Go to ...

on YouTubeRSS Feed

24/11/2017

O órgão excretor na falta do pós-socialismo


Carecemos de um pensamento pós-socialista. Esta é a conclusão que tiro dessas eleições presidenciais no Brasil, agora em 2014.

As grandes utopias baseadas na organização ótima do trabalho, ou seja, o nazismo, o socialismo, o liberalismo, a social-democracia, o anarquismo, o neoliberalismo, o comunismo não empolgam mais ninguém. Vota-se em candidatos liberais que incorporaram aqui e ali algumas das bandeiras do vagalhão socialista vindo do século XIX. Isso é acoplado a bandeiras de defesas de minorias vindas do liberalismo americano. Para alguns, isso poderia significar que, então, de todos os programas políticos do século XIX e XX, o liberalismo temperado tenha vencido finalmente. Mas não é bem assim. Ele é hegemônico antes por falta de prestígio dos outros modelos que por virtudes próprias. Tanto é que até os candidatos liberais precisam se dizer social-democratas! Mas a própria social-democracia não pode botar as caras. Se é que vinga algo dela, isso acaba sendo feito pela mão forte de algum populismo e não por virtudes próprias.

A verdade é que não temos mais nenhuma energia utópica no horizonte – ao menos no campo político, não mesmo. A cada eleição se torna mais ridículo aquele que diz ser “o novo” na política. Pois quanto mais alardeia isso, mais aparece como velho aos olhos dos eleitores. Melhor seria não ter se anunciado como novidade. Aliás, só energúmeno se anuncia como o novo, pois mostra não saber o óbvio, que o novo ou o moderno é que envelhece mais depressa.

As energias utópicas podem existir, mas onde estão? Desde o final dos anos setenta todos nós estávamos com uma pulga atrás da orelha que nos fazia coçar algo que iria logo virar ferida. Desconfiávamos que se houvesse alguma imagem ainda, forte, capaz de empolgar as pessoas, ela não viria das utopias que se casaram com a história, as utopias típicas do século XIX, as da sociedade do trabalho. Agora, passada a crise da social-democracia dos anos setenta e oitenta e também a emergência e a própria derrocada do neoliberalismo dos anos oitenta e noventa, o que temos nas plataformas políticas é o deserto. Então, vemos a volta da terminologia “esquerda” e “direita” para cartografar nossa política, porque um vocabulário mais específico que isso não é possível de ser aplicado. Ninguém entenderia nada. Uns até preferem  falar em “conservadores” e … “progressistas”? Não! O termo conservador faz algum sentido agora, ainda, mas o termo progressista não indica mais muita coisa, ficou preso a uma filosofia da história que dizia que o que vem depois necessariamente é melhor do que o que vem antes, e ninguém mais acredita nessa ontologia da história. A história é hoje, cada vez mais, a historiografia.

Desse modo o encanto pela política no Brasil chegou ao fim. A pessoa que se diz politizada e quer, com isso, posar de mais inteligente que a não politizada, até pode ganhar algum crédito de professores e jornalistas de direita e esquerda, todos mercenários ou tolos demais, mas não convence mais ninguém sobre sua superioridade. Ao contrário, os efetivamente mais inteligentes e mais cultos a olham como uma tola fundamentalista, um tipo de “evanjegue” da política. Os cronistas que exibem diplomas de sociólogo ou filósofo e que, mesmo disfarçadamente, todo dia defendem a mesma posição (escrevem a mesma coisa!) e estão calçados na política, logo arrebanham uma claque de leitores e, justamente pela qualidade da claque, perdem os leitores melhores. Gente que escreve e fala sobre política parece estar abafando, mas nunca ultrapassa em qualidade aquele grupo de pessoas medíocres, que os lê, e que são os que acham que o saber político é algum saber. Fazem barulho o pensam assim, pois, afinal, quando se solta um pum e este faz eco, há quem pense que se soltou algo para além de gazes.

A política não importa mais, ainda que mais e mais pessoas votem e até tentem se iludir quanto à importância de serem cidadãos que se acham conscientes. A imaginação contemporânea está tão tacanha, tão mesquinha, que nenhuma utopia, nem mesmo a do melhorismo social que é a ideologia restante, ajuda alguém a criar algo que possa trazer as pessoas para fazer algo que não seja pedir o velho X-salada no boteco de sempre. Há uma crescente impressão de individualização sob o manto de uma massificação ensurdecedora. Inclusive o termo “ensurdecedor” aqui é bom. Falar da música revela muito. Nunca houve tanta música ensurdecedora como agora. A música atual popular é uma afronta aos ouvidos até de um troglodita que mistura funk com qualquer outra coisa que ele pensa que é música. Tudo ficou mais horrível que Bossa Nova ou crítica dela feita por pseudojovens de direita.

Não há nada de mais decrépito que a política mundial. A brasileira segue nesse caminho, mas com um traço um pouco melhor, dado que em alguns momentos faz rir. O “ibope” aponta, faltando uma semana para o pleito presidencial, que nenhum dos candidatos empolga mais as redes sociais que o “órgão excretor” e suas funções declaradas como não reprodutoras.

Você vota. Eu o deixo no picadeiro, pode ficar. Mas não vou lhe aplaudir.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

excretor

Tags: , , , , , ,

26 Responses “O órgão excretor na falta do pós-socialismo”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    05/10/2014 at 13:19

    Excelentes observações.
    Recordo-me do “velho’ Winston Churchill quando, num de seus rompantes na Câmara dos Comuns, afirmou:” O grande vício da democracia liberal é que ela distribui DESIGUALMENTE a riqueza, enquanto a grande virtude do socialismo/comunismo é que eles distribuem IGUALMENTE a pobreza.
    Abraços. Valmi

    • 05/10/2014 at 14:38

      Valmi Churcill era um bom propagandista, mas apenas isso. Na verdade o socialismo não empobreceu os países, ao contrário, fez neles o que a revolução burguesa fez nos outros.

  2. Thiago Leite
    01/10/2014 at 18:07

    Por que tu não falasse em Paulo Freire aqui?

    • 01/10/2014 at 18:08

      Nesse artigo? Thiago Leite, não tem nada a ver Paulo Freire com esse artigo.

    • Thiago Leite
      01/10/2014 at 18:54

      Como Paulo Freire trabalha com política na sua pedagogia pensei que pudesse ter alguma relação, mas tudo bem. Olha, tu tens algum livro ou texto que fale sobre prostituição? Tava querendo me informar melhor sobre isso.

    • 01/10/2014 at 19:32

      Thiago Leite eu não entendi a relação que você queria fazer com Paulo Freire nesse texto aí. Ele foi um teórico também preso ao paradigma do trabalho. Há aspectos da obra dele, no entanto, que são universais. Agora, sobre prostituição, há o sobre minorias: “Filosofia política para educadores” (Manole)

  3. Guilherme Gouvêa
    30/09/2014 at 12:07

    O Tony Blair tentou esboçar alguma coisa nova no fim dos 90, aquilo chamou de “terceira via”, mas quando o bolso dos ingleses apertou, recuou à velha ortodoxia. Acho que o objetivo era criar uma “esquerda ma non troppo”, algo meio PSDB em cima do muro do Mário Covas e do Montoro, que também perdeu todo o sentido depois de FHC, Serra e a turma do PFL.
    *
    Tirando o neofacismo de Putin e Berlusconi, ao menos o Obama apareceu para romper temporariamente com o estilo cowboy-justiceiro-arauto-da-fé dos Republicanos. Ao menos isso!

    • 30/09/2014 at 14:13

      Gouvêa, não precisamos nada disso, basta começarmos a precisar de nós mesmos.

  4. LMC
    30/09/2014 at 10:55

    Me lembrei do Haddad que se
    apresentou como “o novo”
    quando foi candidato a
    prefeito quando você
    escreveu sobre os
    energúmenos que se
    anunciam como “o novo”.
    Ele se dizia como o
    homem novo na
    campanha dele.

  5. Otávio Costa
    30/09/2014 at 09:13

    Paulo, acho o PSOL e a Luciana Genro promissores para nossa nação. Este Levy é daqueles antigos que já conhecemos. Acho que uma nova energia, seria o comunitarismo. Será?

    • 30/09/2014 at 09:32

      Otávio, infelizmente o PSOL e a Luciana são o que é o Safatle: apenas uma esquerda carcomida incapaz de pensar.São pessoas que puseram o nome “liberdade” no socialismo para se acharem diferentes, mas não possuem nenhuma ideia que não seja a do leninismo rasteiro, do terceiro mundismo e do anti-americanismo. Nada! O trabalho parlamentar é bom, e isso já é muito. Mas, doutrinariamente e quanto à visão do futuro, péssimo. O paradigma da sociedade do trabalho se esgotou e com ele as energias utópicas dessa matriz.

    • Caçapava
      30/09/2014 at 12:26

      Mas você se esqueceu do Eduardo Jorge do PV!

    • 30/09/2014 at 14:12

      Capapava eu esqueci de mais gente, gente inclusive que NÃO se candidatou, que nunca conseguiu! Sacou?

    • LMC
      30/09/2014 at 11:11

      Otávio,o Levy Fidelix é do
      PDGC-Partido da Direita
      Gagá e Carcomida.
      É uma língua de aluguel.
      Ou melhor,um linguarudo
      de aluguel.

  6. Jose Luiz
    29/09/2014 at 21:41

    Paulo, achei excelente o seu texto. É isso mesmo que está acontecendo. Não temos mais partidos, nem políticos, nada! Mas seu discurso é tão pessimista que a próxima frase, depois da frase final de “impacto”, dá a impressão que será o anúncio de sua morte. Será que não há mais solução nenhuma? O que você acha que seria uma possível solução política?

    Acho que seria excelente, se um filósofo como você se candidatasse. Mas os filósofos justamente denunciam a ideologia. A crítica é mais que necessária. Mas com nosso sistema político e com todo mundo desistindo assim, o que será do Brasil? Vamos continuar chutando cachorro morto?

    • 30/09/2014 at 01:46

      Meu texto é otimista. Eu não vejo com olhos ruins o fato de não termos utopia vindos da sociedade de trabalho. Acho que você é que espera alguma utopia dela ou alguma utopia. Eu não. Eu posso viver sem grandes utopias, uma vez que sempre ponho projetos a cada dia que amanhece. Veja o quanto eu escrevo e participo da coisas. VEja o CEFA, totalmente gratuita. VEja o Hora da coruja. Eu nunca vergo.

    • Usp10
      30/09/2014 at 11:25

      Melhor texto do ano professor. Também achei o texto um pouco pessimista, apesar de concordar com o senhor que o fim das utopias do século xix foi um ótima herança para o século xxi. Qual seria uma solução (não precisa ser política), ou uma utopia para os nossos dias? Como muitas vezes vc falou sobre o tipo Pondé, não viver utopias ou abafá-las não é ruim?

    • 30/09/2014 at 14:16

      USP10 meu texto é completamente otimista. Eu nunca vi teleologias como energizantes, não para mim. Veja o Hora da Coruja, o CEFA, tudo gratuito. Vivo fazendo isso. E é artigo todo dia e livro todo ano. Como posso ter essa energia se ela fosse vinda de um movimento messiânico? Ela teria acabado. É que a minha energia não depende desses movimentos que chegaram ao fim.

    • Usp10
      30/09/2014 at 14:35

      Mas o fim das utopias não seria algo negativo? Não precisamos sonhar com novos mundos? (Para mim não existe mundo individual, é sempre algo contruído entre pessoas e além de nós)

    • 30/09/2014 at 14:41

      USP se não existe mundo individual, quando chegar na sua casa, poderá descobrir que sua geladeira está fazia e que os habitantes da sua casa comeram tudo. Além disso, indo para seu quarto, pode descobrir que estão fazendo sexo na sua cama. Voltando para sala há um monte de gente com seus livros. A vida é uma maravilha assim para você. Até quando?
      Por outro lado Eu NÃO preciso de mundos teleológicos criados por profetas para viver. Afinal, eu sou criativo. Sou escritor, filósofo, porra se eu não souber criar meus alvos, nem deveria ser isso. Preciso que outros coloquem onde eu deva chegar?
      Minha resposta anterior já era suficiente, se reparar bem. Mas respondi de novo. Acho que agora deu, não? Não responda, viva e pense.

    • Guilherme Gouvêa
      30/09/2014 at 12:17

      O Paulo lembrou Francisco de Assis, no momento em que arava o jardim, quando questionado sobre o que faria da iminência do fim do mundo, sustentando que apenas continuaria o arado já iniciado. (declino o exemplo sem pretensão religiosa nenhuma, diga-se).

    • 30/09/2014 at 14:12

      Gouvêa, meu texto é sobre o início do mundo. Só agora começamos a viver. Só agora podemos por projetos energizados por nós mesmos.

    • João Pedro
      30/09/2014 at 16:25

      Parabéns Professor pelo ótimo texto, queria saber se tem algum livro seu que aborda esse assunto.

      Mas Professor o Pondé está certo quando prega que não devemos lutar contra um mundo melhor? Pois um mundo melhor não é um mundo utópico? Se é melhor aceitar a realidade como ela é ou viver segundo projetos individuais não faz sentido lutar por mais direitos sociais.

    • 30/09/2014 at 20:37

      Pondé quer lutar contra um mundo melhor? Você também? Querem e nome do “realismo” serem os novos “inteligentes”? Eu não. Eu sou daqueles que entendo Cioran reclamando dos utopistas do mundo melhor de um modo inteligente, não como Pondé o entende. Aliás, Pondé não o entende. Ele quer ser trágico mas não sabe o que é ser trágico. Apenas vende pessimismo barato, de pouca filosofia, para alimentar o ressentimento que o rico brasileiro tem. Pois o Brasil é o país que tem rico ressentido. É só isso. Livro? Fiz um onde até mostro o erro infantil do Pondé ao rechaçar utopias: A nova filosofia da educação, junto com Susana de Castro, da editora Manole. Leia e avalie.

    • João Pedro
      01/10/2014 at 10:09

      É que você disse que foi bom o fim “dos movimentos messiânicos”. Só queria saber se estava afinada com o que o Pondé fala.
      Obrigado pela indicação!

    • 01/10/2014 at 13:15

      Pondé fala demais e estuda de menos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *