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21/11/2017

O jovem que quer ser uma merda, o será! (Black Mirror)


Sabe aquele padre que não é padre, virou cantor sertanejo e de vez em quando põe batina? Sabe aquele advogado que não é advogado, virou reprodutor de negociata? Sabe aquela mulher cujo botox fez desaparecer a mulher? Sabe aquele militante político que perdeu a voz de tanto dar voz para o seu chefe? Sabe aquele professor (de filosofia ou história etc.) que deixou de ser professor e virou “macaca de auditório” ou escritor de semi-auto-ajuda, nas mil palestras que dá, todas iguais? Sabe o engenheiro que ganha a vida assinando plantas, sem nunca ter feito um projeto? Sabe o artista canastrão? Sim, todos eles existem. Você não teme? Sabia que pode se transformar num deles?

Há jovens que respondem: “eu quero sucesso”, e isso significa: dinheiro e aplauso dos energúmenos. Para ganhar dinheiro e aplauso dos energúmenos não há outra maneira, você tem que ser um deles. Há dois filmes sobre isso, recentes, que valem a pena ver. Um deles é “Quinze milhões de méritos”, da série Black Mirror da Net Flix. O outro é com Al Pacino, “Não olhe para trás”.

O primeiro é uma ficção que nos remete a um futuro onde todos fazem o que se faz hoje em dia, mas como forma de vida e trabalho único: a vida é uma academia onde se fica em bicicletas ergométricas gerando energia limpa por meio de dínamo, para o funcionamento de todo o resto. Tudo ao seu lado desse ciclista é virtual. E ele paga pelos programas virtuais, se os pula e não os vê, perde ponto, tem de pedalar mais para ganhar pontos e comprar mais programas e, claro, comida – fast food. O momento único pelo qual se pode sair disso, para viver mais virtualmente ainda, mas ter direito a algo que possa parecer não virtual – um copo de suco natural – e não mais estar sujeito ao pedalar, é aquele em que se é aceito e aprovado num programa de estilo “America’s got talent”. O terrível é que não é aprovado pelo talento ou pelo objetivo com qual vai até lá, mas pelo o que acaba aceitando pela pressão dos jurados e do público. A performance do participante é aceita, mas para outras finalidades, mesmo que a performance seja uma subversão ao programa e a todo o modo de vida enclausurado. É como se a regra fosse: “não há saída da ilha”.

No jargão dos filósofos da linguagem: não há saída para fora da linguagem, no máximo o que se pode fazer é uma metaliguagem, que também é uma linguagem. No vocabulário de Dostoiveski ou Peter Sloterdijk: não há como mostrar a língua, nem pelas costas, ao Palácio de Cristal,  ou de lhe fazer figa com a mão no bolso da calça. Todavia, que não se confunda tal situação dessa ficção com a “gaiola de ferro” de Weber, ao falar do capitalismo, ou com as mil ficções que invocam Big Brothers espiões etc. O filme diz respeito a uma sociedade realmente satisfeita, sem espiões, que vibra diante dos medíocres (ou não) que se apresentam no palco e podem escapar da bicicleta, justamente por exibirem a degradação de um talento. O culto de um mundo só virtual somado ao “ibope” e ao “gosto popular” geram a “vida inautêntica”. Lembra bem aquela situação degradante de um professor que agradeceu o jornal Estadão por ter conseguido o que era o cume da sua carreira: escrever no próprio Estadão! (veja artigo) Satisfação máxima, alegre! O universo sem revolução do lema revolucionário pervertido: de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo seu trabalho“.

O outro filme, com Al Pacino, mostra o seu personagem como um cantor de rock meio que aposentado. Não é propriamente um total decadente. Mas, já é da velha guarda. Uma lenda. Mas uma lenda de um rock medíocre, que se repete há anos, que nunca foi capaz de criar nada, uma vez que o grande público não quer algo bom, mas algo que engole porque as TVs criam o pacote pronto feito para a média – a mediocridade. A mediocridade vende mediocridade porque antes de tudo, na sua mediocridade, avalia o público como medíocre – e acerta. Todavia, um belo dia o cantor descobre uma carta que lhe fora endereçada, na juventude, por John Lennon, dizendo para ele jamais ceder, continuar a fazendo o que fazia (uma primeira letra, enviada ao Beatle), pois era algo bom, muito bom. O roqueiro então, já velho, tenta mudar, marca um show numa pequena casa de shows, e busca retomar o jovem talentoso perdido. Mas, em meio à apresentação, o povo se desinteressa, é pede que ele cante seu eterno sucesso, uma música verdadeiramente “pop”, no pior sentido dessa expressão. Ele cede. Não havia o que fazer. Diante das palmas, gritos, urros de quem quer lhe empurrar para o sucesso burro e garantido, não há como não ir para o sucesso burro e garantido. O público compra sua alma e o empurra para salvar-se da bicicleta ergométrica. E você obedece ao público, à estupidez, e vende a alma. Realmente porque nunca jamais acreditou que possuía uma alma.

Poucas pessoas, diante do sucesso abestalhado oferecido a cada esquina. Mas claro que há aquele que diz um “não”, e busca o êxito próprio de uma alma com talento, ultrapassando a vida energúmena, negando ao público o gostinho de vê-lo se transformar num “macaco de auditório” ou num “membro do partido”. Conheço gente de alma que acreditou ter uma e, por isso mesmo, a preservou. Mas a covardia é sempre maior, adere-se fácil as bater cascos do jornalismo de partido travestido de ensaísmo ou do conservadorismo barato vestido de “vanguardismo” ou então ao simples balbuciar das palestras sobre … felicidade!

Platão tinha pavor da cópia. Por razões diferentes, mas talvez nem tanto, Benjamin também torcia o nariz para a cópia. Mas não é da cópia que os filósofos deveriam ter medo, mas sim daquilo que Nietzsche os avisou que realmente mete pavor: o macaco. Nada pior para o homem que encontrar a cópia bufa, sua paródia. A paródia ambulante pode lhe dizer a verdade: você é a sua sua caricatura, pois há muito perdeu sua alma. “O que adianta ao homem ganhar o mundo se perde sua alma?” diz a Bíblia, e com razão. Não gosto da “crítica ao capitalismo” de Ranciere, que me parece rasteira, mas há um artigo em que ele acerta, ao mostrar como que a arte na modernidade, pondo-se como protesto, é engolida por ser uma imagem a mais num lugar de imagens vendáveis. Há uma lógica perversa na “mediocridade do aplauso do público” que tritura até os aparentemente mais fortes. America’s got talent, ok, but you must do what I say what is your talent! Your talent is you: a shit. A vida assim é um dos casos em que se pode acenar para o que Heidegger qualificou, em um conceito maior, de “vida inautêntica”.

Quando um aluno de filosofia me apresenta o modelo daquilo que quer ser, e é visivelmente “shit”, às vezes penso em avisá-lo. Outras vezes, quando estou cansado, dou de ombros. Não se ensina uma mulher a andar de salto alto, fundamental para ser mulher, se ela já anda como um tiranossauro.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo: 10/12/2016

 

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14 Responses “O jovem que quer ser uma merda, o será! (Black Mirror)”

  1. LMC
    13/12/2016 at 10:34

    Grande coisa o Karnal escrever no
    Estadão.Tudo que ele escreve no
    jornal não repercute em lugar nenhum.

  2. LMC
    12/12/2016 at 11:14

    E aqueles padres que dizem que “os Judeus
    mataram Jesus Cristo” e que Hitler foi de
    esquerda porque seu partido era socialista?
    Tá cheio deles pelo mundo e aqui no
    Brasil,também.

  3. denis
    11/12/2016 at 18:09

    Pelo que entendi do texto, as pessoas estão perdendo sua autenticidade, estão se entregando para a mídia , ser diferente e inovador acabou se tornando estranho para a grande maioria das pessoas.

    • 11/12/2016 at 18:11

      “Se entregando para mídia” todo mundo, desde que o mundo e´mundo, se entrega. Essa não é a questão.

    • denis
      12/12/2016 at 18:08

      entao eles pensam que ser merda é bom.rsrs

  4. Frank K Hosaka
    11/12/2016 at 14:16

    Não entendi nada, nunca estudei filosofia. Até onde eu sei, todo homem come e caga, come e caga e come e caga. A filosofia pode mudar isso? Eu acredito que não. Eu só não sei se a filosofia serve para comer ou se é mais uma parte do que o homem deixa na terra para deixar o ar mais fedido.

    • 11/12/2016 at 14:32

      Frank seu problema não é o de não ter estudado filosofia, mas o de não ter estudado.

    • Orquidéia
      12/12/2016 at 08:13

      O sr.por aqui, sr.Hosaka? [hehehehehe!…

      *Não liga,prof.Ghi, o sr.Hosaka é um histriônico.

  5. Sergio Fonseca
    11/12/2016 at 13:54

    Há uma tensão visível, em seu pensamento, entre a “animação”” e a “gaiola de ferro”. Na verdade, a “gaiola de ferro” é a rotinização da vida que brotou do desencantamento.
    Uma tensão entre religião e estética!!!

    • 11/12/2016 at 14:02

      Não há possibilidade de interpretar o Palácio de Cristal como Gaiola de Ferro, o problema é que o pensamento da esquerda encalacrada só sabe da segunda metáfora, pois combina mais com o marxoidismo e, claro, com a Internacional Miserabilista.

  6. Pedro Possebon
    11/12/2016 at 12:21

    Quando o FHC virou presidente e vários intelectuais foram para o governo, o Giannotti fez um comentário bem jocoso:
    “Não sabia que vocês detestavam tanto o que faziam”.

  7. João Pedro Dorigan
    11/12/2016 at 09:48

    Essa parece ser a melhor explicação para fundamentar porque os homens passaram a gostar tanto dos animais de estimação: ambos não tem alma.

    • 11/12/2016 at 13:44

      Dorigan, errou feio. Só os desalmados não têm alma.

    • Orquidéia
      12/12/2016 at 08:10

      E quem disse que os animais não tem alma?
      Se eles tem sentimentos mais profundos que os nossos…

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