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22/09/2019

O militante e o homem comum


O militante e o homem comum ou A mula sábia e o boi ingênuo

O homem comum tem sempre certo senso crítico. Por isso Gramsci chegou a dizer que havia um intelectual e até um filósofo no homem do senso comum. Pois todo mundo tem algum gosto, alguma predileção, alguma tendência a dizer “devagar que o santo é de barro” ou “se o milagre é demais, desconfiemos do santo”. Essa sabedoria popular deve ser notada e ela encantou Paulo Freire. Este, na sua ideia de educação, sempre apostou nisso como ponto de partida para o um processo pedagógico que ele, em certos momentos, chamou de “educação para a conscientização”, uma terminologia velha que talvez não tenha mais que ser reproduzida.

O homem comum desconfia. Ele não adere. Ele fica com um pé atrás com a Maria-vai-com-as-outras. Ele é o típico Jeca dos filmes de Mazzaropi. Ora, mas é assim? Então quem é aquele que fica fascinado com os “líderes de massa”? Quem é aquele que imita o rico e se torna meio bobo perdendo o senso do ridículo? Quem é aquele que é vítima cativa do demagogo? Quem é o que adere com facilidade às posições de força, advogadas pela direita ou pela esquerda?

Por incrível que pareça, o mais propenso à adesão às ideologias e, portanto, ao feroz autoengano que o faz agir contra o que determinada sociologia diria que são seus “interesses de classe”, é o homem semi-escolarizado ou semi-educado ou, melhor dizendo, o que entrou pela via da pseudoformação.

Este é o indivíduo que cai no colo das doutrinas ideologizadas. Ele se acha diferente ou, mais exatamente, quer se achar diferente de seus parentes e amigos não escolarizados, e então adere ao que lhe parece inicialmente crítico. Com isso, fala aqui e ali e se gaba dessa sua opinião que à primeira vista, por conta de citações, parece vir de alguém mais informado que outros ao seu redor. Trata-se de alguém que, no meio em que está, “sabe das coisas”. Não à toa alguns jovens mal formados sentem até vergonha de pais “ignorantes”. Muitos jovens nazistas ou pessoas da juventude comunista deploravam seus pais porque eles “não sabiam de nada”, não entendiam a “mudança da sociedade” para os novos rumos.

Todavia, uma pessoa assim nunca mais consegue fazer outra crítica que não aquela inicial que o pegou. Ela a cristaliza em sua mente, até porque é tudo que o faz parecer se distinguir do dito homem comum. Este, enfim, é o que não opina sobre política de modo a parecer saber das coisas. É fácil notar como é isso que move o militante mais dogmático da direita ou da esquerda. Essa sensação de potência é o que necessita. Com a sua “religião política” nas mãos ele não possui mais dúvida a respeito do mundo, e adiciona isso à cena insuportável, a de seus pais diante de intelectuais e da universidade. Isso sempre o enfureceu, porque ele mesmo sempre soube que tal instituição o ajudaria só com extremo esforço, não por algo como “o seu mérito por ter simplesmente nascido”. Nesse caso, esse pseudoformado é sempre o que se oferece para atacar professores e queimar livros. Está nele toda a energia para atacar a universidade e chamar professores de caducos, caso tais professores queiram pensar diante do vagalhão de mudanças vindas das vanguardas. Pensar irrita muito a este homem decidido.

Algumas pessoas aparentemente muito cultas às vezes se revelam iguaizinhas a tais pseudoformados. Isso porque a formação autêntica, boa, implica em leituras amplas e não só a leitura do permitido. Implica também em conversas e disputas, em consideração real pelo ponto de vista do outro, coisa que só é possível para quem adere ao ponto de vista do outro e o experimenta. Intelectuais antimarxistas são tão ruins quanto intelectuais anticristãos. Muitos intelectuais não conseguem fazer isso, ou seja, viver outros mundos, e, quando vociferam em artigos dogmáticos, principalmente nos jornais, repetem a militância do pseudoformado nas ruas – e a incentivam.

Esses intelectuais são os que alimentam a bola de neve da militância. Pois o pseudoformado vê um intelectual falando o que ele já ouviu do líder político e se regozija: “os inteligentes estão falando o que eu falo, viva, sou também inteligente – eu sempre soube disso”. Não consegue ver que sua crítica é repetitiva, estereotipada e que ele a repete exatamente para não pensar. No fundo, essa pessoa tem tantas frases feitas e jargões para não pensar que em nada difere do criminoso nazista Eichmann, na descrição célebre de Hannah Arent. O triste é que o intelectual que o comanda e o alimenta a partir do jornal não é tão diferente dele.

Todas as vezes que você lê um jornal e se encontra com essa figura de intelectual com todas as verdades e sempre aliado de uma posição tão unificada, pode desconfiar. Talvez ele não seja melhor que o militante dela na rua, gritando e vociferando contra algum aspecto da democracia que, não raro, é vigente, mas que ele diz que para ele não existe.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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5 Responses “O militante e o homem comum”

  1. julio cesar
    13/09/2015 at 08:36

    comunismo=fascismo=nazismo=racismo

  2. 13/11/2014 at 19:39

    As pessoas não se manifestam para tirar 10 numa prova de escolinha ou para passar num pseudo concurso de professor universitário. Se trata de outro fenômeno ainda não compreendido pela intelectualidade que tapou os ouvidos durante quinze anos enquanto o ovo era chocado.

  3. Hayek
    13/11/2014 at 11:41

    Não entedi Paulo. Você é contra as pessoas militarem por certas causas?

    • 13/11/2014 at 12:06

      Eu sou militante de proteção animal. Sou defensor de minorias. Lendo o “Filosofia política para educadores” você acha que perdi o bom senso, que não filosofei?

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