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27/03/2017

O nosso ensino é ideológico?


O nosso ensino é ideológico? Como o Ocidente lida com suas grades curriculares? Votar é um ato político que pode, hoje, estar crivado por direita e esquerda, mas estudar crivado por tal coisa não parece bom!

Começo por distinções entre filosofia, doutrina e ideologia.

Primeiro. Quando digo que Karl Marx fez uma crítica contundente ao liberalismo e mostro que os economistas antes dele não viram a mais-valia, ou seja, que há um algo a mais no trabalho humano que é gerado e embutido nas mercadorias, pois o valor que é necessário para que a força de trabalho e os insumos sejam repostos é menos do que o foi gerado, estou no âmbito de uma literatura clássica em ciências humanas. Estou no âmbito da filosofia propriamente dita.

Segundo. Quando digo que a mais-valia é alguma coisa inerente ao processo de produção capitalista, e que a sua expropriação não é roubo, mas algo natural do modo de produção capitalista, e que então, na visão de Karl Marx, o único modo de tornar o sistema mais justo é substituí-lo por uma vida regida por um outro modo de produção, estou em parte fazendo filosofia, mas, de certo modo, já endossando uma doutrina, uma teoria com vistas à ação política.

Terceiro. Quando falo que o modo de produção para substituir o capitalismo é o socialismo, e que este trará uma vida melhor para todos, e que esta vida, vinda ou por reformas graduais ou por revoluções com algum grau de violência física se justifica moralmente por si só, já estou falando ideologicamente. Nesse caso, se digo que isso é inexorável, estou no âmbito de uma concepção de história dogmática, também ideológica.

Com esses três tópicos eu mostro como que a minha retórica tenta esboçar uma diferença, no tocante ao assunto escolar “marxismo”, referente ao que é filosofia, doutrina política e ideologia. Andando pelos bons departamentos de Humanidades das universidades daqui e do exterior, creio que terei mais dificuldade em convencer que a minha retórica da diferenciação foi boa que convencer que a divisão tripartite, como fiz, pode ser levada adiante. Acredito que há mais professores, meus colegas, predispostos a dizer que há sutilizas retóricas que devem ser aperfeiçoadas no meu texto, que colegas dizendo que eu nem deveria tentar, que as diferenças jamais poderiam ser estabelecidas. Minha convicção é esta porque na prática da elaboração de nossos currículos, nas universidades ocidentais, quase todos nós elegemos com certa facilidade o que é de comum acordo que deve ser ensinado, e o que é de comum acordo que deve ficar por conta de um ensino que não é o escolar, não é o da universidade ou do ensino médio etc. No exemplo citado, eu teria mais colegas concordando que as teorizações sobre a mais-valia pertencem ao campo da filosofia e da economia, que se trata de um clássico que não pode deixar de constar no rol de conhecimentos necessários ao estudante ocidental, e menos colegas concordando que também teria de ser ensinado o tópico que chamo acima de ideológico.

Claro que os que concordam comigo quanto à possibilidade da diferenciação, mesmo que esta que eu tenha tentado não seja considerada boa, tenderão também a dizer que o que vai cair em uma rubrica e não em outra depende do tempo e do lugar. Hoje a gravitação universal de Newton não tem nenhuma função ideológica nos meios acadêmicos. Toda a gravitação universal se reduziu ao campo da ciência e, em parte, da filosofia (cosmologia), mas o grande trauma que provocou, quando Newton trouxe tal coisa à baila, ainda que tenha se dado nesses campos, tinha uma componente ideológica bem nítida e terrível: o universo poderia funcionar “por ele mesmo”, sem a necessidade de uma força metafísica para regrar a física ou de uma entidade demiúrgica, ligada à teologia, para tocá-lo e pô-lo em funcionamento. Nesse sentido havia aí algo de verdade, mas também de direcionamento um tanto sorrateiro no sentido de atingir o status da cosmovisão da Igreja, o que lhe diminuiria o poder político. Por isso dizemos que um tal saber tinha lá seu componente ideológico. Ora, exceto os criacionistas e professores assim afinados, que não existem em número suficiente para falar algo válido em departamentos científicos e filosóficos sérios nas universidades ocidentais, ninguém vê qualquer componente ideológica na lei de gravitação universal. Então, ela não é mais um problema para o ensino. Aliás, tornou-se até básica, e desceu para o campo do ensino médio como um pré-requisito ao ensino superior.

O que ocorreu com as Leis de Newton no chamado “mundo moderno burguês” foi tentado, mas sem naturalidade e um pouco a fórceps, no mundo soviético, com o próprio marxismo. Desse modo, os três tópicos acima aventados eram ensinados todos não como filosofia, doutrina ou ideologia, mas como “teoria científica do proletariado”. A Academia de Moscou era encarregada da versão canônica dessa “doutrina científica”. Não deu certo. As coisas com o marxismo “do lado de lá” não se passaram como as coisas com Newton “do lado de cá”.

No geral, nossas divergências sobre o que é necessário que a juventude saiba uma vez frequentando as boas universidades do Ocidente, não são tão diferentes. Quando vemos hoje debates sobre “doutrinação marxista” na escola, algo levantado pela direita política, se temos alguma perspectiva histórica, notaremos fácil que essa é uma moeda cuja outra face também está desgastada – passamos vinte anos de Ditadura Militar falando que o governo estava criando um ensino coercitivo, com viés conservador. E de fato havia lá esse tentativa. Aliás, entre professores de esquerda não faltaram os que recriminaram os colegas que tomavam tudo como ideológico, sendo estes últimos os que acreditavam que cursos de formação política do sindicato deveriam ser os mesmos dados como cursos de política na universidade, se baseados no marxismo.

A direita tem mais dificuldade de se envolver com essa postura autocrítica. Ela é de menor tamanho no campo da pesquisa em ciências humanas e filosofia, embora não tão sem influência quanto ela mesmo se diz, quando acusa outros de doutrinação. Talvez, com o tempo, também a direita no Brasil possa ter entre seus quadros quem saiba apontar militância ideológica em seus próprios grupos de professores. Por enquanto, não tem, ela só vê ideologia e doutrinação no campo alheio. Talvez aos poucos possamos saltar para um plano ideal, que é aquele que eu avalio como sendo o de especificação de trabalhos vitais. OU seja, o que é da vida não é o que é da academia. Assim, quando se vai votar, que se vote à direita ou à esquerda, mas quando se vai estudar a última coisa que se deve fazer é ler algo já se posicionando à direita ou à esquerda; que as divisões e paixões sejam postas de lado, e que se pegue o gosto pelo interior das teorias e filosofias. Aliás, fico pasmo com professores de filosofia que adotam posturas anti-Foucault ou anti-Marx  ou anti-Rousseau etc., sem entender o que é um clássico, o que se tornou um clássico. Quem adota uma filosofia sem gosto por outras não entendeu nem mesmo a filosofia que adotou.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

PS: tenho que lembrar, em função do próprio encaminhamento não ideológico do meu texto, que a noção de ideologia que usei é a noção relativamente marxista, de verdade que funciona também no encobrimento de verdades, e assim faço porque uma tal noção se tornou consensual, ou seja, ela ganhou no interior do meio  acadêmico e na linguagem culta e técnica obrigatoriamente usada nesse meio, as características de um termo clássico.

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10 Responses “O nosso ensino é ideológico?”

  1. roberto quintas
    05/08/2015 at 14:36

    com tanto professor e estudante da universidade se tornando Olavete ou discursando loas em louvor à Ditadura Militar, eu diria certamente que não existe doutrinação [ao menos não nos moldes acalentados pelos reacionários]

  2. Frederico Schmidt Filho
    29/07/2015 at 12:55

    O trabalhador na realidade é o esteio do capitalismo. Mas não por uma mais valia ou qualquer outra coisa se não, ele ser, o MERCADO.
    Não existe capitalismo sem mercado.
    Não existe mercado onde os homens não tem dinheiro.
    E quem dá o dinheiro é o trabalho.
    Só quem pode gerar dinheiro é o trabalho.
    Se algo mais gerar dinheiro, os empréstimos por exemplo, é algo contra o capitalismo, por que o empréstimo remunerado por juros, tira o homem do mercado. Por que. quem vive de juros, não trabalha, não gera produto, não gera motivo de compra, nem permite a compra uma vez que o que tomou o empréstimo trabalha para alguém que vai reinvestir os juros em novos emptréstimos e o dinheiro gerado pelo trabalho dele não vai para o mercado comprar bens, vai para afastar mais gente do mercado.
    Ainda mais nesse país onde aos juros é dado o valor pelos que tem dinheiro e não pelo valor que o dinheiro tem.
    Na realidade o capitalismo é uma teoria primitiva e irracional que atende só ao indivíduo.
    Não é nem um modelo socio econômico.
    É apenas um instinto primitivo, o egoismo assegurado pela única lei do capitalismo.
    “E´ exclusivamente do homem aquilo que ele consegue.”
    E o capitalismo atendendo só a um ser gera o caos onde se pretende viver numa sociedade.
    A individualidade numa sociedade estabelece o caos. Sociedade tem que se referir a participação de todos, em coisas boas e ruins, e a mola principal da sociedade é somente a FRATERNIDADE.
    E não se póde ser fraterno com individualidade.
    O capitalismo estável só sobrevive se o mercado for estável.
    E mercado estável só existe com trabalhador prestigiado, com participação nos lucros, que ele gera.
    Mercado estável é o mercado onde os juros tem que ter o valor que ele merece.
    A saída para o capitalismo é a participação nos lucros.
    É a fraternidade humana no resultado do trabalho patrão empregado.
    Primeiro passo para o comunismo.
    Não tem saída é uma questão de tempo, por que dele, a inteligência depende .

    • ghiraldelli
      30/07/2015 at 19:11

      Quando alguém começa com essa baboseira desconexa falando de comunismo, como você, eu vejo que há que existe também a Consuelo de Jatobá de esquerda. O retardo mental que vemos na direita da Jossi Borges, uma comentadora aqui, acho que é o mesmo que o seu, Fred. Retardo mental sempre causa gente de extremada na direita e na esquerda, gente confusa no falar, no escrever e que não consegue entender artigos simples.

    • Frederico Schmidt Filho
      30/07/2015 at 21:54

      kkkkkk nem sei o que te dizer depois desta resposta tão charmosa.
      Abração
      Fred

    • ghiraldelli
      31/07/2015 at 12:44

      Frederico, você não sabe o que dizer. Puxa vida, finalmente você falou algo correto, que não sabe o que dizer.

    • Frederico Schmidt Filho
      30/07/2015 at 21:58

      Ficou linda minha foto,kkkkkkkkkk

    • João Bosco Renna Júnior
      06/10/2015 at 00:49

      Ele tá no auto completar, control c, control v

  3. Gustavo Barbosa
    29/07/2015 at 07:22

    Adorei o texto todo, mas particularmente o uso do exemplo de Newton.
    Se observarmos mais atentamente os eventos que culminaram na criação do Cálculo é possível identificar bem as três vertentes que você indica no texto, talvez até mais claramente que no caso do marxismo. A disputa entre Newton (um empirista) e Leibniz (um racionalista) pela primazia do novo método científico tinha um fundo filosófico, mas também foi um forte embate político e ideológico entre duas grandes potências acadêmicas da época.
    Muito boa a ligação que você fez.

    Inté.

  4. Bruno
    28/07/2015 at 17:21

    Paulo, como você avalia a posição de Jean-Pierre Faye em relação ao pensamento de Heidegger, afirmando que a obra deste é uma tentativa de inserir o nazismo na Filosofia?

    • ghiraldelli
      28/07/2015 at 18:02

      Associar Heidegger ou Nietzsche como filósofos ao nazismo é a coisa mais tola que pode existir em ciências humanas.

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Filósofo