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27/05/2017

O parlamento das coisas


Heráclito não acreditava falar por si mesmo. Aliás, o “si mesmo”,  esta expressão, é uma invenção nossa, não dos antigos. Heráclito entendia que o logos do cosmos utilizava de sua boca para falar de sua organização própria, a harmonia cosmológica. O Humanismo moderno nos tirou essa possibilidade. Então, se as coisas querem falar, hoje em dia, precisam aparecer num parlamento e buscarem seus representantes. As coisas precisam de deputados representantes tanto quanto os homens. Nasce aí o “parlamento das coisas”, de Bruno Latour.

Os animais, a floresta, o rio, prédios históricos, o ar e tantas outras coisas precisam de representantes. E eles têm aparecido, tanto quanto os representantes do homens. O parlamento das coisas está montado. Não é um parlamento que passe pelo voto. Os parlamentos políticos fazem parte do grande parlamento das coisas. Mas que as coisas estão tentando falar de novo, isso é uma verdade que podemos notar.

As coisas estão falando porque o homem precisa delas, no fundo, falam segundo o interesse humano? Não! Falamos pelo nosso interesse, não raro, contra as coisas. Quando as coisas falam, elas falam pelos seus interesses. Nenhum de nós que protege cachorros encontra razões para assim agir. Alguns de nós tenta encontrar justificações “humanistas” para tal: fim da crueldade, direito à vida, amor pessoal etc. Que nada! Basta examinar um pouco as falas nossas a respeito de proteção animal, quando querem ser racionais ou parecerem sérias, e veremos que são falas humanas, e que as cosias não falam assim. Elas, as coisas, têm seus representantes, e isso ocorre exatamente na medida em que conseguem se colocar nesse parlamento, com narrativas próprias. A maior parte dos ecologistas que tenta convencer outros a protegerem qualquer coisa por motivos racionais se dá tão mal quanto aquele que fala da salvação de um prédio tombado a partir da racionalidade de se ter história. Árvores e prédios surgem no parlamento. Se colocam com os seus imperativos. Quando vemos, estão no jogo político do parlamento das coisas e levam muitos de nós para tal.

Observando Peter Sloterdijk talvez tenhamos mais condições de entender o “parlamento das coisas” de Bruno Latour do que se olharmos para ele mesmo. É que Sloterdijk apresenta uma história na qual a natureza já foi incorporada e colocada no mesmo plano do que antes cabia na história. Um fluxo migratório de pessoas é também um fluxo de micróbios e vice-versa. Quando contamos a história assim, é porque o parlamento das coisas já está dando o tom para as narrativas várias que correm. Olhar o mundo pela perspectiva do urso panda, pela do vulcão Etna e pelo das Torres Gêmeas (que desapareceram) nos conta uma história menos humanista e mais verdadeira que qualquer outra história.

A noção de “impacto ambiental” é uma reivindicação do parlamento das coisas. Claro que, muitas vezes, o cálculo do impacto ambiental, por ser cálculo, já se transforma em uma narrativa humanista. Mas vários elementos dessa narrativa, não raro, podem se libertar e fazer gerar sua própria visão das coisas. O cálculo é feito a partir do interesse humano, mas a ideia de impacto ambiental também pode ser pensada a partir do impacto sobre si mesma, ou seja, de quanto certas coisas querem conhecer o modo que ficarão impactadas pela mudança de lugar de outras coisas. Nesse caso, teremos parlamentares capazes de falar das coisas pelo viés não humano. De certo modo, é assim que estamos funcionando.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. 13/03/2017

Veja: aqui entrevista com Bruno Latour

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5 Responses “O parlamento das coisas”

  1. Eduardo
    13/03/2017 at 17:44

    Profº,
    Vejo ser recorrente suas citações a Sloterdijk, isso me levou a querer conhecer sua obra, mas por qual iniciar?

    Grato

    • 13/03/2017 at 18:09

      “Para ler Sloterdijk”, publiquei agora, pela Via Vérita.

  2. Ezequias Costa
    13/03/2017 at 13:39

    Muito bom Paulo está analogia, que está política que eles estão fazendo, eles posso a cada dia, ver o homem e não suas próprias coisa.

  3. Eduardo Rocha
    13/03/2017 at 12:54

    Paulo, você vê alguma semelhança entre as Esferas – Espumas de Sloterdijk e a obra ” No Enxame ” de Byung Chul Han?

    • 13/03/2017 at 18:10

      Vejo diferenças que podem ser postas em perspectivas. Estou escrevendo sobre.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo