Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

23/04/2017

O pai gay de Robert De Niro


Robert De Niro é o macho clássico do cinema. O macho-macho, não o macho estereotipado – o machão homofóbico – que, sabemos, toda vez que grita “sou macho” já está de calças arriadas para seu futuro bofe. Ele, De Niro, está na imprensa agora, falando de “Remembering the Artist: Robert De Niro”, que é um documentário sobre seu pai, um pintor. Talvez o centro do documentário não seja este, mas o fato é que, agora, ao menos para imprensa, já passou a ser: o pai pintor era gay.

O que é para um ator viver no cinema situações altamente tocantes, que já viveu na vida própria, real?

Um dos filmes mais emocionantes de De Niro, se é que se pode eleger coisa desse tipo em uma carreira como a dele, é o que ele faz o papel de um detetive durão, desses que efetivamente não apreciam travecos, e que termina por ter de ficar aos cuidados de Philip Seymour Hoffman, um travesti. O filme é Flawless (Joel Schumacher, USA, 1999). Neste, De Niro se vê tendo de tomar aulas de canto com Seymour, um travesti que mora em frente ao seu quarto, nessas espeluncas próprias de travestis e detetives – não só de filmes! Quando vi esse filme eu não sabia nada sobre o pai De Niro. Mas fiquei impressionado sobre o modo que De Niro conduziu seu personagem. Na época, intuí: “há algo mais aí”.

O nome Flawless é extremamente significativo. Serve para ironia, para adjetivo de uma peça, inclusive musical, sobre duplas e casais, sobre tampa e panela. Serve também para pai e filho. Amantes. Serve para amigos inseparáveis que têm tudo para nunca terem sido amigos.

Os personagens de De Niro foram ficando cada vez mais estereotipados à medida que ele foi envelhecendo. Utilitária e maldosamente, Hollywood aproveita essas fases de atores consagrados para coloca-los em comédias que, no início de carreira, eles jamais pensariam em atuar. Gene Hackman que o diga! Todavia, na meia idade, De Niro não tinha as feições tão marcadas e sua plástica podia se dar ao luxo de papeis variados. Em nenhuma cena de Flawless efetivamente precisa rir quando não quer rir, ou desenvolver qualquer outro gesto que não queira. Há ali toda a compreensão a respeito de quem é Seymour na vida real e como ele está ali, naquele papel. Viver na dependência de um travesti e, ao mesmo tempo, protege-lo, isso De Niro fez bem no cinema, neste filme, pois sabia fazer bem. É exatamente o que ele diz de seu pai: manteve uma relação distante, mas amorosa, e cuidou dele o quanto pode. Eles se amavam.

O amor para nós que o conhecemos tem tudo para ser diferente daquele amor que escritores de auto-ajuda, filósofos agourentos e cupins acreditam poder falar.

Foi preciso esse dado biográfico de Niro cair em minhas mãos, recentemente, para que eu pudesse realmente compreender o que ocorreu naquele específico filme com os atores ali envolvidos. Nenhum dos detetives ou policiais representados por De Niro repetiu o comportamento do detetive vítima de derrame cerebral de Flawless. Talvez tenhamos que realmente compreender essa situação, a do Édipo, em várias de suas dimensões. Isso que tanto abateu Freud, e sobre a qual ele erigiu uma teoria que um dia, paralelamente ao marxismo, pensou em, sem ser ciência e muito menos filosofia, substituir a ciência e a filosofia.

Nada há de mais maravilhoso, sagrado e ao mesmo tempo brutal que ter pai. Ou, no caso de nossa sociedade, não ter. Por que somos uma incógnita para nossos pais, mas, afinal, também ele nós é uma incógnita, às vezes eterna. Amamos um ponto de interrogação.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

Tags: , , , ,

3 Responses “O pai gay de Robert De Niro”

  1. Daniel
    17/11/2016 at 17:59

    Assim como não há nada mais maravilhoso e brutal do que ter uma mãe. Isso a gente sabe depois que nossa mãe morre. É pesado conviver com isso.

  2. 30/05/2014 at 14:06


    Just a tear in my eye…

  3. Alexandre Magno
    30/05/2014 at 10:15

    “Nada há de mais maravilhoso, sagrado e ao mesmo tempo brutal que ter pai.” – Bela frase.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo