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29/05/2017

O país que substituiu o ensino pelo exame


Nunca se gastou tanto em exames e diagnósticos que na gestão de Paulo Renato no MEC, no governo FHC. Oito anos de carreamento de dinheiro para as fundações que fizeram exames de avaliação de tudo. Eram exames para avaliar, para certificar, para elevar, para punir, para promover, para saber de estados da arte etc. Haddad e o PT não mudaram isso. Dilma também não. Temer continua na mesma linha. Aliás, sua reforma do ensino médio segue o indicador de FHC e dos governos anteriores. É uma reforma igualzinha a que Dilma anunciou. Ela faria, claro, sem ocupação nas escolas. A molecada não reagiria e até falaria a favor de um ensino médio mais fraco. Diriam, como Dilma disse: “é uma escola mais atrativa” a que teremos.

A ideia básica desses governos todos citados, na educação, não traz nenhuma inflexão na história cultural brasileira. Não temos conseguido romper com nossa herança colonial nesse quesito. Somos um país que começou de cima para baixo em educação, e o que fazemos agora ainda é um certo eco dessa situação. Do que se trata? Simples: começamos não pela educação popular, mas pela educação da elite do dinheiro, que se educava em casa, com preceptor, e que terminava seus estudos no exterior. Depois, quando tivemos algum tipo de classe média, criou-se então os mecanismos dos exames. O auto-didatismo campeava, a educação em escolas pequenas gerenciadas pela boa vontade de alguns, trazia ao final um formando que para ganhar algum certificado fazia um exame dado pelo estado, em alguma escola das capitais.

Na Primeira República chegamos a ter uma rede de ensino oficial, mas, pasmem, em determinado momento ela foi desoficializada por um decreto, e todo tipo de formado passou a poder ficar “livre para escolher sua educação”, e então ao final oficializar sua condição de alfabetizado ou coisa parecida perante um exame. Na verdade, um sistema assim só poderia desembocar no vício de se pensar como um sistema de exames e não como um sistema de ensino. E chegamos assim nos anos 60, com o problema dos “excedentes”, alunos que haviam obtido nota para entrar no ensino superior, mas que não conseguiam matrícula por causa da falta de vagas.

Essa situação dos “excedentes” foi resolvida de uma penada pelo governo da Ditadura Militar. Do dia para a noite os estudantes foram contemplados com a perda do direito à matrícula, pois se oficializou o sistema classificatório. O direito adquirido foi matado a pau. Ao lado disso, o governo abriu as chances para a expansão do ensino superior privado de má qualidade. Foi a época do nascimento de coisas como a FMU e as Unips da vida, que todo mundo tinha vergonha de cursar, e que hoje nem é mais contada como lixo, uma vez que grandes conglomerados de lixos maiores cresceram assustadoramente. São os conglomerados que aparecem na TV, todos eles, dizendo que são “o primeiro lugar no ENADE”, ou seja, validados por mais um exame. Ensino não conta, só exame. E como há “primeiro lugar”!

Um sistema de exames para que o aluno siga sua trilha ascética é normal, tem de existir. Mas o exame pressupõe o ensino. No Brasil, o exame é o ensino. Ou seja, ensino nenhum. Essa é a verdadeira história da nossa educação. Essa não é contada nos livros por aí. E, por isso mesmo, por termos esse tipo de organização do ensino, somos um povo inculto.

Nossa avaliação do mundo é sempre uma avaliação, nunca uma visão panorâmica, com tendências de articular o mergulho vertical no assunto com a olhar periférico. Nosso olhar, aliás, o olhar culto que pudemos ter, foi treinado para responder questões e se livrar da barreira, e assim fazemos com tudo. Daí a nossa maldita vocação para a bipolarização, para as respostas excludentes, para a incapacidade de ver o complexo e o dialético. São dois séculos de treinamento em exames que buscam “respostas certas”, jamais reflexões incertas. Estas, são o ensino. Se o ensino é mais forte que o exame, aprende-se a pensar, se o exame é todo o ensino, aprende-se a responder “o que é pedido”. Paulo Freire com razão chamava a isso “educação bancária”: deposita-se no banco aluno algo e depois, o momento mais importante, se cobra o mesmo. Aliás, de modo bem benéfico, pois sem juros. Assim, eis aí o que temos, gente que até mesmo quando protesta, funciona sem ler os documentos contra o qual protestam, pois funcionam na base da resposta, como ratos em laboratório. Pois vale a performance, o ato de vencer por fazer mais pontos. Vale a mentalidade de se fazer exame.Vale o “sair-se bem”, sem ler, sem estudar, sem conversar, sem ter professor. O brasileiro é de uma idiotia enorme, é o país que mais valoriza o autodidatismo (fruto da apologia do exame), e por isso é sempre está na fila dos mais incultos.

Um povo assim alimenta uma estranha vocação autoritária. Tudo tem que ser decidido por respostas que não permitem o zig-zag intelectual e a “paciência do conceito”. Aborto, cotas, direitos de minorias, homofobia, livre expressão etc – tudo é “sim” ou “não”, como quem faz prova e precisa dar uma resposta só, uma única posição, para ganhar nota. É assim que o brasileiro é, ou assim se tornou, por ser um indivíduo que nasceu sob o tacão do exame, da prova, da performance numérica, que, aliás, ele odeia. Sem performance não há ensino. Somos moles nisso, nos exames. E somos moles não porque não treinamos, mas porque não aprendemos, ficamos só nos exames. Nossa cabeça não pensa, apenas pede “escolhas” em testes ou respostas pré-determinadas.

Talvez alguém use esse meu artigo para condenar vestibular e para querer escapar de exames, pois um povo com cuja educação é a do exame substituindo o ensino, não vai mesmo entender o que escrevi aqui, e olha que expliquei de modo simples.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 08/11/2016.

Quer saber mais: Filosofia e história da educação brasileira (Editora Manole); A nova filosofia da educação (Editora Manole); História da educação brasileira (Cortez).

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15 Responses “O país que substituiu o ensino pelo exame”

  1. denis
    28/11/2016 at 00:04

    Pq insistem em colocar a culpa no modo de ensinar? o que mudou de 20 anos atrás ate os dias de hoje? foi o modo de ensinar? é balela , eu não sei mto , mas com certeza eu sei qualquer matéria mto mais que qualquer estudante recém formado do ensino médio atualmente, mto mais mesmo, é. simples aluno não quer aprender , se acha mais que professor, então professor fala se vira meu caro, a vida vai cobrar e cobra hein , cobra bonito….

  2. Rosilene Candido Monteiro
    10/11/2016 at 14:09

    Caramba!! Que texto magnífico! Não sou uma grande conhecedora no assunto. Porém, acompanho meus três filhos na escola. E vejo quê: um sistema fast food é amplamente difundido e com o aval de pais, corpo docente e discente. e porque não a sociedade como um todo. Salvo algumas exceções. Eu entendi perfeitamente o texto. E em minha leiga opinião eu digo que seria interessante se algumas pessoas praticasse MUITO uma boa interpretação de texto.

  3. Celso
    10/11/2016 at 13:12

    O texto ajuda a entender o porquê do crescimento dos colégios pré-vestibular, aqueles que transformam o ensino médio em um cursinho. Ensinam a passar no teste, não a pensar criticamente ou a dialogar (nesses ambientes, o diálogo chega a ser mal visto pelos professores e até mesmo pelos próprios alunos!).

    Não tenho nada contra os vestibulares, só contra esses colégios voltados ao treino de ovelhas que, depois de entrar na faculdade, viram militantes de esquerda por achar que isso é se livrar das amarras da doutrinação. Quem está cursando o ensino público superior neste momento sabe como é.

  4. Pedro de Sousa Portela
    10/11/2016 at 01:39

    A meu ver, depois que Marquês de Pombal desmantelou o sistema educacional dos Jesuítas, as coisas descambaram de tal maneira por aqui que nunca mais prestou. Sempre que o governo interfere no sistema é com autoritarismo, sem conhecimento de causa, tal como fez o dito Pombal. Coitado de Sipriano Luckesi e Jussara Hoffman que tanto falaram contra a educação do exame e dos testes quantitativos! kkkkkkk

  5. Ícaro
    09/11/2016 at 21:47

    Realmente o problema não é o exame, mas o exame pelo exame ou o exame sobre o ensino. Os alunos tendem a não gostar do diálogo, acham enfadonho, gostam mais de frases prontas de efeito e respostas diretas. Citam frases como ” Deus não joga dados” sem saberem ao menos seu contexto. Temos uma escola que treina o aluno para fazer exames, como se isso fosse ensino, as instituições de ensino não vão nem um pouco além do q o necessário para marcar a resposta correta nas avaliações. E ainda querem mecanizar ainda mais os estudantes retirando disciplinas tão provocadoras de diálogo como filosofia e sociologia.

  6. Ícaro
    09/11/2016 at 21:39

    Realmente a não é o exame, mas o exame pelo exame ou o exame sobre o ensino. Os alunos tendem a não gostar do diálogo, acham enfadonho, gostam mais de frases prontas de efeito. Citam frases como ” Deus não joga dados” sem saberem ao menos seu contexto.

  7. Ramon Marcelino
    09/11/2016 at 11:41

    Se aprendemos, logo não seremos moles nos exames. Iremos além deles.

  8. Franklin Mariano
    09/11/2016 at 11:23

    Muito bom , paulo. Voçê não deveria parar neste texto. Isso dá uma tese ou um livro muito bom.

    Na verdade, existe outro fato nisso. A obsessão por exames tira a “visão de longo prazo”. O brasileiro tem uma dificuldade patológica em dar continuidade e fechamento as coisas.Nós sabemos começar de maneira brilhante uma novela,mas , incrivelmente do meio pro fim não sabemos como terminar. Muitos amigos dizem orgulhosamente que se estudarem sozinhos uma semana antes resolverem uma prova.

    • 09/11/2016 at 11:59

      Franklin, não tenho mais saco para falar de educação.

  9. Joao Pedro Dorigan
    09/11/2016 at 06:40

    Quem está propondo a eliminação ou modificação radical é essa ong americana que tem forte atuação política.

    Sugere isso para parte dos testes já que virou febre.

    Queria saber o que é diferente lá se eles têm o mesmo problema.

    • 09/11/2016 at 08:34

      Acho que vocÊ NÃO entendeu meu texto, leia dez vezes.

  10. Joao Pedro Dorigan
    08/11/2016 at 23:26

    Bom. Sobre exames, os EUA também lutam para elimina-loelimina-lo.

    O que eles têm de diferentes se há uma briga intensa nisso?

    Acompanho o site abaixo há anos e só vi caos.
    http://www.fairtest.org

    • 09/11/2016 at 01:56

      MAS EU ACABEI DE FALAR QUE NÃO É PARA ELIMINÁ-LOS, aviso o idiota, mas não adianta. Meu Artigo não prega a eliminação, isso seria uma grande besteira. Não adianta. A burrice realmente pegou.

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Filósofo