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19/08/2017

O imaturo que não consegue ser meu leitor


Venho notando que não consigo falar com o imaturo. Ele entra aqui, não consegue conviver com o ambiente filosófico de crítica cultural, fica irritado porque é contrariado, xinga e começa a espernear. 

O meu leitor, o leitor maduro, faz exatamente o oposto. Ele entra aqui para ser contrariado. Ele quer saber mais, quer saber diferente, quer ser provocado. Ganha um presente que não ganha com outros autores: uma pauta para pensar. Só pensamos contrariados. Quando recebemos confirmações do que já aceitamos, não pensamos.

O leitor imaturo berra, fala contra a minha formação, quer que eu lhe dê atenção. Mas ele não consegue ser meu leitor e, então, não ganha a minha atenção. Não lê direito o blog e muito menos procura meus livros, embora, não raro, saiba que estou há 40 anos como autor e trinta como autor de livros, como filósofo, tanto acadêmico quanto ensaísta em meios de comunicação. O leitor imaturo está em busca de paz consigo mesmo. Quer um guru, mas um guru que fale o que ele já acredita.

O meu leitor típico adora a minha formação. Fica encucado em saber que minha formação deveria me levar para um lado, mas ela leva para outro. Isso o intriga e ele gosta dessas surpresas. O meu leitor adora surpresas. A monotonia, a vida chata, a repetição não lhe agradam. Ele não quer que eu fale a favor de coisas que ele já acredita. Ele quer um filósofo, não um guru.

O leitor imaturo fica se apoiando em estudantes rebeldinhos sem causa, professores militantes e gente que ele quer chamar de sereno. Essa serenidade é boa se ela o estabiliza no sentido de torná-lo um cara aparentemente tranquilo. A euforia do espírito provocada pelo filósofo o mata. Ele busca a media, a mediocridade.

Respondo ao meu leitor e ao que tenta ser meu leitor e não consegue, embora, é claro, este último não apresente algo que valha muito a pena, pois fracassará na vida, se é que já não é um fracassado. Acerta às vezes, mas com limites claros. Uma pessoa que quer ser um robotizado sempre acaba conseguindo e fracassa como humano.

Não quero que aquele que não é meu leitor, que não consegue, se mate. Mas às vezes dou-lhe esse conselho “se mate”, só para vê-lo estrebuchar e voltar gritando em sua adolescência eterna.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

29 Responses “O imaturo que não consegue ser meu leitor”

  1. 27/04/2016 at 03:07

    não vou nem te ler , te amo, vc é o cara mano..

  2. Beto
    26/04/2016 at 18:12

    Minha formação de filosofia começou com o professor Olavo de Carvalho, mas depois descobri o mestre Ghiraldeli e agora gosto muito mais de ler seus textos do que os vídeos do Olavo.

  3. Pedro
    26/04/2016 at 16:59

    Paulinho, como você adora falar sobre educação, diga. Como a escolaridade pode ser responsável por um “não-leitor”?

    • 26/04/2016 at 17:34

      É simples: uma ameba pode ser educada. Todo mundo é educável. Agora, o problema é saber o que se quer com o resultado da educação. A produção de não-leitores é o objetivo de nossa educação. Pessoas que correm os olhos sobre letras e comentam o que já tinham na cabeça, sem que as letras mudem algo. O que já tinham na cabeça não veio de leituras, mas de práticas de ajoelha. Althusser dizia que a prática de ajoelhar faz o cristão, não a doutrina religiosa.

  4. Daniel
    26/04/2016 at 15:34

    Em outro texto você disse que o filósofo, para ser autêntico, precisa perder o chão, precisa fazer com que o seu chão suma. O leitor pode fazer isso também quando é contrariado não é?

    • 26/04/2016 at 16:45

      O próprio filósofo deve perder seu chão. Espero a crítica inteligente, e não o mero xingamento ou adjetivação, do meu leitor, ou seja, o leitor inteligente.

  5. Cláudia
    26/04/2016 at 15:21

    MARCHISTA!
    SÓ DIGO ISSO.

    • 26/04/2016 at 15:23

      Cláudia, não sou “marchista”. Tenta terminar o supletivo.

    • Maximiliano Paim
      26/04/2016 at 16:20

      Pulta, digo eu.

  6. Maximiliano Paim
    26/04/2016 at 15:00

    Desde 2013 que tu me incomoda com o veganismo, por exemplo. Há um mês sou vegetariano.

    • 26/04/2016 at 15:05

      Como você vê, os filósofos mudam o mundo, mesmo sem serem marxistas.

    • Maximiliano Paim
      26/04/2016 at 15:58

      A alguns meses lendo os clássicos, esta evidência está em cada página.

    • Orquideia
      26/04/2016 at 23:12

      Eu não sabia que o sr.era vegano,prof.Ghi!
      Sou vegetariana há doze anos.
      Vegetarianos e veganos são “agitados”? [ hehe! ]

      Estou brincando.
      É que sou meio nervosinha.

    • Orquideia
      26/04/2016 at 23:19

      Réplica para o seu texto,

      não sei que tipo de leitora eu sou,mas entro aqui para aprender_claro.
      Na verdade,o sr.não é nada irritante, irritantes são os fanáticos atualmente espalhados pela web.
      O sr.tem mais “estrutura” do que muitos cronistas.

  7. NOBEL
    26/04/2016 at 13:40

    Talvez seja por isso que eu ainda insisto em ler o que você escreve sobre o processo de impeachment.

  8. João Paulo
    26/04/2016 at 13:03

    Paulo,

    Mande os seus não leitores procurarem o Pondé e/ou o Safatle. Ou, ainda pior, mande-os procurar o Olavão. Ou se matar, se olhar bem, pode ser melhor solução.
    Abraço

    • 26/04/2016 at 14:16

      João Paulo, eu faço isso. Mas alguns não se matam. Voltam.

  9. Diego
    26/04/2016 at 12:17

    A triste necessidade da auto afirmação que perdura nas redes sociais. Esses seus 4 ou 3 últimos textos sobre feminismo deixou isso bem claro. A ideologia do militante fala mais alto do que a crítica, sempre foi assim Paulo ou se tornou tendência no Brasil?

    • 26/04/2016 at 14:18

      Diego, a burrice do militante sempre foi assim, mas esses nossos tempos estamos assistindo um conservadorismo da juventude, em todos os sentidos, que pega também a esquerda, e um ofendidismo sepulcral. A juventude está doloridinha. Ela cospe e quer ter razão.

  10. Erik Kierski
    26/04/2016 at 11:51

    Já tenho percebido isso há tempos, e é por isso que sempre leio seus textos. Antigamente não me agradava ler o que não confirmasse o que já pensava, mas aos poucos fui compreendendo que essa atitude é necessária para exercitar o pensamento e nos livrar dos pré-conceitos.

    Minha namorada está escrevendo uma monografia sobre os fundamentos filosóficos do feminismo, e ontem, após discussão sobre seus textos, ela disse: “Uma coisa eu tenho que concordar com você: o Ghiraldelli é fdp! Tira a gente da zona de conforto!” E hoje ela falou “Eu não quero ser uma feminista burra… vou ler mais Paulo Ghiraldelli.”

    Obrigado por nos fazer pensar “fora da caixinha”!

    • 26/04/2016 at 14:20

      Erik sempre quando escrevo, fico pensando nisso, na desgraça que é aquele que quer um guru.

  11. josé carlos castro
    26/04/2016 at 10:31

    “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo.” – MARX

    deixa de ser pernóstico, o que tu escreve e falas não tem nada de novo, de mudança de paradigma, é tudo repetição, não muda nada no mundo.

    • 26/04/2016 at 14:21

      José Carlos, a sua citação é de quem não entendeu nadinha mesmo. Dá até dó da sua burrice. Dó mesmo, juro.

  12. G. De Jesus
    26/04/2016 at 10:11

    “Só pensamos contrariados. Quando recebemos confirmações do que já aceitamos, não pensamos.” Paulo, na boa, eu discordo de quase tudo que tu fala, mas volto todo dia pra ler, é um exercício quase que de empatia, ou melhor, alteridade. Só não se esqueça que você não esgotou o devir, seus 40, 30, ou sei lá quantos anos não lhe incubem de uma imutabilidade, ou como eu gosto de me referir à você e a esse seu gigantesco ego: O Oráculo Ghiraldelli. Para de bloquear meus comentários, vamos nos ofender, poxa!

    • 26/04/2016 at 14:23

      Jesus você não é contrariado por mim, nem afirmado. Você é o cara que não tem formação para entender. É pior. Você é o cara que fica aquém do que eu chamo de não-leitor meu. Para você chegar ao nível do contrariado, precisa entender o que eu falo. Não dá ainda para você.

  13. Tony Bocão
    26/04/2016 at 09:34

    Agora eu sei porque sempre volto aqui “Só pensamos contrariados. Quando recebemos confirmações do que já aceitamos, não pensamos.” Obrigado pelas agradáveis ligações peptídicas neurais.

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