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30/04/2017

O mundo do celular como nosso mundo


Um celular atualmente faz quase tudo. Para algumas pessoas, faz tudo mesmo. Quando ele chegou, pensou-se que seria um instrumento do tipo coleira eletrônica para esposas e maridos infiéis. Depois, acoplado à cultura da Internet hoje já disseminada até entre professores de filosofia brasileiros (uma espécie que rejeita “a máquina” e a novidade por por idiotia), o celular mostrou-se não como um instrumento de trabalho 24 horas por dia ou uma coleira de adúlteros, mas um autêntico país portátil com sua ilha, cada vez maior, de entretenimento. Na verdade, um ampliador do tempo de casamento.

Todo o mundo atual nas sociedades de abundância, que são sociedades da leveza e do entretenimento (Sloterdijk), em que tudo ganha caráter lúdico, mesmo o trabalho, a regra é entreter-se a maior parte do tempo. O entretenimento é, no entanto, de baixa concentração, pois ele não é destinado para os que tem tempo livre de fato, mas para todos. Sendo para todos, é algo a ser usado no próprio trabalho, no metrô, ou nos intervalos de outros entretenimentos que podem ser mais sérios, talvez, como o sexo – onde em alguns casos pode haver comprometimento, ainda! O celular cumpre esse papel de elemento que está à mão, sempre, para o entretenimento: ele tira fotos, põe você no Facebook, lhe dá a chance de postar o que então você chama de realidade e, enfim, lhe fornece possibilidades de compartilhar notícias falsas em função da vingança como forma de entretenimento e da ideia de que você ainda vive, que é um ativista social etc. Fora isso, ele tem jogos! Permite que você, que nunca progride realmente no emprego, “passe de fase”, e ache então que fez algum progresso. Performances superadas, mesmo fantasiosas, nos dão essa chance de nos acharmos não medíocres com de fatos somos.

Mas, como isso prolonga casamentos?

Simples. Mais ou menos aos sete anos, vinha a crise inevitável dos casamentos, ao menoscelular para uma boa parte que não era artista. Os artistas descasavam antes. Como era a fenomenologia da crise? Ia-se num restaurante ou festa e se era obrigado a ficar com o cônjuge chato, com filho chatos e, depois, voltando para casa, fazer um sexo chato. Agora todo casal pode se aturar tendo cada um seu celular. Ficam mais tempos juntos sem ter de suportar um ao outro. Até o sexo fica melhor, pois podem mandar “nudes” para amigos ou filminhos de sexo deles mesmos, e imaginar algum amigo, ainda da velha guarda, se masturbando vendo-os gemer. A crise dos sete anos vai para mais adiante. Alguns casais chegam até a poder ver juntos os filhos entrarem para a universidade. Há algo de conservador nesse progressismo todo! Há uma proteção da família!

Isso não é bom nem ruim. Mas é uma sintoma dos tempos em uma sociedade em que a regra é “corpos do mundo, uni-vos no entretenimento de hoje, ou dispersai-vos, tanto faz”. Esse lema é o do que seria aquele posto em um Manifesto Consumista, um livro necessário se quisermos cumprir o dever cívico de nossos tempos que é “consuma e se divirta antes que alguém pegue sua esposa (ou equivalente) para assim fazer”.  Um lema que vive junto deste, também um dever cívico: consuma pois sem consumo seu emprego não dura.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: não tente ler esse artigo e se desfazer de seu celular, o artigo não é sobre ética, é sobre ontologia.

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16 Responses “O mundo do celular como nosso mundo”

  1. Pedro Possebon
    01/05/2016 at 13:43

    Placenta, celular, mãe, pai e amigo.

  2. A.A.
    30/04/2016 at 23:10

    OFF TOPIC:

    Quando li a frase “Há uma proteção da família”, não tem relação, mas lembrei a votação na câmera, com inúmeros sujeitos votando em nome da família.

    De onde vem essa “ideologia da família”, defendida pelos setores conservadores, no sentido filosófico, se é que uma tal coisa existe?

    Provavelmente NÃO vem do cristianismo. Pelo contrário, quase todas a famílias bíblicas são um tanto “disfuncionais”.

    Dá para uma matéria no blog?

    • 30/04/2016 at 23:31

      AA vem da absorção da burguesia de uma doutrina aristocrática, mas que tomou ares de constrangimento sexual a partir do período vitoriano, com variantes na América e, claro, em todo os lugares em que terra passou a ser disputada por herança e por pioneiros. O cristianismo se agregou a isso por ser religião oficial do Império, no caso brasileiro.

  3. Orquideia
    30/04/2016 at 22:18

    Eu também acho que os celulares uniram as famílias.
    Agora as pessoas ficam sempre se comunicando com irmãos,pais,cônjuges,etc, pelo “záp-záp”.

    • 30/04/2016 at 23:32

      Orquídea, essa foi boa! he he he

    • Gustavo
      01/05/2016 at 09:46

      E o interessante sobre o “zát-zát” é a intersecção de diferentes esferas do cotidiano: tem o grupo da família, o grupo dos amigos, o grupo do trabalho, o grupo da academia e o grupo da putaria, este com membros selecionados do grupo da família, quase todos do grupo dos amigos, muitos do grupo do trabalho (que fazem mais postagens neste grupo do que propriamente no grupo do trabalho), e claro, pessoas do grupo da academia.

      Inté.

  4. Victor Hugo
    30/04/2016 at 17:16

    Brilhante e provocador. Cada texto desse blog me faz olhar as coisas do mundo de um modo diferente. Muitas dúvidas, provocações e nenhuma confirmação. Musculação ininterrupta para a mente!

    • 30/04/2016 at 17:56

      Vitor esse blog de filosofia como crítica cultural é isso, só para inteligentes, gente que quer ter dúvida.

  5. Roberto
    30/04/2016 at 16:15

    “consuma pois sem consumo seu emprego não dura.” Lema interessante, embora não tenha certeza se entendi direito. Quer dizer que meu emprego depende de eu consumir? Tipo, se eu não consumir (pagar algo em diversas prestações, por exemplo) não terei motivação para trabalhar, assim ficarei sem trabalho. E por aí?

    • 30/04/2016 at 16:36

      Você já ouviu falar em “obsolescência programada”?

    • vera bosco
      30/04/2016 at 19:19

      Eu gosto da filosofia porque a minha lâmpada sofre de obsolescência programada.

    • Roberto
      30/04/2016 at 20:31

      Você já escreveu sobre isso. É a fabricação de produtos cuja validade é programada para expirar em tal data. Então você quis dizer que deve-se consumir para que cada um tenha com o que se sustentar ( trabalhando em mercadorias que serão consumidas, desde que a sociedade seja consumidora). Assim, consumo leva a manutenção do emprego de forma mútua entre os indivíduos da sociedade.

    • 30/04/2016 at 23:33

      Roberto, no caso aí, a ideia é mais ampla, nós nos consumimos.

    • Matheus Kortz
      01/05/2016 at 21:39

      Esse lema faz parte até da “ciencia” economica, a qual estudo.

      Porque (inclusive) existem 3 formas de se calcular a produção de um país (PIB) pela optica da renda (somatoria de salarios,alugueis, juros e lucros),pela optica do consumo (consumo das familias, investimentos, gastos do governo, importaçoes e exportações) e pela optica da produçao (valor agregado aos produtos e serviços finais) e tudo tem que sero coincidente (ou igual). Entao realmente só dá pra consumir se “trabalhar” (ou for “burgues” proprietario de capitais, empresas e/ou terra)

    • LMC
      02/05/2016 at 11:58

      Matheus,quem fala em burguês e
      burguesia,hoje em dia,é o pessoal
      dos DCE das USPs e Unicamps
      da vida,made in Luciana Genro.

    • Matheus
      03/05/2016 at 17:02

      Sim eu sei, por isso coloquei as aspas, já que é um termo rumo ao desuso rs. Mas que dentro da abordagem marxista de visão social e divisão do trabalho ( e do não-trabalho tbm) obviamente fazem todo o sentido.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo