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22/09/2017

O futuro asséptico e vegano está próximo, quer você queira ou não


Não há nada mais decadente que circo. Qualquer um. Até os mais afamados exalam o odor da decadência. A palavra “picadeiro” não soa bem. É que o circo é do século XX, com atrações de rua do século XIX. Alguém aleijado preso numa jaula, exposto como o homem-sapo, é o início do circo moderno. Não é o circus romano que tem a ver com o circo do século XX. O circo nosso não é o da morte pela honra, bravura e controle estoico, próprio da vida dos gladiadores, mas é o de tudo aquilo que viemos a chamar de Freak Show. Resta pouco disso, e quanto menos resta, mais nos repugna ver uma lona chegando à cidade. Ninguém mais quer ver urso preso, palhaços bêbados e burrinhos velhos dos sítios da redondeza sendo servido a leões carecas.

Essa imagem da decadência, que nos repugna hoje, e que talvez na nossa infância tenha sido uma boa imagem – ao menos as da minha idade ou próximos -, será semelhante ao que iremos ver daqui a pouco em relação a muito de nossa prática atual, ou seja, uma imagem que deveria desaparecer. Em especial as que têm a ver com circo. O estilo da vida circense, da vida sem eira e nem beira, iremos cada vez mais desprezar isso. A prática do consumo de carne será um desses elementos da decadência, como um resto da sociedade que se divertia com Freak Show. Caminharemos para uma sociedade onde os ricos e escolarizados não comerão carne, não se alimentarão de defuntos. Muito menos consumirão alimentos gordurosos. Os No Oil Vegans darão os padrões de conduta, comportamento e beleza. Só os atrasados e os pobres irão ficar nas práticas ao redor da carne. E haverá um tempo que nem poderão entrar na civilização por conta disso. Existirão muros.

Qualquer gosto por expor animais e qualquer tipo de pequena ou grande crueldade será condenada. Os praticantes, inclusive industriais, serão tidos por essa sociedade do futuro próximo como os últimos empresários da barbárie. Serão como os mercadores de escravos no século XIX, diante dos industriais dessa mesma época. Aparecerão como o restolho da burguesia, praticamente piratas. Nossa sociedade se tornará ainda mais clean, mais empenhada em higienismos de todo tipo e, inclusive, com padrões de apresentação corporal regrados por engenharia genética e ditames de clínicas de cirurgia plástica.

A própria carne humana, para sexo, ganhará um tratamento de assepsia e afinamento excepcionais. O “dirty sex” será uma modalidade paga, exercido em ilhas separadas pelos muito muito ricos. No geral, irá imperar nos contatos físicos, que irão diminuir, ;ma relação que, vista pelas pessoas que hoje possuem sessenta anos, parecerá algo dessexualizado. Claro que isso se casará sim com uma crescente dessexualização de casais, mas de modo algum será o fim do sexo ou a segregação do sexo aos pobres. Estes farão sexo e comerão carne, mas não terão o prazer de fazer sexo melhor, que ainda continuará algo dos ricos e escolarizados que, enfim, não farão todo dia, mas farão em situações mais confortáveis.

Quando olhamos para as análises de Foucault e Agamben, no referente à biopolítica, vemos que estamos caminhando para o império do corpo nu, e isso para o mal e para bem. E se pudermos pensar, com Sloterdijk, que nossa sociedade terá uma capacidade cada vez maior de entretenimento espalhado inclusive pelo interior do trabalho, entenderemos rapidamente a leveza dessa vida vegana, sem óleo, com sexo asséptico e com uma incrível disposição para a reclusão em guetos, em shoppings, em centros culturais, de modo a evitar de vez a patuleia. O mundo está mais dividido que nunca, e ao mesmo tempo com bolhas de prosperidade e abundância de tal ordem que acabará provando uma melhoria dos lugares pobres. Mas estes, claro, ainda ficarão mais ou menos como Cuba, sem internet.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 02/12/2016

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9 Responses “O futuro asséptico e vegano está próximo, quer você queira ou não”

  1. EVERSON VEIGA SANTOS
    02/12/2016 at 22:46

    Paulo, achei esdrúxula essa sua pequena fábula. Não por causa dos ideias subjacentes a ela, como o veganismo, por exemplo, pois me aproximo dele em alguma medida.
    Gostaria de saber de onde vem essa sua ideia de assepsia.
    Não tenho contraponto filosófico algum a fazer a ti, apenas sugiro a leitura de uma crônica de Luís Fernando Veríssimo, encontrada no livro de estreia dele:

    Eros e civilização (I) In: O Popular. Luís Fernando Veríssimo. 1973.

    Não existe o Homem Civilizado. Existem projetos. Aspirantes ao título. Dois ou três pretendentes em adiantado estado de refinamento cultural e cirrose hepática. O posto, no entanto, permanece vago e hipotético, talvez inatingível.
    Imaginemos o Homem Civilizado. Como seria? George Bernard Shaw afirmou certa vez que civilização é o que sobra pra ser desenterrado dez mil anos depois. Prove que Shaw nunca disse isso! Há quem só possa visualizar o Homem Civilizado de camisa frufru num desfile do Denner. Para outros o Homem Civilizado será um tarado sexual de uivar nas esquinas. Aliás, disse mal. “Tara” tem conotações médicas e pressupõe um julgamento moral. Retiro o “tarado” e saio em busca do termo exato. Um superdiletante. Um obsessivo consciente. Frase não vale? Então um erotista. Um erotômano. Um auto-saciador. O diabo. Investiguemos essa senda.
    A história da humanidade seria um ‘strip-tease’ ao contrário. O homem entra nu em cena e passa a se vestir com o maior despudor. “Bota mais! Bota mais!” batem os tambores, grita o coro grego, exige a galeria escandalizada, século após século. Você dirá que civilização então é um pobre atrouxado, um esquimó dançando o minueto. Ledo e ivo engano. No momento em que está até aqui de cultura rendada, de religiões felpudas, do tergal das convenções e de mitos tricotados, o Homem começa a se despir. Não por convicção mas por instinto de conservação, para não sufocar e morrer mumificado, morrer de camadas. Não é fácil. O Homem é vaiado, apedrejado, expulso da tribo e arrastado de volta como bicho raro. Até que consegue convencer a platéia de que o teatro não vai desabar só porque um joelho veio à luz ou um umbigo estala aqui e outro ali. E a função continua. Bota! Tira! Século após século.
    E a Civilização? Se o que movimenta o espetáculo é o maior ou menor número de ornamentos no lombo do nosso artista arquetipal, está claro que o cerne, a atração principal, a mensagem do drama é o seu corpo oculto, adivinhado, sugerido ou – horror e ‘frisson!’ – revelado. Se civilização é sutileza, então o nosso Homem Civilizado já veio e já passou. Tão sutil que não se fez notar, e o espetáculo continuou sem dar a mínima ao seu exemplo e a seu triunfo. Na história de toda a sociedade sempre há um instante bizantino, um momento que exalta a puerilidade dos seus valores e que – apesar ou por causa disso – coincide com o seu apogeu estético. Não me peça para explicar essa frase porque eu estou perdido desde o segundo parágrafo. Assim o Homem Civilizado seria um pico passageiro, um divisor inconsequente e irrelevante entre a ascensão da espécie e a sua decadência até a nudez. O que nos levará ao tarado. Amanhã.

    Essa também é boa:

    Eros e civilização (II) In: O Popular. Luís Fernando Veríssimo. 1973.

    Você certamente conhece o gato de harém. Pelo menos de fotografia, de pintura, de cartão-postal. Lembro-me da primeira vez em que o vi num quadro de Manet. Ou Monet. O quadro mostra uma odalisca nua languedescendo-se num divã, a mão pousada como um eufemismo sobre o baixo-ventre. À direita, uma escrava etíope. À esquerda, gordo e cínico, espiando o mundo com um meio-sorriso de divertida nostalgia, um gato branco. Branco não, amarelo, amarelo-nicotina. Imagine um gato criado a bombom, anisete e carne mentolada, o olhar opaco de quem já viu tudo e só vive para o próximo cafuné. Imagine um gato que, na hora do banho, é lambido por sete eunucos! Pois há quem diga que só o gato de harém é civilizado, que civilização é fastio, é caviar na cama. Mas o sensualista abandona o palco no encalço das suas obsessões e nos deixa cultivando a inveja como a uma planta carnívora. Não contribui nada para o processo de desnudamento progressivo da espécie, que é a missão de todo o verdadeiro inovador, do autêntico profeta.
    Veja o Marquês de Sade. Foi um dos primeiros a concluir que a imaginação criativa deve primeiro ampliar os limites do seu próprio receptáculo, do corpo que a contém, antes de partir para reformar o mundo. Teve a má sorte de subir ao palco e mostrar seus truques no exato momento em que estourava uma revolta na platéia. A violência impessoal da Revolução Francesa escandalizou o marquês, que retirou-se desiludido, segurando as calças, para os camarins e para a loucura. A pornografia é o erotismo como arma ou a civilização antes do tempo. Quem a utiliza como instrumento corre o risco da loucura mas também pode virar busto de praça quando o bloco dos nus tomar conta do salão. O pelado precoce, o que tira a roupa no entusiasmo porque acha que chegou a hora, leva tomate. E com estatelante justiça. A revolução se faz com ironia, paciência e um bom jogo de corpo. Revolução sem cintura é tropicalismo. Aliás, o bom revolucionário nunca faz revolução.
    O Leitor Mais Atento já terá adivinhado que o Autor usa o palco como metáfora não sem Segundas Intenções. O homem, o Homem, é o único animal que precisa transformar-se em símbolo para compreender o que está fazendo. O sexo não é, como você pensa, uma coisa natural para os animais, os outros. Na maioria das espécies, o ato sexual vem cercado de graves rituais e sutis implicações, principalmente porque está quase sempre relacionado ao instinto territorial. Já o Homem precisa exteriorizar o que é, ou o que pensa que é, seja numa estatueta de barro, na parede de uma caverna ou num palco da Broadway. Mas esse distanciamento é irrecuperável, o símbolo segue um caminho e o simbolizado – você e eu – vai para o outro lado, ou vai atrás, ou simplesmente deixa que o símbolo esgote todos os caminhos antes de decidir o seu. A história do Homem raramente coincide com a história da sua Arte, mas a medida da frustração humana é sempre a distância que separa o homem do seu símbolo desgarrado. O Homem Civilizado é, será, o que não precisa refugiar-se num teatro para contemplar a própria nudez, nem delegar a ninguém os seus rituais. Quando a vida for igual a um anúncio da Pepsi – praia, sol, hormônios retumbantes, alegria, alegria! – a Pepsi vai à falência.

    Abraço!

    Everson Veiga Santos

    • 02/12/2016 at 23:06

      Everson a filosofia tem caminhos diferentes da literatura não filosófica. Particularmente, eu não sou de gostar do Veríssimo.

    • EVERSON VEIGA SANTOS
      02/12/2016 at 23:20

      Tudo bem, não era minha pretensão oferecer contraponto filosófico, como disse. Sou desses que estão num lugar sem pertencer a ele. Faço história, mas estou insatisfeito com o meio e com seus protocolos. Quero começar a estudar filosofia, criando uma base sistemática dessa área. Pensei nos 7 volumes do Giovani Reale, o que acha?
      Novamente, gostaria de saber por que vê valor positivo na assepsia.

      Abraço!

    • 03/12/2016 at 09:00

      Everson não há valor positivo ou negativo na minha narrativa, ela é o desdobramento imaginativo de certas teses de Sloterdijk e Rorty. O Reale foi professor de um amigo e colega de trabalho, é bom, claro. Mas filosofia não é por livros, não é por leitura somente, é necessário o convívio com a confraria dos filósofos, e a leitura não da história da filosofia e sim dos filósofos, com acompanhamento de outros. O autodidatismo em filosofia cria monstros.

    • EVERSON VEIGA SANTOS
      03/12/2016 at 21:28

      Obrigado por responder, Paulo. Eu percebo que tu desdobra muito do Sloterdijk no que escreve, não por mérito meu, pois ainda não li esse autor. Ouvi falar dele, pela primeira vez, numa palestra do Juliano Garcia Pessanha. A exposição do Juliano me deixou fascinado pelo autor, mas ainda não consegui comprar os livros dele.
      Seguinte: eu curso história e tenho grande dificuldade de ler filosofia pura, autoral, sem alguma base histórica e dialógica, digamos assim. Li Descartes, numa primeira vez, sem nenhum chão histórico, e saí por aí achando que tinha o decifrado. Então, minha ideia de ter uma base sistemática da história da filosofia, é pra, digamos assim, conseguir entrar melhor nos autores. Mas, claro, a cultura filosófica vou adquirir pelo hábito de leitura de filósofos, pelo convívio com gente interessada em discuti-los, etc. Alguns elementos dessa equação ainda me falta… amigos interessados em discutir autores de filosofia, por exemplo. Estudo no mesmo departamento que os estudantes de filosofia, na Ufrgs, e conheço um pessoal de lá. A maioria tá embasbacada com a ideia de licenciatura, outros são apenas intelectuais gostosões… usam a filosofia pra criar frases boas pra depois postarem no whats. Mas não encontro ninguém verdadeiramente interessado em pensar a vida através da filosofia, da história.
      Se tiver alguma sugestão, aceito-a.

      Abraço!

    • 03/12/2016 at 22:41

      Everson, a filosofia e a história são inimigas. Talvez tenha que optar: quando entra no campo da filosofia, esqueça o da história. A virtude do filósofo é o pecado do historiador: o anacronismo.

  2. Jarbas Soares
    02/12/2016 at 16:18

    O que restará, então, para nos dá peso? As narrativas ontológicas?

    • 02/12/2016 at 20:33

      João, a gente arranja: da depressão ao tédio do tédio aos movimento sociais e deste para os problemas que podem ocorrer na manicure.

    • Orquidéia
      03/12/2016 at 21:34

      Um bom problema será como alimentar a população crescente.
      Cada cidade terá que ter uma “x” quantidade de prédios agrícolas,as praças serão transformadas em hortas.
      [hehe!!…]

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