Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/12/2017

O lobo de Wall Street


A ideia de que o mercado de ações é uma loucura é alguma coisa bem conhecida. A visão de que as pessoas ficam não só pobres e ricas, mas principalmente loucas quando aderem à vida do mundo da compra e venda de papéis, faz tempo que é amplamente divulgada. Todavia, com o filme The Wolf of Wall Street, surge o que há de mais verdadeiro naquilo que se transformou no coração falso do capitalismo: addiction.

Martin Scorsese criou o The Wolf of Walt Street e acertou em todas as alegorias. Lobo e cão: o primeiro é o sofista, só o segundo é filósofo, na velha divisão de Platão. Porque o filósofo não pode enganar e o lobo, queira ou não, só pode enganar. Parecidos por fora, diferentes por dentro. A alma do cão é exemplo do que sempre se põe verdadeiramente, enquanto que o lobo não pode fazer isso de modo algum, pois perderia sua própria natureza. “Um lobo em Wall Street” é um nome apropriado porque no jogo da retórica da linha telefônica, onde se há de vender um saber que nada sabe a não ser que é falso, é necessário ser o eterno sofista.

O segundo acerto de Scorsese é o vício. Todos no filme se drogam e fazem sexo adoidado. É preciso muito dinheiro para uma vida assim. Ser um funcionário de vendas do que é quase um roubo é ganhar muito para gastar muito. Todas as drogas químicas que se pode tomar para relaxar, “dar barato” e dar potência, que aparecem no filme, e que de fato tem a ver com o mundo empresarial do capitalismo, na verdade são metáforas para o mundo do vício verdadeiro. No que se está viciado? No trabalho. Na capacidade de ser lobo, de enganar, de poder ganhar mais e mais para gastar mais e mais, mas isso se e somente se ganhar significa jogar, ludibriar, fazer parte de uma promessa da América: falar, conversar, vencer.

Falar, conversar, convencer e vencer. Isso era a democracia americana. O capitalismo e a venda de ações é quase isso, mas a palavra convencer não aparece. Ninguém do outro lado da linha é convencido a comprar, mas é, sim, vencido ao comprar. Do lado de cá os lobos não estão comemorando um feito de convencimento, mas um feito de vitória, ou seja, o do lado de lá da linha não foi propriamente persuadido, ele foi derrotado. Capitalismo e democracia – Marx nunca achou que esses primos se davam bem, ainda que estivessem, quase sempre, juntos.

The Wolf of Wall Street é um filme que conta a história de um rapaz com talento enorme para ensinar seu próprio primeiro talento: o de vender alguma coisa para outro, principalmente se o que é vendido seja o que é visivelmente falso: ações de companhias que são um lixo – vendidas para quem é um zero social, mas que acredita no sonho americano que sendo acionário de alguma coisa, vai ficar rico. Esse personagem interpretado pelo agora já consagrado Leonardo Di Caprio é realmente sedutor. Tão sedutor que seduz a si mesmo. Quando já aprontou todas e está para ser agarrado pelo FBI, mas ainda tem sua chance de sair livre, ele volta à ativa na companhia que ele mesmo criou, para continuar a orgia literal com drogas e mulheres, e a orgia metafórica, que é a orgia dos papeis que andam por si mesmos, as ações. Leva às últimas consequências tudo. Cumpre o verdadeiro destino do empresário americano: risco máximo, adrenalina máxima, ir até o fim. Levar a sério o capitalismo é isso: toma-lo como o único modo de se viver na terra. O capitalismo ou é universal ou não se chama capitalismo.

Peter Sloterdijk está certo ao dizer que vício em droga não é algo de químico ou psicológico, mas de falta de sentido para o uso de alguma coisa. Quando há sentido em uma prática, ela não se torna um elemento de vício, mas quando ela gira em torno de si mesma, em uma roda frenética que não tem o que fazer senão rodar e rodar, eis aí o perigo do vício. Nenhuma droga viciou alguém em sociedades em que a droga estava inserida em um horizonte de sentido válido, por exemplo, a religião. As mesmas drogas, em sociedades nas quais elas apareceram despidas, elas viciaram a todos.

O capitalismo de vendas de ações é isso: ele não produz riqueza para um hedonismo sábio, mas dinheiro para gerar dinheiro de modo que se possa gerar mais dinheiro, na traição de todo e qualquer hedonismo, até do mais imbecil. Há tanto dinheiro! Mas, para se conseguir o que senão o mesmo de sempre: mulheres e droga – no contexto, a mesma coisa portanto. Tudo o que se podia comprar com o pouco dinheiro. Não há sentido algum nesse consumo da droga de venda das ações, nesse vício do trabalho nesse mercado específico. Por isso ele é um vício ou se torna algo que é um vício.

Scorcese parece ter lido Sloterdijk. Mas os artistas criam de suas vivências, não são filósofos que sofrem para poder contar uma narrativa como esta, e que não conseguiríamos contar exatamente porque ela é simples e diz tudo. Ela diz um dos segredos da América: ainda que nela uma parte do sonho tenha virado pesadelo, que disse que pesadelo não é sonho?

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

Tags: , ,

17 Responses “O lobo de Wall Street”

  1. Nelson
    10/03/2014 at 10:40

    Detalhe para a cena quase no fim do filme, quando o agente Patrick, do FBI, está no metrô. Acabara de prender Jordan (DiCaprio), sem qualquer glória, reconhecimento ou holofotes. Ele olha ao redor, as pessoas estão simplesmente respirando enquanto o metrô segue seu curso habitual, ninguém sabe quem ele é, não há qualquer notoriedade. Jordan havia falado sobre isso (sobre não ter dinheiro, andar de metrô e não ser notado) na abordagem em seu Iate, tentando subornar o federal. Apesar dessa falta de visibilidade, Patrick não parece se afetar, não esboça qualquer emoção distinta da que teria em um dia qualquer, apesar do grande feito. Seria Patrick o “cão no metrô”, em detrimento de Jordan ser o ‘lobo de wall st”?

    Boa a ligação com Sloterdijk na relação da narrativa com o uso de drogas. A cocaína e os ludes são abundantes e vazios em sentido: é o uso da droga pela droga, e só.

    Obs: Senti que faltou uma pausa no cinema, 3 horas diretas foi meio puxado.

    Valeu Paulo!

    • 10/03/2014 at 11:05

      Três horas de filme está ficando puxado? Sinal dos tempos! Tempos do homem clip! Bem, Nelson, gostei de seu texto aí, deu mais ideias. Por que a notoriedade é importante? Qual notoriedade. A notoriedade para todos? Mas antes nos bastava a notoriedade no âmbito do próprio mundo, no máximo no trabalho.

    • Nelson
      10/03/2014 at 15:34

      Pois é, sou dessa geração que não aguenta sentar a bunda na cadeira por mais de duas horas sem ter faniquito, haha.

      O reconhecimento do agente do FBI será dado no escritório, e pronto, that’s it. Ele se satisfaz com a glória no trabalho, apesar do pouco alcance de exposição em comparação com a fortuna de Jordan.

      O personagem de DiCaprio parece ser um tipo diferente de bípede, mesmo podendo ter saído à francesa e escapado da prisão, preferiu voltar e tomar conta da empresa. Agora, o que ele buscava com isso? Grana, pó e hookers². Mas também a notoriedade, já que a Forbes o havia projetado para a fama, boa ou má, como no filme é dito, “there is no such thing as bad publicity”.

      Agora, por que a notoriedade é importante? Qual notoriedade? Para todos?

      Aí apertou o cerco, hem. Daria pra falar em sociedade do espetáculo?

      Abraço!

    • 10/03/2014 at 15:55

      Nelson, “Sociedade do espetáculo” ainda sobrevive como diagnóstico. Foi o que tentei fazer na introdução do próximo livro, o que lanço no sábado na Cultura. Apareça.

  2. Roberto William
    01/02/2014 at 10:59

    Eu diria que, para ser considerada “viciante”, determinada prática de algo ou consumo de alguma coisa deve ser necessariamente prejudicial a saúde física, mental ou espiritual.
    Por isso, a religião não é “viciante” e, a fortiori, uma droga, tendo em vista o fato dela não viciar. Ou seja, quem a abandona não se prejudica com os efeitos da Síndrome de Abstinência. Sem essa síndrome, não há vícios. A roda pode rodar só por rodar, desde que isso não seja prejudicial, porque só assim estará configurado o vício. O perigo esta na referida Síndrome e não na prática pela prática “sem sentido”.

    • 01/02/2014 at 13:22

      Só uma besta poderia dizer que há em meu artigo “religião viciante”, o que eu disse é que sem horizonte de sentido, várias práticas, inclusive consumo de drogas, vira vício. Populações indígenas que consumiram drogas por séculos não se viciaram, mas caíram sob o alcool em poucos meses. Entendeu agora?

    • Roberto William
      01/02/2014 at 17:22

      “Nenhuma droga viciou alguém em sociedades em que a droga estava inserida em um horizonte de sentido válido, por exemplo, a religião”. Não sou besta, velhinho! Apenas me confundi nesse trecho transcrito que realmente apresenta uma informação difícil de se aceitar numa primeira leitura. Pelo que entendi, agora, é que a religião não seria a droga, mas aquilo que inseri a droga em um “horizonte de sentido válido”. É isso?

  3. Leandro
    31/01/2014 at 08:46

    Paulo, você pode dizer a qual livro do Sloterdijk você se refere?

    • 31/01/2014 at 09:43

      Leandro, acho que já publiquei aqui no blog um texto sobre addiction, que era para um programa Hora da coruja que acabou não acontecendo, sobre drogas. Mas, o livro que Sloterdijk fala sobre vício é o Weltfremdheit.

  4. Valmi Pessanha
    30/01/2014 at 19:38

    Excelente análise, PAULO
    Scorcese deve ter lido Nietzsche: “Apolo não pode viver sem Dionisio”.
    Com admiração
    Valmi Pessanha

  5. Fabian Pineyro
    30/01/2014 at 16:57

    Filme genial (e de três horas!). Essas arengas de Di Caprio chamando a vencer, o comportamento de macaco que muitos operadores têm… Eu acho que o Scorsese carregou na irracionalidade dessa manada para tirar a máscara racional instrumental com que se legitimam esses caras.
    Falta agora o filme dos economistas que profetizam catástrofes por TV.

  6. Pedro
    29/01/2014 at 21:43

    Excelente texto… “Bela” análise do novo filme do Scorsese! Não pensei “neste sentido” (a alma do lobo, a alma do cão, o desejo insaciável e inesgotável pela vitória, o denegrir-se em prol da “fé” no capital, o vício como falta de sentido em ser e agir…) quando assisti o filme… Me fez ver através de outra perspectiva. Apenas uma provocação: após ter lido Sobre a Revolução de Hannah Arendt, e viajado recentemente para o Estado da Califórnia, dúvido da hipótese de que a democracia Americana se resuma ao que você explora no quarto parágrafo… Ela (a democracia Americana) certamente contém estes elementos, entretanto, em sua história e atualidade, apresenta outros fatores que a constituem… Fatores bem positivos…

    • 29/01/2014 at 22:52

      Pedro, nada no mundo se resume a uma frase. O importante das frases sintéticas é servirem no texto que você constrói. No caso, a minha frase repete outros e eu mesmo.

  7. Thiago Leite
    29/01/2014 at 18:38

    Paulo, não gostei do seu texto…. o mercado de ações não é assim como você tá colocando. Essa parte de vício é mais direcionado pra mercado de opções(derivativos) e não o de ações. Veja, enquanto uma ação sobe 1% em 1 segundo, a opção sobe 10% a 15% em 1 segundo. É por isso que tanta gente coloca dinheiro no mercado de opções, mas não é preciso ser vendedor desonesto pra isso acontecer. Muita gente coloca e termina perdendo rios de dinheiro simplesmente pq ganhou dinheiro com uma ou duas operações em opção e se acha ‘o cara’. Da mesma forma que ela sobe com força ela cai com muita força e é aí que vem o prejuízo. Eu vi com os meus próprios olhos. É impressionante como é fácil perder dinheiro em opções e muito dinheiro. Trabalhei e investi no mercado de ações por uns 5 anos e estranhei as tuas colocações. Vou ver o filme e ler esse texto umas 2 vezes e vou colocar minha opnião sobre o assunto.

    • 29/01/2014 at 21:20

      Thiago, escreva para o Scoresese, vai ver ele produziu uma obra de ficção, os autores têm essa mania, e eles enganam os filósofos. Além disso, vai ver que “addiction” como filósofos e antropólogos colocam (Sloterdijk) é um erro.

  8. Guilherme Assis
    29/01/2014 at 17:00

    É o “homem primata, capitalismo selvagem”. Ou lobo primata seria mais adequado?

    • 29/01/2014 at 17:37

      Guilherme, o capitalismo não é selvagem, ele é o supra sumo da civilização.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *