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28/04/2017

O indefeso


Imagine-se em um campo aberto, em uma praça nem um pouco hospitaleira, cercado de pessoas agressivas. Elas bradam contra você xingamentos de toda ordem. As acusações batem nos seus tímpanos. A violência verbal aponta para uma violência física. Todas elas começam a pegar pedras! Você não tem nada em mãos. Seu coração dispara, e você já começa a ficar indeciso entre pedir a Deus para ficar só ferido, o que já parece impossível, e morrer logo na primeira pedrada. Sim, você pensa estar sonhando, não sabe direito. Só o que sabe é que está em um campo de apedrejamento. Você (agora) é mulher, e está sim em uma situação do mundo antigo, talvez moderno, de apedrejamento. As acusações são várias, e você não se lembra direito se valem ou não. O que sabe é que está só e não vai escapar das dores das pedradas, vai morrer da forma mais dolorida possível. O sonho não acaba. Não era um sonho? E eis que a primeira pedra está para ser lançada. Seus braços não sabem o que fazer, se cobrem o rosto ou outras partes e você se enrola no chão. O mundo vai esfolar você viva! E agora?

Essa é a situação daquela mulher acusada de … prostituição! Sim, aquela que Jesus, interrompendo a barbárie que iria se instaurar, salvou do apedrejamento, da morte cruel. Sua condição era a do desamparo total, a situação da autêntica indefesa. Estar indefeso é estar à mercê. Qualquer tipologia de Nietzsche não cobre o indefeso. A tipologia de Nietzsche de fracos e fortes, doentes e sadios, escravos e senhores, judeus e romanos, plebeus e nobres nunca apanhou de modo específico o indefeso. Quando Nietzsche nos fala do fraco, do inseto, ele lembra daquele que muda de cor segundo uma prudência covarde. Quando Nietzsche fala do fraco ele não está apontando para o perdedor, mas para o vencedor final. A história de Nietzsche caminha segundo a ampliação do niilismo. Seu último homem, soberano, é o fraco. Ele, o fraco, corrompe a todos, fazendo da má consciência a coisa mais bem distribuída entre os homens. Confundir o fraco de Nietzsche com o indefeso é um erro crasso. Mas fazemos isso!

Muitas vezes lemos Nietzsche e achamos que a adúltera a ser apedrejada e qualquer cristãozinho é exemplo do tipo “fraco”, para Nietzsche. O cristão padronizado de Nietzsche e da literatura, foi de fato criado para ser mais um tipo. Mas mulher adúltera não era cristã, não nesse sentido, era indefesa. Jesus não a salvou por ser cristã, mas por ser indefesa. Jesus não veio como o cristão de Nietzsche, de soslaio, com argumentos sorrateiros de piedade, convencer a turba para que não a apedrejassem. Ele fez uma acusação forte para só fortes ouvirem: “quem não tem faltas que atire a primeira pedra”. Trouxe todos à condição que se espera do homem civilizado, que ele possa ter uma avaliação de si. Claro, pode-se dizer, com Nietzsche: mas qualquer nível de consciência é já um elemento forjado na base da fraqueza. Sim, correto, mas no caso, Jesus não pediu piedade e, sim, capacidade, magnanimidade. A mulher ali, a adúltera, estava indefesa. O soldado nobre e valente, honrado, bate o indefeso?

Essa diferença entre o fraco e o indefeso se perdeu na leitura de Nietzsche. E muitos utilizaram essa lacuna para colocar sua filosofia ao lado do que jamais defendeu, ou seja, alguma legitimidade no massacre do indefeso. O indefeso pode ser qualquer um, é uma condição momentânea. Perceber que se é vil ao atacar o indefeso ou o completo desamparado, é algo que seja lá qual for nossa índole, não pode deixar de ocorrer. Nietzsche foi certamente o pensador menos cristão do Ocidente, mas isso se o cristianismo defende os fracos como os tais fracos da tipologia nietzschiana. Todavia, Jesus nunca defendeu os fracos por serem fracos, estando ou não estes dentro da tipologia de Nietzsche. Jesus defendeu, sim, os indefesos. Notar isso é ampliar nossa capacidade de ler Nietzsche, mas é também e principalmente arrumar nossa casa para darmos um passo ético-moral fundamental, levando a sério Jesus.

Quando vemos um cão solitário na rua vemos um indefeso. Talvez mais que a adúltera levada a Jesus. Esta sabia o que estava acontecendo. De certo modo, poderia ter previsto que iria cair naquela situação. O cão não. Ele é sempre a vítima da emboscada. Ele conta com os humanos, e não imagina, não consegue imaginar que um humano, para o qual ele tende inexoravelmente, é um crápula que o colocará em desamparo. Estará em desamparo porque é indefeso. A noção de indefeso, nesse caso, é fundamental. Somos dignos de alguma ética legítima quando temos essa noção, e a clareza de que, no Ocidente, não se pode condenar ninguém sem o tal direito de defesa. Deixar alguém indefeso é um ato contra qualquer moral ocidental. Isso é tão verdade que a execução, a tortura, os maus tratos de um soldado prisioneiro, ou seja, rendido e, portanto, indefeso, é considerado crime – crime de guerra. A guerra é a barbárie e, no entanto, há algo pior, o crime de guerra. O que é pior que a matança da guerra? Nós concordamos, no Ocidente: o crime de guerra, ou seja, tornar o indefeso um alvo.

Muitos que aderem a Jesus verdadeiramente, sem retórica barata, são contra a legalização do aborto não só pela concepção de vida como alguma coisa sagrada, com data e hora para aparecer, mas simplesmente pela questão do que é o indefeso. Um feto é um indefeso. O animal é indefeso. Jesus nos lembra sempre essa ideia do indefeso. Quando passamos a pensar no humilde, no fraco, no oprimido, no pobre etc. não estamos propriamente pensando no essencial das atitudes que as narrativas bíblicas nos conta. Mas quando falamos no indefeso, aí sim as coisas ganham uma conotação diferente. O indefeso é a mulher no chão, o cão na rua, o feto na barriga, o prisioneiro torturado, a vaca na vaquejada. Começar a atentar para a analítica do indefeso é um passo ético criativo. Mas é preciso coragem, nem todo homem tem coragem.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 29/11/2016

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7 Responses “O indefeso”

  1. Ícaro
    02/12/2016 at 09:24

    A ideia de indefeso parece que tem tentáculos infinitos. Um grande conceito para o homem, para o bem de todas as formas de vida, talvez até mais congruente com as situação dos animais, que como foi dito no texto são os maiores indefesos.

  2. Eduardo
    30/11/2016 at 10:26

    Paulo, seu texto me lembrou uma música de uma banda dos Estados Unidos chamada Tourniquet que é cristã e traz em alguns de seus trabalhos a temática do cuidado para com os os animais. O fundador da banda mantém ativo uma espécie de santuário que abriga animais.
    O que acho interessante é que em religiões orientais é comum ver a espiritualidade vinculada com a defesa dos indefesos natureza ou a alimentação vegetariana, mas de algum modo os cristãos deixaram de notar que também possuem uma tradição desse tipo de abordagem e que a mensagem de Jesus abre espaço para esse tipo de cuidado.
    Segue uma das letras da banda citada:

    Ark Of Suffering

    You think it’s alright to destroy god’s creation
    They don’t have a voice so who cares how we’re treating themhere
    If you read his word you should know that he blessed them
    I know your defense is to say: God said dominate them”

    Do you think dominate means to kill just for sport?
    Wear the fur from their backs
    Train them for circus acts
    Take our pets to be gassed once their “cute” age has passed

    Don’t you see in their eyes how they trust us?
    But man in his sin turns that trust into horrible pain
    When god says to man, “give account of your life’s work”
    We must be prepared to reply, “your creation I loved”

    Locked behind steel cage
    Forced to take drugs we’ve made
    Cut them up just to show
    What we already know

    Before they die
    Who will hear them cry?

  3. Daniel
    29/11/2016 at 23:58

    Acho interessante a ligação de Nietzsche com o indefeso. No final do livro III de A Gaia Ciência, há aforismos em forma de pergunta e resposta; os três últimos falam sobre a vergonha. No primeiro, Nietzsche fala que aquele que sempre quer envergonhar é quem deve ser chamado de “ruim”. No segundo, poupar alguém da vergonha é aquilo que é “mais humano” em nós. Por fim, diz assim: “Qual o emblema da liberdade alcançada? – Não mais envergonhar-se de si mesmo”. Sabemos que em Genealogia da Moral, uma das características do nobre é apresentar-se, afirmar-se por não ter vergonha de si. Nobreza ligada a vergonha é interessante, porque Nietzsche está pensando na vergonha como constitutiva da nobreza e não a culpa, constitutiva do fraco. Nesse sentido, para Nietzsche é vulgar humilhar alguém; matar alguém indefeso seria humilhar-se e envergonhar-se pelo resto da vida, porque a vergonha está intimamente ligada a afirmação ou não de si e, nisso o nobre deve ser educado. Sentir vergonha de maltratar indefesos hoje em dia é coisa de gente corajosa e nobre mesmo.

    • denis
      30/11/2016 at 18:16

      Concordo com o que vc disse, mas tem um porém hj em dia para não ser diferente da maioria ou para se sentir no grupo, as pessoas tem medo de ser desprezado pelo grupo, é fazer o que exatamente sua consciência pede, é uma luta constante no seu interior.

  4. denis
    29/11/2016 at 18:38

    As pessoas hj em dia estão salvando sua própria pele, São poucos que se coloca no lugar dos outros, e se colocar fica no seu cantinho, é não é fácil….

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo