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20/11/2017

O Papa contra Noé


Inteligentemente, os padres católicos ensinam que a Bíblia não é um livro de ciência, e que deve ser lida como uma grande poesia – essa advertência está logo no início do Livro Sagrado, na Edições Paulinas. As culturas antigas reproduziram na escrita a forte presença da narrativa oral e, por isso mesmo, a rica presença de imagens. Os antigos sabiam bem aquilo que nós modernos reaprendemos com a TV, que não se educa um povo bárbaro sem imagens grandiosas e decisivas.

Como o seu equivalente grego, ou seja, a Ilíada e a Odisseia de Homero, o Velho Testamento inebria todos nós com imagens espetaculares. Noé e sua arca enfrentando o dilúvio faz parte desse cultivo do fantástico, do grandioso, só repetido em nossos tempos por Stan Lee nos quadrinhos, e mais recentemente por Bin Laden em Nova York. Por abaixo o mundo todo, limpar a Terra, zerar a história para um novo começo – eis aí o encanto. Trata-se de uma imagem que não poderia estar em um livro de Deus, só do Demônio. Mas, como o Deus judaico é conhecido por ser “o Deus ciumento”, ele não quis deixar essa passagem para qualquer outro competidor.

Por que essa parte da Bíblia é demoníaca? Ora, pela sua herança. Está nela talvez a pior ideia que se poderia dar à humanidade. A tosca e infeliz sugestão de que as grandes transformações em favor do Bem devem recorrer a qualquer coisa que seja um tipo de dilúvio. Só o recomeçar com casais puros serve como ponto de partida para a pós-revolução. Nunca uma ideia inspirou tantos massacres, genocídios, crimes étnicos de todo tipo quanto essa imagem da missão de Noé.

Walter Benjamin lembra que os revolucionários franceses atiraram nos relógios das catedrais, quase que ordenando a parada do tempo. Lênin fez algo semelhante evitando qualquer julgamento da família real russa, ordenando simplesmente a execução. Dizem até que sequer levantou a cabeça para tal. Estava escrevendo e assim continuou, após um gesto de mão característico. Hitler então, nem se fale, queria efetivamente ou o recomeço, sem judeus e “outros parasitas”, ou o fim de tudo. Tinha um plano de incendiar Berlim toda, uma vez perdida a guerra. Por pouco isso não se realizou. Noé e o Dilúvio nunca perderam a atualidade.

As teses da assepsia política e da higienização social repetem em pequena escala, mas com os mesmos horrores proporcionados pelos grandes ditadores e pelos processos revolucionários ditos heroicos, a imagem tomada então como necessária da sugestão divina. Dos grupos de extermínio aos “justiceiros” passando pelas mulheres que acham que resolvem problemas de estupro por meio de castração, o que se põe no horizonte como norma é o feito de Deus e de Noé. Vamos partir para um recomeço, com um novo Adão e com uma nova Eva.

No nosso cotidiano, como não podemos agir nas mesmas proporções diluvianas, damos vazão a algo menor mas com o mesmo ímpeto: o descarte. Tudo que atrapalha merece desaparecer. A avó velhinha, o cachorro que não tem espaço, o pai que não pode mais trabalhar, a esposa que engordou demais, os fetos indesejáveis, a faculdade difícil e o liquidificador assinalado pelo destino “não compensa consertar”. Há um prédio histórico atrapalhando a construção do metrô? Ora, para que desviar, que se derrube o prédio! Que o prédio seja descartado para o recomeço da cidade.

Os mais afoitos traduzem essa prática cotidiana como alguma coisa que os economistas de vários matizes explicariam fácil: é preciso mais produção, mais emprego e mais consumo para uma sociedade moderna funcionar, então, nada que atrapalhe essa engrenagem deve sobreviver; além disso, nada pode merecer conserto, pois nada é feito para durar para além do necessário previsto no tempo dito certo pelo tal capitalismo.

A filosofia não pode endossar essa ideia como sendo a única. A filosofia tem a mania de explicar as coisas procurando em caixas profundas. A antropologia das imagens é uma boa pedida. Escondida em nossa vida cultural que permanece em nossa linguagem, há a expressão “antediluviano”. Nessa época “ante” estavam as coisas que não vieram na Arca. A Arca não parou sua navegação ainda, ela está em rota contínua e, para não afundar, é sempre bom ver se não vieram nela elementos a mais, ou elementos que estão “dando trabalho”, onerando a operação de recomeço.

Essa ideia de que todo dia podemos descartar com a mesma força e ímpeto com que Deus descartou tudo na traseira de Noé, façanha que repetiu aqui e ali, principalmente em Sodoma e Gomorra, é que alimenta a cultura do descarte. O Papa Francisco tem falado contra tal cultura insistentemente. Ele tem insistido na nossa capacidade de ponderação, de modo a reconheceremos que essa coisa de arca e recomeço radical é atrativa, mas o descarte nos torna todos objetificados ao máximo. Fazermo-nos objeto e tratar todos os vivos também como objetos não seria pecado? Não seria esse o principal pecado? O Papa Francisco, na minha leitura de seus discurso, tem lutado titanicamente contra as imagens de Noé.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez)

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One Response “O Papa contra Noé”

  1. Thiago Ricardo
    23/04/2014 at 03:36

    O Noé estava muito determinado, mas não cumpriu sua missão, quando poupou as netas, no fim. Então essa coisa de descartar tudo não é coisa para os homens.

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