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18/08/2019

O pai de Freud e o nosso pai


Não é sobre a figura da mãe que Freud construiu a imagem de nós mesmos que, por sua vez, colocou de lado a descrição que tínhamos sobre o que somos, vinda da modernidade clássica. É a figura do pai que importa.

Como diz meu filho filósofo, Paulo Francisco, Freud nunca entendeu de mulher. Sua narrativa é masculinista, e isso por uma razão simples: ele escreveu antes do feminismo. Ainda que cuidadoso, não poderia ter a dimensão que temos a respeito da perspectiva feminina, crivada pelo testemunho de mulheres que foram além de confirmar diferenças anatômicas, gostos e “psicologia”. Todavia, sua conversa está longe de ser inútil.

Freud fala do pai. Sua narrativa sobre a gênese da civilização não deixa de ser interessante e tem base antropológica plausível. O que ocorre é um pai que controla seus filhos, que são quase toda a tribo, reservando para si um número considerável de mulheres, inclusive filhas, irmãs, primas etc. Os filhos não podem com ele, nem em força física e nem em inteligência e carisma. Para superá-lo e tomar ao menos uma mulher para cada um, precisam reunir forças para derrotar e submeter o pai. Então, em grupo, emboscam o pai e o matam. Todavia, para que nenhum deles se ponha na condição paterna antiga, instituem a regra de não terem relações sexuais com filhas e irmãs. O que se cria aí é uma proibição, um tabu – o tabu do incesto, que é quase que universal. Só então há famílias em unidades separadas e, assim, a possibilidade de uma tribo já com traços de comunidade, formada por clãs diversos.

Nossas civilizações reproduziram isso na religião e, principalmente, nos monoteísmos que, sabemos, são tardios. Deus é masculino, é juiz e às vezes pai (no caso do cristianismo). Desse modo, todo dia é dias dos pais. Claro que cada pai é o pai que não pode mais ser chefe e dispor da prole como na pré-origem, mas ainda assim, é pai. Sua marca na sociedade moderna visível. Sem ele, não precisaríamos do tabu do incesto e, então, voltaríamos às condições que não permitiam essa diversificação de comportamentos e perspectivas que temos. Ele é o guardião negativo de nossa sociedade. Ele é a ameaça contra a qual instituímos diariamente nossos afazeres, limites e esperanças. Preservando-o múltiplo, nos garantimos (o totem nada é senão uma homenagem ao pai morto, uma forma de reverenciá-lo e também lembrar sempre das razões pelas quais ele foi morto).

Não à toa, quando uma sociedade começa a afrouxar as relações paternas, ela própria, através de seus intelectuais legisladores, reforça a responsabilidade do pai diante da prole. Podemos hoje no Brasil registrar uma criança sem o nome do pai, mas de modo algum escapamos de uma prisão se o pagamento da pensão não cair para nossos filhos que, enfim, são vinculados a nós por critérios científicos, como o exame de DNA. Recobrimos esse feito por meio de slogans de solidariedade para com a mulher ou de necessário amor para com a criança, mas o que corre nas veias da sociedade é sua disposição de saber-se oriunda da existência do pai. Com mãe, temos filhos, mas só com pai temos sociedade, ao menos como a entendemos em nossa história.

Pai é a pior coisa que pode ter ocorrido na vida humana, enquanto um mandante devorador por definição. Todavia, é um mal inerente às bondades sociais, a própria fundação da vida social e, portanto, um elemento central da vida humana.

Por mais tolo e comercial que seja o “dia dos pais” ele é, sim, um elemento a mais dessa lembrança que o todo social imprime em nós como que dizendo: somos gente porque criamos pais e sem estes podemos voltar a uma situação em que nem a morte dele, pelos filhos, ocorreu. Uma sociedade com um pai só é uma não sociedade.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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