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13/11/2019

O novo hímen ou Ainda somos quase os mesmos


Há uns trinta anos atrás a virgindade feminina tinha lá seu valor. EstavaVirgem com os dias contados, mas ainda dizia alguma coisa de válido no âmbito do namoro, casamento e coisas afins. Hoje, o oposto é o que manda. Uma virgem, mesmo que seja teenager, não conta ponto em lugar algum. No entanto, há aqui uma armadilha para o observador e analista.

A armadilha é esta: a virgindade foi para outro território, mas não sumiu.

Na média, as meninas no Brasil iniciam suas experiências sexuais aos quatorze ou quinze anos. O namorado do momento é o parceiro sexual escolhido. Como a virgindade não é alguma coisa requerida para o casamento, esse namorado é trocado por outro e depois por outro ainda, até o casamento ou até algo equivalente como o “vamos morar juntos”. Como o homem no passado, a mulher atual pode ter quantos parceiros sexuais quiser. Todavia, ao começar um relacionamento um pouco mais sério, algo como um namoro que implica algum compromisso monogâmico ou coisa parecida, é de praxe, para a moça, não contar senão duas experiências sexuais. Sendo assim, hoje em dia todo namorado é informado que ele começa como um terceiro. Isso pode ser engraçado, mas é significativo de como a nossa linguagem é uma enquanto a nossa prática é outra.  Por que e como as coisas são assim?

É possível um entendimento disso lançando mão dos escritos do filósofo francês Michel Foucault.

Ele se importou muito com práticas corporais. Foi ele quem nos ensinou que os chamados Tempos Modernos inauguraram a tendência à proliferação de pequenos (e grandes) poderes que nunca estiveram só preocupados em nos reprimir, mas sim controlar nossos impulsos e potencializar nossas forças segundo direções determinadas. Esse movimento veio no sentido de um cuidado maior com o corpo, da promoção de uma suavização no trato com o corpo e, enfim, em uma identidade crescente do indivíduo com o seu corpo. Todavia, se assim se fez, isso nunca ocorreu de modo que o corpo fosse o ponto de partida e o ponto de chegada das modificações. O ponto de chegada, evidentemente, ele viu como sendo a alma. Mexemos com o corpo, mas com o objetivo de atingir a alma. Ou, em termos mais amplos, tocamos o físico, mas para atingir o psicológico. O êxito desse processo não é seguro. Não raro, as modificações da alma, nesse caminho, não correspondem tim-tim por tim-tim ao que ocorre com o corpo. Assim se deu com a virgindade.

A virgindade era alguma coisa do corpo. Era um hímen não rompido. E isso tinha um valor moral. A virgindade hoje ainda existe, mas ela não é um hímen não rompido, ela é uma frase do tipo “antes de você só tive dois homens na minha cama”. Ou seja, o corpo está em evidência agora, ele é livre e sobre ele não há repressão – é o que se espera. Mas, isso não faz da alma algo sem limites claros, descontrolada, ela socialmente precisa se mostrar como contida ou como capaz de alguma contenção. A linguagem, então, fala dela, da psicologia, ou seja, da experiência que diz respeito ao caráter.

É interessante notar isso. Pois isso implica em uma modificação da nossa noção de sujeito.

Popularmente, o sujeito é o indivíduo que é “consciente de seu pensamento e responsável pelos seus atos”. Inclusive juridicamente é assim. Todavia, sabemos o quanto a identidade nossa tem sido ligada ao nosso visual, ao nosso corpo. Mas isso não invalida de todo essa definição de sujeito, porque ainda é sobre o pensamento e atos que incide nossos pedidos de resposta a um indivíduo.

Desse modo, o namorado pode não cobrar, mas a moça se sente impelida em dizer que ela é dona de si (é um sujeito), não se perdeu como pessoa, de modo que ela foi para a cama com apenas dois, bem contados: o primeiro, que tirou o hímen, e o segundo, que lhe deu experiência. Agora sim, ela está “pronta”. A alma ainda é quem fala, dizendo de si e apontando o caráter.

Desse modo temos a moça que não é tola (não é virgem), é experiente (já teve mais de um namorado com sexo) e pode assumir um compromisso (não é “vagabunda”, já que teve só dois, ou seja, o necessário).

Algumas pessoas dizem então que, graças à revolução dos costumes dos anos 60, hoje seríamos menos hipócritas. É verdade isso. Mas, cuidado aí. Ser o terceiro não quer dizer que se é o terceiro verdadeiramente. A linguagem aí está já ajustada às convenções novamente.

O hímen físico foi embora, mas o hímen agora é transferido, pela linguagem, para o campo de “só tive dois antes de você”. O namorado agora é o terceiro. Ser uma pessoa, alguém com consciência moral, então, não é ter uma peça do corpo intacta, mas ter uma resposta lingüística, uma característica moral, explicitada. O discurso revela minha alma, minha psicologia, e ele diz: “só fui para a cama com dois, você é o terceiro”. Ora, não se julga aí se isso é mentira ou verdade. Não cabe esse julgamento. Mas, falar só em dois está já convencionado. O que ocorreu é que o hímen foi deslocado. “Sou virgem” foi trocado por “só tive dois antes de você”. Mas há ainda algo como um hímen, um limite. Seria uma tolice dizer “só tive sete antes de você”.

À medida que valorizamos o corpo, ele também deixa de ser referência de umas coisas e passa a ser de outras. Mas tudo isso implica em ajustes e desajustes lingüísticos, e é isso, afinal, que vai nos colocar no mundo de um modo aceitável.

Mudamos, mas nem tanto.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

 

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27 Responses “O novo hímen ou Ainda somos quase os mesmos”

  1. Celia
    03/10/2013 at 17:11

    To sentindo um cheiro de que vc não publica comentarios ,não favoraveis , heim?

    • 03/10/2013 at 19:46

      Célia, publico quando é engraçado. Agora, quando é coisa para o afagar a cabeça de quem precisa de atenção, não. Aqui não é lugar de tratamento de adolescente problemático.

  2. Celia
    13/09/2013 at 16:34

    Eu acho que TODOS voces estão profundamente enganados quando assumem que a sociedade mudou e etc , uma grande parcela dela pode estar pairando, num “mundo paralelo”, achando as praticas de destruição de valores a “grande sacada ” . Acontece que esse povinho esta girando em torno do proprio rabo,tentando achar o ” sentido da vida”,fazendo malabarismos mil , com o proprio corpo, e alardeando aos 4 ventos ,que esta é a chave da felicidade.
    Sinto informar aos senhores, tão desatualiados ,desta época chamada de contemporanea, que existe uma sociedade desconhecida da grande maioria,onde a virgindade é e continuara sendo um atributo, MUITISSIMO importante,e onde , acreditem , moças e rapazes,longe de sentirem-se TOLOS,sentem-se munidos de algo de valor inestimavel, que a grande parcela da população diz: da boca pra fora: que não lhes faz falta!!Os senhores antes de, se auto intitularem , os definidores da sociedade, deveriam conhece-la melhor.Como diriam:Desconhecendo o inimigo,o torna ainda mais perigoso!

    • 14/09/2013 at 08:59

      Célia, tô sentido um cheiro de moralismo sem análise no que você diz heim?

  3. Dukatano
    10/09/2013 at 19:13

    O homem de antigamente tinha que ter a sua donzela, ficava feio casar com mulher que já não era virgem. Hoje em dia a nova moralidade não coloca mais essa questão para o homem, logo não me sinto menos homem por nunca ter visto na vida uma virgem.

  4. Fillipe
    10/09/2013 at 14:08

    Acredito que existam homens que acreditam e querem acreditar que são o terceiro homem, mas também acredito, como é o meu caso, que existam aqueles que querem ser o primeiro. A mulher fisicamente virgem ainda seria a mais desejável para o relacionamento sério.
    Mas tal situação me incomoda, então eu lhe pergunto: como fazer para aceitar o fato de que nós homens nem sempre vamos ser o primeiro ou o terceiro? Como vencer esse moralismo que nos bloqueia? Tem alguma sugestão?

    • 10/09/2013 at 18:01

      Felipe, “nós homens” não senhor, não me inclua nessa sua categoria de homens. Pelo amor de Deus, eu sou civilizado. Putz! Cada coisa que aparece aqui. Olha Felipe, se você saiu com um virgem, vou lhe avisar, ela mentiu. Eu comi ela antes.

  5. Orivaldo
    10/09/2013 at 11:25

    O que uma pessoa quer dizer com a frase “parece muito homem”. Acho que temos ai várias possibilidades que pode, ou não, variar de acordo com a cultura de cada um. Muito viril, de palavra, corajoso,etc.. Precipitadamente alguém pode escolher uma das alternativas ou todas, tanto faz, mas um homem pode ter todas essas características e mesmo assim ser gay. Como pode não ser gay e não ter nenhuma dessas características. Talvez pra dar o cu o homem precise ser muito macho o que não quer dizer que pra ser macho ele precise dar o cu ou até quem sabe o homem não precise ser macho em hora nenhuma.

    • 10/09/2013 at 12:01

      Orivaldo, não existe “homem” e “mulher”, nem biologicamente falando. Existe apenas um espectro onde nos pólos há isso, mas são pólos não ocupados.

  6. Dukatano
    08/09/2013 at 13:51

    Vc acha que o homem pode continuar macho mesmo aquele que é feito de mulher por outros homens? Meu professor de história é homemsexual e mesmo assim parece muito homem.

    • 09/09/2013 at 10:45

      Não existe “homem” e “mulher” Dukatano. Nem biologicamente.

  7. Caetano Novaes
    07/09/2013 at 10:12

    Paulo Ghiraldelli, gostaria que fizesse uma análise das seguintes questões:
    (1) Haverá dois cus iguais? Ou o cu é é a última fronteira da individualidade humana?
    (2) Será o cu uma coisa-em-si ou uma aparência fenomênica? Uma realidade objetiva ou um constructo cultural?
    (3) Existe um cu do mundo ou é somente um mito fundador da civilização brasileira?

    • 07/09/2013 at 14:12

      Caetano, eu passo. Penso que é sua área.

    • Leitão Ibitinga
      13/09/2013 at 17:22

      Paulo, essa foi certeira, parabens. Acertou bem no olho do referido.

    • 14/09/2013 at 08:59

      Meu querido Leitão!!!

  8. Anderson Silveira
    07/09/2013 at 05:57

    Professor, estive pensando sobre o ânus e me veio a pergunta: será que existem dois anus iguais? Ou o ânus é é a última fronteira da individualidade humana? Ainda, o ânus tem alguma função na luta de classes? O que o senhor acha? Obrigado professor.

    • 07/09/2013 at 14:12

      Anderson, tudo indica que você mesmo, por experiência, tem a resposta.

  9. Juliana
    06/09/2013 at 19:42

    Hoje em dia, o hímen é como carteira de identidade. Podemos tirar a segunda via.

    • 07/09/2013 at 14:13

      Juliana, apesar disso ser verdade, quando ocorre, é para o estilo “mulheres ricas”.

  10. Thiago Soares
    06/09/2013 at 17:40

    Então posso dizer que é só na linguagem que a virgindade pode sobreviver? Ela não faz mais sentido no corpo, mas está entranhada em uma psicologia social um tanto quanto machista na qual a mulher ainda precisa estar mais para “virgem” que para “vagabunda”? O homem virgem então, no outro extremo, seria o quê? Esdrúxulo?

    • 07/09/2013 at 14:15

      Não há nada de machismo nisso Thiago. A palavra “machismo” não diz mais nada, assim como virgindade.

  11. angela
    06/09/2013 at 12:40

    Olá Paulo, você tocou num assunto que todos estão sujeitos e é convencionalmente aceito, não há questionamentos… foram até agora dois e você me completa… Interessante o deslocamento da semântica e como é difícil mesmo para indivíduos modernos assumir posturas de mudanças. Cada um guarda para si seus segredos e no caso de nos mulheres fica mais guardado ainda. Confesso que não havia feito uma análise desde âmbito, mas me incomodava de certo modo o papo com as amigas a respeito e até mesmo ter que parar no terceiro…
    Grande Abraço

    • 07/09/2013 at 14:17

      Angela, o terceiro é prá casar, mesmo que tenha existido o vigésimo nono.

  12. Marcos Nicolini
    06/09/2013 at 11:28

    Paulo, ao ler seu texto pensei: Mas será que por esta via do controle de si, ela não controla também a psiquê do namorado, que ainda teme virar corno. Dizendo isto, não estará dizendo ao enésimo-terceiro-namorado: eu sei controlar meus apetites sexuais, fique tranquilo, se tivermos um filho, será teu? A virgindade mantém seu duplo sentido estóico: de controle de si e de controle do parceiro, que não precisaria ficar com medo do leiteiro…quando sai para caçar!

    • 07/09/2013 at 14:18

      Marcos, foi o que escrevi, não? Ou seja, que ainda um resto de sujeito, a pessoa (sujeito moral) nela, é o que ela diz. Não é isso que escrevi? Acho que estamos concordando.

    • Marcos Nicolini
      07/09/2013 at 15:53

      Claro que sim. Apenas olhei para o namorado que sabe que não é o terceiro, tanto quanto ela.

    • 07/09/2013 at 18:49

      Marcos, eu acho que ele acredita que é.

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