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19/10/2018

O gênero literário inventado por Platão: a filosofia


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Tradicionalmente a filosofia se põe como um ir além. Ser filósofo é, ao menos segundo a fórmula consagrada pelo inventor do gênero literário chamado filosofia, Platão, um caminho de inquietação com o status quo presente, e uma tendência no sentido de ultrapassá-lo. Nesse afã, a história da filosofia criou quatro grandes maneiras de desenhar esse “ir além”. A filosofia pode ser transcendente, transcendental, de modelo teórico e, enfim, utópica. Poderíamos falar, além disso, de um quinto grande celeiro, o das tendências anti-platônicas atuais.

A filosofia transcendente é a que tem como objetivo a saída de uma condição por meio de um salto que a coloque em outro patamar. Vai-se de um mundo a outro, do que é aparência para o que é real. Platão é o próprio criador da filosofia nesses termos. O filósofo aspira instaurar-se no mundo das ideias, que é o mundo da perfeição e, portanto, o mundo verdadeiro e real.

Kant criou uma variação do transcendente, o transcendental. Nesse caso, não se trata de um mundo real existente, perfeito, mas de um mundo necessário, lógico, racional, que está no nosso horizonte como uma instância que nos permite fazermos o que fazemos no nosso mundo, o mundo empírico. Trata-se de um horizonte de possibilidades. O campo transcendental ou, melhor dizendo, o campo da consciência transcendental, é aquele campo que dá os limites para toda e qualquer experiência sob a guarda da razão. Deu-se o nome de filosofia crítica a um tal projeto. Crítica da razão: uma análise sob os limites da razão no campo do conhecimento e dos juízos práticos ou morais.

A filosofia que opta por construção de modelos teóricos é aquela que faz algo semelhante à que cria o campo transcendental, mas, na verdade, não gera nenhum limite para a experiência. É sim, de certa forma, uma construção teórica que apresenta o funcionamento perfeito de um sistema, de uma sociedade, pondo leis que poderiam muito bem ser universalizadas no decorrer da própria história. John Rawls (mais devedor de Hegel que de Kant!) fez isso com a sua sociedade justa, com a sua “Teoria da Justiça”. Estabeleceu dois princípios básicos para uma sociedade histórica de cunho liberal democrático de modo a equacionar otimamente liberdade e igualdade.

Por fim, há a filosofia utópica. Nesse caso, o filósofo cria um mundo detalhado, uma condição de vida bastante complexa, que exatamente pela sua complexidade jamais poderá ser realizada historicamente. Serve apenas como modelo para negar o existente, no sentido de criar possibilidades de crítica para o existente. Os filósofos pré-modernos se especializaram nisso. Por sua vez, modernos como Rousseau, com a utopia pedagógica de O Emílio, fizeram sucesso com um tal instrumento negativo. Na modernidade esses modelos utópicos se casaram com a história e vieram, então, aqueles que quiseram realizar as utopias, inventando teorias políticas, revolucionárias, de confecção do paraíso na Terra. Os marxistas-leninistas estiveram à frente desse projeto.

Ao lado desses projetos de salto além, na contramão do platonismo vieram as filosofias terapêuticas, pragmatistas, edesconstrucionistas e as tendências ontologizantes. Na visão dessas, pode-se dizer, de um modo bastante geral e grosseiro, que os problemas filosóficos deveriam não ser propriamente resolvidos, mas melhor olhados de maneira a desfazê-los enquanto problemas. Assim, a própria ideia de um salto para além seria uma falsa dificuldade, uma falsa questão, embutida na linguagem (Wittgenstein e, de certo modo, Agamben e Rorty) ou capaz de ser dissolvida por uma observação maior da práxis (Dewey, Rorty) ou simplesmente vistos como estando em textos que serviriam para serem lidos de mil e uma maneiras, e não propriamente contendo os problemas filosóficos canonizados (Derrida). Também surgiram os projetos filosóficos declaradamente não metafísicos. Heidegger usou o método da fenomenologia de Husserl para descrever a história do ser, uma história que havia sido esquecida pela hegemonia, no decorrer da filosofia, pela filosofia metafísica, sempre interessada na dualidade essência e existência, e se fixando num projeto de filosofia do sujeito que teria terminado favorecendo a ciência, a técnica e, nesse sentido, a dominação. Sloterdijk é de certo modo um herdeiro desse impulso ontológico, mas sua narrativa é antes de tudo uma espécie de história fantástica de antropotécnicas.

Estamos vivendo uma época que a adoção de uma só postura para a filosofia, a fundacionalista ou a não-fundacionalista, começa a fazer água. Começamos a perceber que precisamos de um ecletismo cada vez mais inteligente para levarmos adiante, se quisermos levar, esse gênero literário inventado por Platão. Pois, mesmo no nosso anti-platonismo, não podemos fazer algo que saia do grandes problemas e temas platônicos, não há como fazer isso, seria simplesmente mudar de gênero literário. Seria abandonar o que chamamos de filosofia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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6 Responses “O gênero literário inventado por Platão: a filosofia”

  1. Thiago
    17/04/2018 at 22:48

    Precisas escrever mais desse jeito e com esse tema. Ou melhor, poderias criar aulas online de Filosofia, entre introdução e correntes. Se não já o fez. Se o fez, faça novamente. Eu aposto que daria um ótimo quórum. O conteúdo está garantido, se encontrar um formato acessível, atraente e atual, vai ser sucesso, na certa.

    Ronaldo Brognoli, procure sobre Niilismo.

    • 17/04/2018 at 23:49

      Thiago, fizemos dez anos o Hora da Coruja. Fizemos 40 livros. Fizemos vídeos, textos etc. Tá tudo aí.

  2. 27/03/2018 at 13:09

    A Filosofia trancende o real, pula para a imaginação, criamos noções de realidade, tentamos nos situar no munda das ideias, mas são apenas noções na busca de uma realidade no mundo da imaginação, o real esta na capacidade de acreditar

  3. Helly Lucas
    27/03/2018 at 10:17

    Excelente texto. Dá um panorama bastante interessante pra quem é iniciante em filosofia poder se situar melhor. Parabéns Paulo.

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