouvir falar em um candidato que fosse o Lula e, ao mesmo tempo, algo posto como um espelho. Por que ser igual ao Lula, com barba por fazer, jeitão de eterno operário, gritador em porta de fábrica, nordestino que vendeu limão na rua e “sem estudo”? Colocar um cara assim no governo? E ainda por cima dizer que ele era um igual, um retrato do brasileiro, o meu retrato? Nem pensar!

Igualar-se com os de baixo, mesmo sendo um deles, é tudo que os membros de grupos sociais que estão próximos da proletarização segundo os moldes de operariado de ponta, abaixo ou acima, não querem. Os mais abaixo invejam o operariado de ponta, que tem carteira assinada, bandejão, assistência médica etc. Os mais acima, odeiam o operariado de ponta, pois este, com um curso técnico, pode ganhar mais e, com certa politização (e o PT era isso) indicar para toda a sociedade os ideais antes de uma república sindicalista do que os ideais de uma sociedade de mercado tipicamente burguesa. Ceder ao modo de vida do operariado de ponta é esquecer de vez o sonho de ser igual aos de cima, uma vez que os de cima não serão mais os que darão o padrão de vida em uma república sindicalista – eles se tornariam escassos. Lula percebeu isso antes mesmo de 1989, na sua primeira campanha para a Presidência da República. No entanto. demorou mais de vinte anos para que Lula se livrasse de uma vez por todas dessa imagem. Para o mal o para o bem, o fato é que ele se livrou.

Essa lição de Lula sobre Lula está escrita em vários dos livros de Marx, e de certo modo também nos de Nietzsche. O espelho, principalmente aquele cantado aos quatro cantos, não é alguma coisa que queremos ver quando estamos em uma situação de deslize para baixo, seja porque descemos mesmo ou seja porque alguém que não deveria subir vem subindo.

O que temos hoje nos mais de 80% dos paulistanos que condenam o rolezinho, segundo pesquisa da Folha de S. Paulo, é exatamente isso. São pessoas que na mesma pesquisa dizem que não deveria haver discriminação de raça ou cor etc. para transitar no shopping, mas que apoiam a medida dos lojistas de proibirem aqueles que podem ser apontados como rolezeiros. O que é isso? É o fenômeno do “brasileiro igualzinho a você”. Mais uma vez o paulistano está dizendo: não quero esse espelho.

A classe média e parte da periferia não quer qualquer identidade com os que assumiram a identidade de periferia. Falar errado, gostar de funk, não cultivar a leitura ou a escola, sair com roupas de piriguete – tudo isso é coisa “dos mano” e “das mina”. Uma boa parte da sociedade que vê isso como muito perto de si mesma, e às vezes já na porta de casa, se apavora. O membro desse grupo que teme o espelho quer ser visto como alguém próximo do que as novelas apresentam como sendo a classe média alta ou mesmo os ricos, e não como aquilo que ele sabe que há chance de já ser ele. Então, numa enquete, mesmo que não queira discriminar, ele quer se livrar dos rolezinhos, pois estes podem trazer para o reconhecimento público rostos que são os parecidos com os dele. Ele teme mais que ninguém ser confundido com um “mano”, ainda que ele, na foto do facebook, não consiga disfarçar de modo algum.

Isso também vale até para uma classe média um pouco melhor de vida. Pois como a classe média está cada vez mais inculta, ela logo percebe que para se diferir dos da periferia está mais difícil. Então, a solução melhor é pedir para alguém tirar da vista da sociedade a identidade de periferia. A periferia não tem de ser discriminada, mas não tem que apresentar sua identidade na TV.

O medo da classe média não é o do convívio com o diferente, mas o de convívio com aquilo que é diferente e, ao mesmo tempo, tão igual. Nenhum professor, pequeno comerciante ou profissional liberal sem herança quer ver seus filhos, que estudam na escola particular (mas não na particular dos ricos) e, no entanto, no geral, já não estão tão diferentes dos da periferia em certos gostos culturais e valores morais, como sendo confundidos com os garotos da periferia. O medo do quase igual é o pior medo para quem está um pouco acima, mas que sabe que pode ser igualado ou por seu deslize ou pela subida dos outros.

Só diante do macaco o homem sente vergonha.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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15 Responses “O paulistano contra o rolezinho”

  1. shelly
    20/02/2014 at 13:39

    Bom dia, você iria me ajudar muito mesmo se poder explicar o seu ponto de vista nesse texto se você é a favor ou contra os rolezinhos ? E explicar melhor a transformação que você mencionou se tratar. E também qual a relaçao da ultima frase dos macacos com o rolezinho.Quero saber o seu ponto de vista, ficaria muito agradecida.

    • 20/02/2014 at 15:34

      Shelly, ninguém é contra ou a favor. Essa não é a questão. O texto é claro sobre isso.

  2. Renata Frias
    26/01/2014 at 01:53

    Vc gosta muito do Lula né ?

    • 26/01/2014 at 09:08

      Renata Frias, esse é o seu comentário? Foi abduzida?

  3. Geisebel
    25/01/2014 at 18:06

    Muito coerente esse seu modo de pensar! É quase como se fosse matemático. Muito bom mesmo. Agora ” Só diante do macaco o homem sente vergonha”. Fecha completamente esse tema que você abordou.

  4. Junior Barbosa
    25/01/2014 at 14:59

    “as vezes no silêncio” da tarde “eu fico imaginando”: será que esse tipo de classe média que pretende se distanciar intelectualmente ou moralmente – na cabeça dela – pensa que é um meio ou um fim…

  5. MARCELO CIOTI
    24/01/2014 at 11:39

    PG,você falou do filme Minority Report
    naquele texto sobre os rolezinhos,lembra?
    Pois a Globo vai passar este filme,na
    madrugada de terça pra quarta,na semana
    que vem,última semana de Janeiro.Devem
    ter lido teu post,no mínimo.

  6. 24/01/2014 at 00:20

    Olá Ghiraldelli,
    “Só diante do macaco o homem sente vergonha.”
    Essa foi profundada!
    Meio Filosofia, meio Poesia, pugilística por inteiro.
    Abraços,

    • 24/01/2014 at 08:57

      Edison, não sei se é minha mesmo ou se Nietzsche escreveu algo assim.

  7. Márcio
    23/01/2014 at 23:19

    Paulo, quanto a esses segmentos que são, ou não são, da periferia, mas que, contrariamente à maioria, assumem a identidade da periferia – como você disse – sugerem alguma transformação?

    • 24/01/2014 at 08:58

      Já fizeram a transformação, Márcio. Estão fazendo. O meu texto é exatamente sobre a transformaçao que estão fazendo.

  8. RAMBO
    23/01/2014 at 22:30

    Eu, sinceramente, não entendo como ainda tem gente que acredita em pesquisas, ainda mais quando é Folha, Ibope(Globo). É muita inocência, cara, na boa. Será que eles entram na periferia pra fazer isso. Como são as perguntas? Nesses casos menos importante, acho que fazem é pela internet mesmo, aí já viu…

    • 23/01/2014 at 23:15

      Rambo, eu sei como é feito a coisa, ainda mais o Data Folha. Fica frio. O homem chegou à Lua sim.

  9. Saulo Almeida
    23/01/2014 at 20:30

    Acho que você não entendeu a resposta dada á pesquisa da Folha. Os paulistanos reponderam que são contra o rolezinho e toda a imagem de baderna a ele associada, não contra os manos,nem as minas, nem o Mc Naldo.

    • 23/01/2014 at 21:40

      Saulo, eu não entendo muita coisa Saulo. Muita. E minha filosofia não tem a ver com o entendimento. Agora, ele não repete o senso comum. Isso que você falou não precisa de pesquisa para se saber.
      Por outro lado, a pesquisa da Folha quando aborda esse fenômeno vem repetindo dados e dados desde antes de 1985, mas eu nunca fiquei neles, eu ando, converso, trabalho, participo. Tô sempre na rua. Nunca leio uma pesquisa a partir do gabinete. Vale a pena você sair do já sabido. Não precisa sair do meu modo, pode sair do seu, escreva, faça o seu texto. Caso queira repetir o senso comum, o de que o paulistano rejeita o “arrastão”, pode também.

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