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21/08/2017

O paraíso marxista no capitalismo


A Finlândia estuda tornar o trabalho opcional. O trabalho será para quem quiser, com todos recebendo salário. Os programas de assistência social serão agrupados num só, e de modo a não deixar ninguém de fora dos benefícios adquiridos. Cada habitante poderá receber um salário caso não tenha emprego ou não queira ter um emprego, por toda a vida. Assim, como mais ou menos está nos escritos de Marx, finalmente o homem poderá viver em situação em que será pescador e caçador de dia, pintor à tarde e crítico de arte à noite etc.

Não foi no comunismo, mas ainda assim, numa variante marxista, que o paraíso chegou. Marxista, eu digo, porque toda a Europa que se tornou relativamente adepta da tese do Welfare State, assim agiu relativamente empurrada por sopros de Marx. Diferentemente dos Estados Unidos, que logo substituíram Lênin por um Trotsky remodelado que nada era senão moeda de John Dewey, o que serviu de esteio doutrinário, em parte, para levar o país para o liberalismo renovado do New Deal, na Europa a chama de Marx (e depois o medo de Lênin) nunca se apagou. Que tenha sido Keynes e não Marx o teórico do Welfare State, tanto faz. Na prática, a luta sindical europeia nunca perdeu suas origens, o legado de Marx e de Engels.

O Welfare State finlandês anuncia agora que pode, no capitalismo e com plena liberdade, realizar o sonho comunista de deixar o homem escolher pelo trabalho ou pelo não trabalho e, então, ter o direito de, escolhendo o não trabalho, resolver empregar o tempo em tarefas – que até podem ser trabalho – que efetivamente o agradem. Abre-se aí a perspectiva de se viver, e não só sobreviver, uma vez que a vida, filosoficamente falando, nada é senão a melhor organização do nosso tempo por nós mesmos de modo livre.

Não é o caso aqui de discutir o tamanho da Finlândia, nem os detalhes técnicos do ponto de vista da economia, isso não é relevante para a minha perspectiva, que é técnica, sim, mas no campo filosófico. Nessa ótica, trata-se não de uma utopia, pois não se está falando do não existente. E utopias são exageros, funcionam negativamente para corrigir e criticar sociedades. Não! Não é isso. Mas, se pensarmos no contexto europeu e mundial, pode-se até dizer que a Finlândia toda se mostra agora como uma heterotopia, em um sentido lato, mas ainda assimfoucaultinano.

Ou seja, a Finlândia ocupará no território europeu o lugar daqueles que possuirão regras próprias, diferentes de todo o resto capitalista, para se guiarem e viverem, tornando assim sua população, já etnicamente diferenciada, ainda mais peculiar. A Finlândia possui muros próprios. Não é acolhedora e não tem estrutura nenhuma para abrigar estrangeiros. Mas isso não porque não queira, mas por seu “isolamento” natural. Seu frio colabora para isso, além de uma série de outros detalhes. Fora isso, possui desemprego, não oferta de emprego. Mas possui capacidade para dar a todos uma vida boa, dentro de padrões razoáveis de classe média. E os finlandeses aprovam em mais de 80% esse programa de Welfare State, ou seja, o paraíso dessa heterotopia que é todo um país.

Mas, é claro, lá o Rei e a Rainha não se importam mesmo de levar seus filhos para a escola pública, que é boa – lá se paga dignamente o professor. Às vezes vão até de ônibus, mas não tiram fotos para se exibirem falsamente.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Senado da Finlândia

finlandia

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7 Responses “O paraíso marxista no capitalismo”

  1. Dimas
    23/10/2015 at 07:23

    Quanto lero lero, pra explicar algo tão simples. Simplesmente atingiram um grau desejável de maturidade social.

    • 23/10/2015 at 08:55

      Dimas sinto lhe informar que filosofia não é o seu negócio.

  2. Nicole
    22/10/2015 at 21:12

    Boa noite Paulo,

    Sinto que a humanidade está carente de si mesma, buscando em novos modelos aquilo que não pode ser amparada pelo externo; todavia,enxergo o conceito do ócio criativo, sugerido pelo sociólogo Domenico De Masi um bom caminho para enveredar.
    No mais, o sociólogo Bertrand Russel afirma que a missão da nossa geração é encontrar o equilíbrio entre a liberdade e a segurança, você acredita que isso se dará como resultante de um novo sistema, ou isso se acontecerá da base para o topo?

    • 22/10/2015 at 21:30

      Nicole para termos ócio criativo precisamos de ter alguém trabalhando por nós. Dê uma olhada como evoluiu a história da Finlândia, é um bom exercício.

  3. Ramon Cardinali
    22/10/2015 at 20:12

    Paulo, muito bom texto! Me interessou especialmente este trecho: “Abre-se aí a perspectiva de se viver, e não só sobreviver, uma vez que a vida, filosoficamente falando, nada é senão a melhor organização do nosso tempo por nós mesmos de modo livre.”.

    Pode me sugerir bibliografia que apresente e discuta melhor tal definição de “vida”?

    • 22/10/2015 at 20:22

      Ramon, fizemos Hora da Coruja sobre isso, onde a Olgária Participou. Fora isso, meus últimos livros tem tocado no assunto. A filosofia como medicina da Alma (Manole) e Sócrates: filósofo e educador (Cortez). Pegue leia e vamos conversar. OK?

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