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26/09/2017

O homem é homem se tem sua raposa


Meu avô foi um rábula. Um estudioso do Direito que, tendo como escola um bom escritório de advocacia, ganhou condições para prestar o exame da OAB e se tornar advogado. Com isso, chegou a ser advogado do Palácio dos Bandeirantes, na gestão de Adhemar de Barros. Foi um sábio, sem dúvida. Seu nome era Carlos Camargo Abib, e começou como “solicitador”.

Um solicitador era alguém que solicitava atenção do juiz para que este ouvisse um cidadão comum. Era uma espécie de advogado prático, alguém com uma espécie de “notório saber”, figura conhecida desde o Império e que adentrou a República como uma necessidade de muitas comarcas. Nem todos tinham alfabetização necessária para poder se dirigir aos tribunais. Meu avô tinha só até a oitava série, equivalente ao ginásio, mas havia feito esses estudos em seminário católico e, portanto, sabia o que hoje poucos universitários sabem. Tinham um bom latim, um grego razoável, um inglês e um francês perfeitos. Escrevia bem, falava bem, e fundamentalmente sabia pedir e ouvir. Seu serviço era solicitar, mas também ser solicitado. Sua essência era a de quem é um solícito solicitante. Um cuidador.

Meu avô era, sem o saber, aquilo que Heidegger definiu como sendo da essência própria do Dasein, ou, numa linguagem menos técnica, o homem. Heidegger contrariou Descartes. Para este, há o “penso, logo sou”, mas para aquele valia o “cuido, logo sou”. O que está à mão, o que está ao lado, e quem está junto – tudo isso é o “mundo”, e o homem antes de qualquer coisa é o que cuida nessas três direções. O cuidado heideggeriano é exatamente isso, aquilo que pedras, animais e plantas não fazem. A pedra e as plantas são “sem mundo”, o animal é “pobre de mundo” e o homem, diferentemente, é um “construtor de mundos”. Ter mundo e estar lançado no mundo é o que põe o homem como homem, ou seja, como o que cuida. O ser do ser-aí é o cuidado. Heidegger diz  que “o cuidado é sempre preocupação e solicitude, mesmo se apenas de modo privativo”.

Estar no mundo, lançado ao mundo, é sempre estar em relacionamento e, portanto, cuidar. O cuidado aí se põe não em sentido psíquico ou social, mas ontológico. Heidegger não exitou em eleger O Pequeno Príncipe como o melhor livro existencialista que conheceu. Por várias coisas, mas principalmente, creio eu, pelo aparecimento inequívoco da raposa, que põe para o Pequeno Príncipe a tarefa do ser do ser-aí (Dasein): quem seduz tem a obrigação de cuidar. Em outras palavras, manter-se solícito, solicitador e solicitante. Ou então: Cuidador. O homem constrói mundos e ao fazer isso torna-se imediatamente responsável à medida que ele próprio é o mundo: é guardador do ser, pastor. Obriga-se ao cuidado porque é da condição humana tal coisa. Conhecer, querer, pensar  etc., tudo isso é secundário. Antes vem o cuidar. O homem descuidado e o homem que não cuida, como Heidegger entende, não são livres. É o Sorge (cuidado) que confere sentido à existência humana, é o que faz a vida humana significar. Ser no mundo de uma forma qualquer real, na acepção heideggeriana, é cuidar – ser besorgt, ou seja, “dotado de cuidado/cuidadoso”. De certo modo, isso se expressava na própria psicologia de meu avô com tudo à sua volta, foi um grande cuidador. Meu avô ouviu cedo a advertência da raposa para a vida autêntica. Casou a profissão com o que era, e com o que o homem é. Nunca vi tamanha harmonia entre ser e existência.

A raposa é o daimon do existencialista, talvez de todo e qualquer filósofo com intenção de ser homem. Uma vida sem raposa não vale a pena ser vivida, diria Sócrates se tivesse encontrado Heidegger, ou meu avô.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 11/01/2017

Casa do Cuidador:

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2 Responses “O homem é homem se tem sua raposa”

  1. Orquidéia
    17/01/2017 at 07:56

    Que lindo.

  2. Robson de Moura
    12/01/2017 at 00:46

    Me ensinou e encantou mais

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