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30/04/2017

O nosso mundo entre Fortunatus e Comte


O Renascimento viu nascer um mundo sob varinha de condão da Fortuna. A modernidade tardia, no final do século XIX, preferiu outro tipo de demiurgo, a Providência. Por isso mesmo, na literatura popular de 1500 temos o herói Fortunatus, aquele que ganhou uma bolsa que repunha sozinha o dinheiro gasto. Mas, nos anos de 1800, Comte ensinou o lema “saber para prover”. Somos os herdeiros dos dois ímpetos. O próprio nome fortuna já nem é entendido como sorte, mas como o montante de riqueza que se tem, e que só vale como riqueza se for por conta da sorte: um casamento, uma aventura, um negócio que deu certo e por aí vai. O risco permanece no horizonte. Mas, ao mesmo tempo, não queremos mais abrir mão da ciência e de seu correlato, o estado capaz de política social, que é nossa ânsia de eliminação do risco.

No interior entre o marco da Sorte e o da Providência-que-Sabe criamos as várias matizes do liberalismo. Falamos de liberais quando podemos não cortar a sorte de ninguém, o que implica em arrumar alguma coisa que apoie os que já nascem indicando menos sorte. Uma puericultura, uma pediatria e uma educação básica pedagogicamente informada são então o que a ciência acoplada ao estado providência pode dar para que a fortuna venha a aparecer em alguma floresta com a bolsa de produz dinheiro. Ser liberal implica em reconhecer diferenças e garantir a liberdade para que tais diferenças, todas, sejam fator de potencial crescimento e não de desvantagem e injustiça. Ser liberal é incentivar o risco do empreendimento, convocar forças criativas, e ao mesmo tempo não deixar que fiquem muitos para traz nesse trabalho de também poder jogar suas ideias e iniciativas nesse caldo de construção do futuro. Richard Rorty, um homem da nova velha esquerda americana, esta de Obama, apoiaria essas minhas definições. Um Europeu vindo da social democracia e da crítica desta, como Peter Sloterdijk, também.

Não adianta “saber para prover” se não houver sorte, não adianta só a sorte se não pudermos ter mais pessoas que possam ser contempladas por ela no sentido positivo. Temos de manter no homem o espírito de aventura do Renascimento para que ele possa usufruir do espírito da modernidade tardia, ou seja, o “saber para prover” não pode vir a sufocar a sorte dando a todos a comodidade de saber tudo para prover tudo. Eis aí o drama: o “saber para prover”, uma vez levado adiante pelo estado moderno, não pode dizer que garante tudo a todos, mas sim algo de equilíbrio para os já inicialmente desafortunados. Se vai além disso, provendo os que já tem, não fica só injusto, mas mata o espírito de aventura necessário aos homens do reino da fortuna, da sorte, ou seja, estrangula o capitalismo. Não se pode querer ter os ovos de ouro e ao mesmo tempo jantar a galinha.

A maior parte do Ocidente gira em hoje em torno de variações dessa ideia de que temos de encontrar pontos interessantes no balanço entre aportes estatais e criatividade individual e empreendimento. Se o estado se torna paternalista e populista, certamente não fará isso só em relação aos pobres, fará isso também para os ricos, mais ainda, e acabará gerando um povo de bananas. Não se trata aqui mais de social-democracia versus liberalismo conservador. Faz tempo que os melhores pensadores abandonaram tal dicotomia. Trata-se de buscar algo como o lema “iniciativistas do mundo, não temam, inventem,  criem, cuidem”. Podemos sim encontrar mecanismos de incentivo da criação, iniciativa e cuidado nos mais diversos campos. Trata-se de uma política de solicitação de reconhecimento de setores e indivíduos por aquilo que esses setores e indivíduos iniciaram, pelo qual se arriscaram e cuidaram. Uma política de reconhecimento regada por um grande clima timótico, e não mais meramente erótico.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo 16/10/2016

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Filósofo