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26/09/2017

O homem com medo de utopia


Conheço pessoas que possuem pavor de utopias. Eles temem as utopias não pelas utopias, mas porque utopias atraem utópicos e, não raro, alguns utópicos querem fazer o que não se pode fazer: forjar a realidade como cópia da utopia. Ora, utopias realizadas podem muito bem ser o inferno na terra. As utopias embutidas no nazismo e no comunismo nos conduziram do mal ao pior. Utopias interiores à social democracia se saíram melhores, mas não deixam de dar grandes dores de cabeça. Assim, encontramos o conservador liberal que acaba por dizer: “não me venha com utopias!” Esse conservador liberal é o tipo de pessoa que diz amar a liberdade. Conta que os “bonzinhos”, os que querem realizar utopias, transformam a justiça pedida em injustiça e a liberdade em opressão. Ele está certo?

O conservador que diz que ama a liberdade parece trair a si mesmo. Diz não gostar de utopias, mas ele mesmo carrega no braço alguma coisa semelhante. Nada há de mais utópico que a situação na qual ele põe fé. Ele fala de uma sociedade articulada ao chamado “estado mínimo”. A impressão que tenho é que deixa de lado o melhor filósofo libertário conservador de todos os tempos, Robert Nozick.

Nozick escreveu muitos livros, mas eu best seller  foi Anarquia, estado e utopia, dos anos setenta. Ele não colocou “anarquia” e “utopia” no título à toa. Ele realmente imaginava a situação desejada algo que poderia lembrar a anarquia, mas que, ainda assim, mantinha um tipo de estado – o estado mínimo. Ora, para ele, isso era uma utopia. Ele insistiu: é um quadro que está na cabeça de “visionários e sonhadores”. Talvez ele estivesse dizendo, com isso, algo como “não façam isso em casa”. Mas ele não disse explicitamente isso. Além do mais, muitos conservadores amantes da liberdade individual não o leram, e pegaram a ideia de “estado mínimo” de economistas, e estes, sabemos bem, não titubeiam em descrever seus modelos como científicos e perfeitamente realizáveis.

Assim, um conservador que diz que ama a liberdade e teme utopias, deveria ficar atento para o fato de que há utopias que podem querer se realizar e que estão no interior dos projetos que defende. Deveria pensar que há os que – como Reagan e Thatcher – em um determinado momento funcionaram como Lênin: quiseram fazer na prática aquilo que seria atrativo para sempre se ficasse só no papel. Hoje em dia o conservador liberal não fala mais desses governantes. Mas não fala porque esses governantes, ao tentarem colocar na prática a utopia do “estado mínimo”, não fizeram tão diferente do que Lênin fez e deixou outros – Stalin à frente – continuar fazendo, ou seja, forjando a marteladas a realidade de modo a fazer brotar a estátua da utopia preferida. E isso não foi nada alvissareiro.

O liberal conservador diz ter medo de utópicos, mas, se lembramos disso tudo, temos de dizer que esse temor não é autêntico. Ele é antes de tudo conservador, atavicamente conservador, e bem menos liberal do que diz, por isso mesmo, não possui restrições aos economistas ligados ao projeto Reagan-Thatcher que fez água tanto quanto o projeto do socialismo de tipo soviético. A diferença é que o projeto de tipo soviético se fez em função de construir um império, enquanto que o projeto Reagan-Thatcher foi criado já em cima de um império. Assim, Reagan e Thatcher mataram menos que Stalin. Este segundo teve de fazer o serviço que as potências capitalistas já haviam feito. O capitalismo de estado fez em poucos anos o martírio que o capitalismo levou séculos para deixar como marca.

Tentando ignorar tudo isso, o conservador liberal se acredita como vanguardeiro, se entende como rebelde libertário e, aqui no Brasil, conta para a juventude antes uma meia verdade que uma história digna de ser contada. O que conta é que se a juventude quiser ser juventude e rebelde dever ser como ele. Seria paladino de um mundo utópico, mas que não se diria utópico. Ele não está correto fazendo isso. Ele é sim construtor de sociedades utópicas que pregam a liberdade. Mas ao falar em liberdade individual se esquece que, no fundo, está também falando de liberdade de mercado de um modo pouco promissor à liberdade individual. Como temeroso em relação às utopias, deveria ser temeroso também aos seus gurus e em relação às suas utopias. Seus gurus não são tão menos arredios ao projeto prático do que Lênin foi.

Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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10 Responses “O homem com medo de utopia”

  1. renato
    21/08/2013 at 14:28

    Muito bom o texto.
    Uma coisa interessante é que os libertários jovens de hoje tentam deixar bem marcado o fato de não serem conservadores em vários aspetos culturais.

    Outra coisa que eu sempre notei é que praticamente todos ignoram Nozick, que pra mim é o que melhor defende a ideia de liberdade “libertária”. Ficam realmente presos nos economistas, e, portanto à argumentação consequencialista que ninguém engole.

    • 22/08/2013 at 00:46

      Nozick mete medo nos libertários porque os obriga a entender de filosofia, e eles são viciados em leituras fáceis da política. Nozick é um filósofo profundo.

  2. Orivaldo
    20/08/2013 at 17:10

    A utopia é como uma espiga amarrada na frente do cavalo. Não é pra matar sua fome mas sim pra faze-lo andar.

    • 20/08/2013 at 17:28

      Não creio, Orivaldo. Seria melhor não amarrar na frente.

  3. Rick
    19/08/2013 at 18:32

    As faixas estendidas pelos torcedores no estacionamento da imprensa diziam “Viado [sic] não”, “Vai beijar a P.Q.P.” e “Aqui é lugar de homem”.

    “A gente não quer ser homofóbico, mas tem de ter respeito com a camisa do Corinthians. Aqui não vai ficar beijando homem. Hoje são 5, amanhã são 50 e depois 500. Vamos fazer a vida dele um inferno”, disse Marco Antônio.

  4. Rick
    19/08/2013 at 18:30

    Paulo, vc viu isso aqui?

    Organizada faz protesto em CT, e Emerson fala em ‘preconceito babaca’

    Cinco torcedores da torcida organizada Camisa 12 foram nesta segunda-feira protestar contra o atacante Emerson. Com faixas improvisadas, eles pediram um pedido de desculpas do Sheik pelo herói da Libertadores de 2012 ter postado uma foto dando um selinho em um amigo.

    “A nação inteira está freneticamente indignada. Pode até ser a opção dele, mas nós estamos sempre tirando sarro dos bambis [modo pejorativo com o qual é chamada a torcida do São Paulo]. O mínimo que ele tem de fazer é um pedido de desculpas”, disse Marco Antônio, membro da diretoria da Camisa 12.

    fonte: UOL

  5. MARCELO CIOTI
    19/08/2013 at 11:26

    Paulo,por quê virou moda,aqui no Brasil,alguns sites de esquerda pregarem que
    “o poderio da Globo está chegando ao fim”etc,etc,etc?Os Safatles e Saramagos
    da vida quando criticam Reagan e Thatcher incluem palavras como “capitalismo
    selvagem”,”neoliberalismo” e “globalização”.A diferença entre Stalin e Thatcher
    era,que em Londres tinha mais de dez jornais de esquerda e de direita,enquanto
    na URSS de Stalin só tinha o Pravda pra ler.

    • 19/08/2013 at 23:31

      O Brasil é o país com um antiamericanismo atávico. Não só de esquerda.

  6. Cezar
    19/08/2013 at 11:01

    O ideal é sempre corrompido pela nossa natureza. Parece que para nos desvencilharmos dela é utópico.

    • 19/08/2013 at 23:32

      Cezar faz tempo que a filosofia não liga muito para essa noção de natureza. Não é útil.

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