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19/08/2017

O medo da forma que é fôrma!


Nos anos setenta popularizou-se a ideia de Marshall McLuhan expressa no dito “a forma é a mensagem”. Vários teóricos da época parafrasearam: “a fôrma é a mensagem” e “a forma é a massagem”.

Essas pequenas sabedorias queriam pegar pelos calcanhares a mídia. A Internet só viria a surgir para a população em geral duas décadas depois, mas já se podia falar em mídia como tendo três pilares distintos: rádio, televisão e jornal impresso. Época da emergência da expressão “aldeia global”.

A massagem/mensagem sobre nós, podíamos sentir, parecia nos dar antes que condições de forma, delineamento de fôrma – o meio é que dava o rumo, não o conteúdo.

Ainda considero válida, e talvez agora mais que antes, essa ideia de que em teoria da comunicação o conteúdo é a própria mídia, seu modo de nos trazer para seu interior na esperança de que possamos achar que estamos no comando de algo. Mais dia menos dia, a técnica da própria mídia se faz sentir e, então, estamos na fôrma. A mídia é a materialização da técnica no campo da massagem-mensagem. O que se queria dizer, junto com Althusser, é que a ideologia não estava no texto religioso, mas no ajoelhar, de modo que a boca do locutor da Globo não nos enganava, mas a tela nos condicionava. Esse era o problema da “sociedade do espetáculo”, que não era o problema do engano da mensagem, com até hoje, erradamente, alguns pensam ao falar no “domínio da mídia”.

O que é estranho de tudo isso é que a maneira como os partidos políticos funcionam, especialmente os partidos tidos como mais unificadamente doutrinários (alguns os chamam de ideológicos) à esquerda ou à direita, resistem de maneira surda à massagem da mudança midiática. As mídias atuais deveriam favorecer um comportamento de diferenciação, de rechaço da “missa” ou do “culto”, e isso dá para se ver em vários setores, mas não na juventude de partido. Esta tem uma massagem própria, que nunca muda. Nunca!

Não estou dizendo aqui que a Internet é uma mídia libertadora, não põe fôrma, enquanto que a velha mídia era condicionadora por si mesma, como mídia. Não é bem isso. Estou dizendo que o que há de mais aberto a novas possibilidades na mídia atual não atinge uma parte da juventude propensa ao catecismo.

Essa massagem própria que faz fôrma para além de qualquer mudança traz um paradoxo. Quando mais a mídia muda, menos a mídia interna aos partidos de esquerda e direita mudam. Particularmente, eu temo que essa massagem dos partidos, a forma que é fôrma, que a mídia dos próprios partidos, pegue as pessoas de uma tal maneira que as iguale no que há de medíocre. Aliás, sabemos bem, os partidos doutrinários foram, no século XX, os condutores dos absurdos da mediocridade – nazismo e comunismo mostraram-nos bem isso.

As aulas públicas do Occupy mostraram um traço de não-mudança. As manifestações de 2013 mostraram traços de mudança. Mas as manifestações de ocupação de escolas, principalmente agora, mostram novamente traços de não-mudança. Sai de cena o comportamento individual e livre e entra em cena a “missa”, a preparação para o culto de religião de fanáticos, a forma de “profeta que berra para que outros sigam”, e isso é a pior fôrma. A forma que leva mais diretamente à fôrma.

Veja o vídeo da menina de 16 anos falando, por conta da ocupação da Assembléia Legislativa de São Paulo: Aqui!

Tenho dificuldade de acreditar que esse tipo de prática (no vídeo) de movimento político é repensado a partir de reuniões com divergências e absorção de divergência, antes e depois da fala pública. A impressão que fica é que as reuniões anteriores que produzem esse tipo de manifestação pública são muito parecidas com as próprias manifestações públicas: há um texto (tão simplório que é um absurdo ser lido!) e um tipo de oração religiosa canhestra, com o coro repetindo aquilo, em uma atitude que lembra bem grupos de muita ação e pouco cérebro. Bolcheviques e nazistas pareceriam raciocinadores perante esse tipo de fala da menina do vídeo.

Não tenho nenhuma pretensão aqui de julgar o mérito da ação. Pelo que sei, os estudantes estão mais que certos em pedir uma CPI para o caso da falcatrua das merendas no governo Alckmin. Pelo que sei, também, o governo Alckmin é de negociação difícil, cabeça-dura diante de problemas com estudantes ou professores ou ciência. Nada de estranho nisso. Mas o mais estranho nisso é que essa juventude está sendo educada politicamente como seus avós foram, e estes não se deram bem, nem fizeram coisa boa com esse tipo de educação.

Tenho muita dificuldade em acreditar que uma menina de 16 que aprende a agir assim como no vídeo poderá se tornar uma pessoa apta aos estudos, à mudança que o pensamento filosófico e científico requer. É difícil vê-la, no futuro, como uma universitária criativa, mas apenas como mais uma “garota de partido”, com verdades prontas.

Falta espontaneidade, falta loucura, falta sacada para essa juventude. É a forma posta pela velha fôrma – massageando e massageando. Massageando o cérebro, empobrecendo o corpo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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8 Responses “O medo da forma que é fôrma!”

  1. Matheus
    11/05/2016 at 15:02

    “Falta espontaneidade, falta loucura, falta sacada para essa juventude. ”

    A juventude brasileira é muito serena, pacata, calma, tranquila, racional, fria e velha. Eu nunca tive paciência pra toda essa fôrma(lização), e com 25 anos me orgulho de ser um velhaco e não fazer parte desse tipo de juventude.

  2. Luiz
    08/05/2016 at 11:56

    Quem vai ficar com medo é a esquerda 2018 quando Bolsonaro se tornar o presidente do Brasil. Prepare-se! Kkkkkkkkkkkkk

    • 08/05/2016 at 13:11

      Bolsonaro vai casar com Jean Wyllys e adotarão filhos, e você ficará com inveja, pois não adotarão você.

  3. Lohas
    08/05/2016 at 09:46

    As pessoas de hoje estao muito engessadas, em todos os sentidos. Mas a culpa não é delas, é uma sociedade que oprime cada vez mais, um capitalismo que transforma as pessoas nisso daí, apenas em máquinas de repetição ideológicas. Somos educados a dizer apenas o sim, não somos educados para a crítica, para a provocação, para a criatividade e para o enfrentamento. Aí daqueles que ousam fazer o inverso das normas, esses são não raras vezes perseguidos pelo Estado, pelas oligarquias regionais, pelo aparato repressor oficial e não oficial de uma sociedade ainda muito pouco democrática como a do Brasil profundo.

    • 08/05/2016 at 10:09

      Ha ha ha “o capitalismo transforma as pessoas nisso daí”. Não, Lohas, não! Essa frase é o engessamento mental. Um artigo desses é para fazer pensar, não par ser o engessado.

  4. João Neto
    07/05/2016 at 18:59

    O homem se repete: diante de uma aglomeração de pessoas unidas por uma reivindicação, eis que alguém pega num banquinho, sobe e prega.
    Numa fração de segundos a atitude vira passividade. A multidão que pensa estar se atuando não se dá conta neste momento que subrepticiamente volta à submissão. Se submete agora não àquele contra quem luta mas agora àquele que lhe coloca as palavras na boca.
    Paulo, achei muito bem pensado sobre o homem se repetir e continuar de joelhos, condicionado, independente da doutrina ou do discurso, sendo esse o ponto fulcral, o ajoelhar-se. Já o príncipe de Falconeri disse que para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.
    Sendo assim, vira o disco e toca a mesma música e a Revolução dos Bichos se repetiria sempre, Paulo?
    A mim, mete medo ver pessoas repetindo frases sem pensar, são gravetos para um fáscio, ou não?
    Vida longa, Paulo.
    João

    • 07/05/2016 at 19:13

      O problema não é de quem repete, mas de quem comanda. “Ai da vanguardas que são seguidas”

  5. vera bosco
    07/05/2016 at 17:38

    Já ouvi os jovens do ensino médio fazer apresentação de trabalhos no curso Normal dessa forma e serem ovacionados . Agora tudo é no UH HUU.A plateia responde como macacos de auditório.
    A maioria conseguiu, no máximo, um emprego nas lojas.Uma vez falei-lhes que estava num curso de Formação de Balconistas e vários colegas da área pedagógica lançaram-me ao paredão.
    A educação Pública vai mal porque os professores também são copy cats das narrativas dos partidos.São saudosos do Enéias e admiram profundamente o Bolsonaro.
    E o PISA, ó!!

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