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21/10/2017

O namoro é possível no Dia dos Namorados?


O amor está no ar? Também no Dia dos Namorados?

Enquanto os americanos comemoram o Valentine’s Day sem nenhum apelo comercial e, até pelo contrário, com as lojas fechadas e só tendo chocolate caseiro como presente, aqui no Brasil o dia é exclusivamente de compra e venda. Não à toa,  o nosso “dia dos namorados” não foi instituído por um santo, mas pelo pai do candidato a prefeito pelo PSDB, o João Dória (sim, este mesmo, o do movimento “Cansei”, lembram?). Seu pai, então dono da Sears, estava preocupado com a baixa de vendas no mês de Junho, encalacrado na calmaria entre o Dia das Mães e a Semana da Criança.Então, criou um dia para empurrar vendas.

Na pátria importada do capitalismo, os Estados Unidos, onde o mercado é um fato e não somente uma miragem de empresário que vive do incentivo estatal, como aqui, não é necessário criar um dia a mais para esquentar o consumo. O “dever cívico de consumir” (Sloterdijk), regra de nosso mundo para o bem viver de todos, funciona nos dias regulares para os americanos. Já aqui, lugar em que o capitalismo veio antes de tudo para celebrar a mercadoria maior chamada escravo negro, o consumo precisa ser induzido. Então, que saia da jogada o santo Valentine e entre o erotismo banal do presente caro, do motel, do jantar e seja lá o que for que seja necessário comprar para o outro, talvez para comprar o outro! Aqui, o dever cívico da modernidade, o consumo, precisa ser induzido, forçado, facilitado, arranjado. A missão civilizatória do capital (Marx), no Brasil, precisa de subsídio!

Na terra do livre mercado par excellence, o livre mercado estabelece-se de modo natural. Tão natural que mesmo quando damos aula sobre ele, lembrando suas características datadas e históricas, não vemos que os que estão inseridos nele vivem como quem está em um nicho, um habitat.  Ou melhor: um elemento a mais de busca de imunidade. Também aqui no Brasil ele é natural, mas esses penduricalhos, do tipo do Dia dos Namorados, mostram a franja de artificialidade de nosso capitalismo. Não somos capazes de parar para curtir o dia, fazê-lo feriado, deliciarmo-nos com chocolate caseiro. Temos de parar o namoro para nos enfiarmos em filas de compras para, ao fim de um dia de trabalho, tentar achar que o presente irá preparar melhor a foda. O capitalismo mal feito leva a um sexo também mal acabado. Aqui, a mão invisível conhecida de Adam Smith não nos arruma, e então, temos de colocar uma mão robótica, artificial, propagandística, para que ela nos pegue pelo cangote e nos diga: “não consumiu nada “supérfluo” ainda desde o Dia das Mães, né? Então, trate de fazê-lo agora em junho ou você quebra o país.”

Há possibilidade de escapar dessa regra e, mesmo aqui no Brasil, usar o Dia dos Namorados para o namoro? Não estou dizendo isso no sentido de uma revoltinha de adolescente de primeiro ano de ciências sociais, aquele que diz que vai tomar uma atitude contra a “sociedade mercadológica”. Claro que não. Mesmo quando eu tinha idade para ser burro, não fui, ao menos não quanto a isso. O que estou dizendo é outra coisa: há a possibilidade de comprar um presente que seja de fato um encaminhante do amor? Cuidado, não estou dizendo “faça a coisa certa para seduzir ou comer a mulher ou homem etc”. Estou dizendo algo mais e melhor. Atenção.

Casamento, dizia Rubem Alves, não é um jogo de tênis, é um jogo de frescobol. No tênis eu tenho que manusear a raquete para dificultar o outro, no frescobol eu tenho que ajeitar a raquete para que o outro tenha facilidade em pegar a bolinha. Ora, se é assim, e se o casamento é preparado pelo namoro, ao se comprar um presente para a namorada ou namorado, o melhor modo é ver como que aquilo que é comprado é acertado, algo que não empurra o outro senão para aquilo que ele espera e quer, para o que lhe tranquiliza e aconchega. Um presente é antes de tudo um mimo. É preciso ajeitar a raquete para  que o outro pegue a bolinha, e não tenha que se jogar para alcançá-la. O espírito do namoro é o de máxima colaboração, não o de disputa. O namoro é uma forma de estar presente antes que dar presente. Mas, dar presente, é também um indicador de estar presente. A adolescência precisa terminar para haver namoro. E namoro que é namoro encaminha para casamento, senão, não é nem um “ficar”, é até menos que um passatempo. Não digo que vá dar casamento quando se namora, mas digo que é mais gostoso quando há investimento nisso. O dito “namoro sério” é o mais gostoso. Muitos jovens não sabem disso, mas o Dia dos Namorados, na forma que se escolhe o presente e diz “estou presente”, pode ensinar tal coisa perdida num passado não muito distante.

No Dia dos Namorados, não fique com quem não quer namorar. Namorado(a) covarde, que não assume um relacionamento, é o tipo da pessoa que vai exibir covardia em todas as circunstâncias. Não vale a pena. Acredite.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

foto: namoro de lesmas

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10 Responses “O namoro é possível no Dia dos Namorados?”

  1. olavo
    20/06/2016 at 11:10

    muito bom, gostei.

  2. Fábio Freitas
    12/06/2016 at 01:28

    Sou gay, mas, para mim, os gays não querem namorar.
    Isso é complicado, pois eu prefiro namorar, ou se der certo, ter algo a mais como casar. Acho que fujo à regra da maioria dos relacionamentos gays.
    Enfim, penso que os homossexuais são mais promíscuos do que os héteros. Se isso é bom ou ruim no geral, eu não sei, mas não consigo arrumar um namorado e não gosto de só fazer sexo por sexo sem estar apaixonado.
    Sou uma alma solitária devido a isso.

    • 12/06/2016 at 08:50

      Fábio isso depende do ambiente que você frequenta. Vejo os gays namorando normalmente. Mude de lugar.

  3. Roberto
    08/06/2016 at 22:15

    Poxa, mais uma vez vc me pondo pra pensar, pois eu acho relativamente normal namorar alguém mesmo sabendo que não vai dar certo. Afinal, mesmo querendo que dê certo as coisas podem desaguar. E por que isso seria “menos” que um passatempo? Pode me dar uma dica? Pois eu to ficando com uma garota há uns dois meses. Ela não me disse nada, mas acredito que se eu não pedi-la em namoro até esse domingo ela vai terminar. E se ela lesse esse artigo aí que o faria mesmo.

    • 08/06/2016 at 22:30

      Roberto, peça em namoro, por que criamos essa merda de cultura do “ficar”?

  4. Matheus
    08/06/2016 at 11:10

    O lance de o namoro ser frescobol (e não Tênis) me lembrou do conto de O. Henry (William Potner), “Presente dos magos”. Conto lindíssimo sobre o amor.

  5. André
    08/06/2016 at 09:17
    • 08/06/2016 at 11:43

      André, gay tem de ser de esquerda agora?

    • moacir
      11/06/2016 at 20:28

      Mas você é gay e de esquerda , Paulo

    • 12/06/2016 at 08:51

      Moacir, ainda não consegui essa perfeição, de ser gay, e quanto à outra imperfeição, não quero, prefiro continuar gostando da filosofia.Agora, quanto ao artigo que fiz, e você não conseguiu entender, tente ler de novo. 5 vezes, se ainda não der, desista, leitura não é com você. Tente algum trabalho só com as mãos.

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