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16/08/2017

O império dos sentidos ou por que comemos em shoppings


Por que precisamos comer em Shoppings? Como que esse fenômeno se tornou uma imposição às vezes imperceptível, contra a qual não conseguimos nem pensar em nos rebelar?

Os shoppings nasceram em meados dos anos cinquenta nos Estados Unidos. Em um prazo de trinta anos, se tornaram uma febre na maioria das cidades do mundo todo. Eles são uma quase imitação do Palácio de Cristal, o local aclimatado, preparado depois para música e teatro, para a Grande Exposição de 1851 em Londres. Essa exposição foi a primeira de uma série, em diversas cidades. Mostrou-se nesse evento e local a produção de mercadorias do mundo todo. Milhares de pessoas visitaram a Exposição. O prédio era inteiro de ferro e vidro, exatamente para que também de fora fosse possível ver as pessoas se locomovendo no interior. Assim, houve multidões de fora e de dentro. As de dentro, embaladas pelas mercadorias, as de fora, embaladas pelo vai e vem dos de dentro, notando as suas expressões e reações diante das mercadorias. Muitos armaram suas toalhas de pic nic do lado exterior e participaram do status do que o europeu começava a se transformar,  o espectador.  Foi um sucesso. Finalmente o capitalismo apontava para o que ele é hoje, o éter da sociedade do espetáculo.

Debord criou a expressão “sociedade do espetáculo”. Estava convencido de que o tal “sujeito automático”, nominado por Marx, havia adquirido o comando das coisas. Marx deu esse nome ao valor de troca. As mercadorias no mercado não possuem valor de uso, mas valor de troca. O que se troca no mercado é o trabalho humano abstrato embutido na mercadoria. Isso permite a equivalência e a entrada do dinheiro. Desse modo, no mercado, a mercadoria não tem nenhuma relação com a utilidade, com o uso subjetivo. Ora, o que não tem utilidade, valor de uso, o que não nos apetece subjetivamente, é o que é feito para que possamos contemplar. Algo como a arte, no melhor dos casos, algo como a imagem, no caso mais pobre. Foi assim que o mercado, ao abarcar todas as nossas relações, ao mercadorizar tudo, universalizou o valor de troca como o modo pelo qual devemos valorar e, então, nos comportar: somos espectadores. Espectadores das mercadorias e em seguida das proezas do dinheiro. Sendo espectadores, estamos envoltos em imagens e vivemos nelas e por elas. Nesse sentido, nossa sociedade é a sociedade do espetáculo. Essa foi a lição de Debord que nos vale ainda hoje, ou mais hoje que ontem, uma vez que atualmente temos a TV e a agora a Internet para profusão de imagens necessárias para todos nós que, enfim, só sabemos curtir imagens.

Sendo assim, temos de nos deslocar para o mall shopping. Vamos para o lugar no qual ocorre a imagem daquilo que está lá para ser imagem, as mercadorias e tudo a elas relacionado.  Vamos ao melhor lugar para ser o que somos, espectadores. É o show. Afinal, show room. Como adentramos o lugar? Como espectadores, claro, e, portanto, como os que estão com o espírito encolhido em função das sensações. Somos os animais dos sentidos bem aguçados. Vamos para ver. Vamos para o mundo das sensações ou o “império dos sentidos”. Assim, nos shoppings somos que tragados pelo nosso corpo, no sossego ou abafamento do espírito. Desse modo, para trazermos algo de substancial dos Shoppings, temos de atuar corporalmente. Somos ali, mais que em qualquer outro lugar, corpo. Ora, para o corpo levar algo embora de lá, e que o preencha, que lhe diga que ele realmente esteve em algum lugar real, é necessário que essa realidade lhe atinja na sua condição de corpo. Ver ele viu, mas é necessário que ele in-corpore, ou seja, que ele coma. Ele precisa comer o shopping. Esses lugares são, antes de tudo, seu núcleo: a praça de alimentação. A apoteose do império dos sentidos. Nessa hora somos olho e boca, portanto, corpo, sensação. Voltamos a ser vivos. Não só as mercadorias são vivas, mas nós, agora, imiscuídos nelas, recuperamos algo do ser vivo. Mastigamos. Vemos e mastigamos. Há um delírio sensual no shopping. Ir às compras que não são compras é algo que acalma e quebra a ansiedade de muitos, pois é como que colocar satisfação ao que o corpo pede. É como a satisfação sexual.

Educados assim, pela sociedade do espetáculo que é também a sociedade dos glutões e dos sensualismo, então todas as outras experiências que vierem a se assemelhar ao espetáculo – do cinema à galeria de arte – deverão desenvolver junto de si a gourmetização.  Ninguém vai a um lugar e sabe que foi a um lugar real se ali não comer alguma coisa. E o próprio comer, mais que o comprar qualquer objeto, é postado na Internet, nas redes sociais, integrando mais gente no espetáculo e na sua proliferação.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

 

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2 Responses “O império dos sentidos ou por que comemos em shoppings”

  1. Luh
    07/01/2016 at 10:21

    Bem assim mesmo.No Shopping, quando eu fui pela primeira vez, eu nem sabia para que lado olhar, é tudo muito diferente, cheia de coisas, aromas diferentes…

  2. 28/12/2015 at 11:48

    esse é o primeiro [e único] texto onde eu vejo o shopping como tema.

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