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16/12/2019

O fim do liberalismo e o desdém para com a educação


Uma boa parte dos liberais conservadores, especialmente no Brasil, principalmente os que descobriram a política por volta dos quarenta ou cinquenta anos, acredita que ser revolucionário hoje é ser liberal. Pessoas assim são tão revolucionárias quanto os possuídos pelo diabinho do marxismo hormonal. Aliás, pessoas assim não possuem o charme de um Robert Nozick, mas apenas as escamas da pele de Reagan ou Thatcher, quando já senis – se é que estes aí foram jovens algum dia!

Esses liberais não são liberais, tanto quanto os heróis do marxismo hormonal não são marxistas. Respectivamente, são adultos de mentalidade infanto-juvenil e jovens com senilidade precoce.

Esses liberais que se acham novidadeiros não percebem que o liberalismo no Brasil sofreu duro revés. Não como doutrina, claro, mas como elemento capaz de contagiar as pessoas.

O liberalismo do nosso senso comum permitiu a Quércia, do PMDB, ficar na política comoNormalista vencedor com um slogan sábio: “o Sol nasceu para todos e também para você”. Exato. A doutrina da igualdade perante a lei acoplada da igualdade de oportunidades por meio da educação tinha sua tradução nesse versinho aí, e dava o tom para o pobre e para o homem da classe média baixa, sem ofender os ricos. Como fazer com que o sol realmente possa nascer para todos, uma vez que nem todos nascem no mesmo berço? Simples: que exista uma educação pública de extrema qualidade distribuída para todos. Os brasileiros queriam isso, tinham interesse em se educar, e durante todo o período de 1920 até mais ou menos 1980 esse senso comum liberal esteve no comando de nossas vidas. Não mais hoje!

Vivemos hoje um descrédito do liberalismo, e um seu desgaste de maneiras variadas. Foram os liberais que criaram a USP e que ampliaram a rede pública de ensino básico, e não só liberais radicais, mas também os conservadores. Onde estão essas pessoas hoje? Completamente desacreditadas, colocadas para escanteio. A bandeira liberal está nas mãos de direitistas notórios, propagandistas de soluções que desmentem tudo que Locke e Adam Smith escreveram. São pessoas que odeiam a cultura se ela estiver nas mãos de instituições públicas, uma vez que estas, não raro, não os deixaram ocupar postos nela! Aliás, às vezes nem como alunos! Há jornalistas de todo tipo nessa caixa, e hoje em dia até candidatos a filósofos!

Essa plêiade de cabeças-duras tem êxito em seus escritos diante de uma população que odeia os intelectuais, que até quer entrar na escola pública superior, mas que, uma vez lá, quer faze-la se curvar aos seus gostos e ignorância. O diploma passou a ser importante e, de uma forma esquizofrênica, o saber não.

Normalista3Nisso, a esquerda, principalmente os insufladores do marxismo-hormonal-sem-Marx, entraram por essa via, de certa maneira alimentada pelos liberais de araque. A ideia é facilitar o vestibular, e não melhorar o ensino básico. A ideia é proteger falsos grupos de defesa de minorias, uma vez dentro da universidade, e não dar condições para todos, de modo que o estudante universitário dê um salto em sua formação cultural. Tudo se faz na base do populismo cultural. Isso porque a mentalidade liberal se encerrou. A ideia de que o sol nasce para todos não por outra coisa senão pela educação, o centro da doutrina progressista do liberalismo, perdeu prestígio em grau tão avantajado que o reflexo disso nos governos foi fantástica e triste.

Normalista5O governo FHC não fez nada pela melhora salarial dos professores universitários e não fez convênios com estados e municípios de modo a empurrar os salários dos professores na escola básica. O governo do PT criou universidades sem dar condição delas funcionarem, fez convênios com os estados, mas sem fiscalização e mecanismos de contrapartida. Resultado: gastou e ficou na mesma. É tido hoje, e isso certo, como um governo de mais boa vontade para com o serviço público educacional, mas com a mesma ineficácia do PSDB, que tem má vontade. Isso sem contar o sabor privatizante e maligno do programa do PT de criação do PROUNI (por meio da figura mentalmente complicada de Haddad), o mecanismo pelo qual os empresários do ensino, principalmente do ensino fajuto, deixam de pagar impostos.

Está difícil hoje pensar qualquer problema setorial de escolas, universidades e professores, pois as forças sociais que gostavam da educação abandonaram seu posto. De um modo geral, nenhum jovem brasileiro de hoje gosta de professor e de escola. Há em todos os setores um anti-intelectualismo visível, até mesmo, agora, entre os próprios professores – de todos os níveis. Chegamos ao ponto de vermos professores universitários, até uspianos, querendo adaptar Machado de Assis ao leitor… analfabeto! Uma pessoa assim tem alguma diferença para com um Reinaldo de Azevedo, que pode pedir o contrário, mas que não entende o próprio Machado de Assis? Nenhuma.

Paulo Ghiraldelli Jr. , 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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10 Responses “O fim do liberalismo e o desdém para com a educação”

  1. Tiago de Andrade
    09/06/2014 at 14:06

    Paulo, fica difícil se concentrar no texto com todas essas colegiais deliciosas atraindo a vista. hehehe

  2. Guilherme Gouvêa
    07/06/2014 at 13:01

    O texto é correto, mas creio também que os educadores e as instituições precisam se reciclar, se modernizar.

    Se é verdade que o ensino privado tem em suas fileiras uma parte expressiva de picaretas vendedores de diplomas, a universidade pública parece um desfile de dinossauros: dos professores jurássicos a viver mentalmente nos anos 60 (repetindo infinitamente bordões sobre a ditadura militar, sua pauta predileta de conversa, quando não a única) aos alunos proto-marxistas-militantes, reproduzindo um ideário mofado e já sepultado pela História (na maioria do caso, “socialistas de botique”).

    Isso sem contar a completa falta de sincronia com o mercado: a instituição se fecha sobre si mesma como em um mundo particular – e não quer se integrar ou interagir com a realidade prática que a cerca, salvo quando esta serve de arrimo para o fisiologismo de alguns grupos políticos ali infiltrados.

    Vídeo motivacional (a freirinha italiana que levou o the Voice cantando Bon Jovi e Madonna):

    http://www.youtube.com/watch?v=ySc16v1elDs

    • 07/06/2014 at 14:09

      A reciclagem é aconselhada para o lixo e outros materiais. Agora, Gouvêa, essa história de professor marxista é para o Pondé. Você caiu na dele. E pior, não leu meu texto direito. Agora, adaptar universidade ao mercado, aí meu caro, realmente você entrou pela via errada mesmo. Muito erro, muito. Mude.

    • Guilherme Gouvêa
      07/06/2014 at 14:29

      O Pondé vê esses “professores marxistas” tentando “corromper a juventude”. Ao contrário, eu me referi aos alunos que circulam pra cima e pra baixo na USP, por exemplo, com camisetas de Che Guevara, gritando palavras de ordem e professando o “marxismo” distorcido de partidos nanicos rejeitados até pelo PT. E isso existe, é verdade, basta ficar um dia completo no campus do Butantã-SP, por exemplo, para testemunhar.

      O termo reciclar foi no sentido de modernizar, adaptar, se especializar, você sabe… Talvez a palavra seja infeliz, mas o sentido que busquei empregar não é pejorativo.

      Você é o melhor exemplo de professor engajado nessa ideia que cogitei: que outro doutor desenvolve programação em mídias virtuais, escreve livros de fácil acesso, promove debates e os abre ao público? Ninguém…

    • 07/06/2014 at 14:32

      Guilherme, alunos e professores assim são uma minoria tão insignificante no contexto da universidade! É uma loucura achar que contam. O Pondé se encanta com DCE, é o que ocorreu com você.
      O meu trabalho na universidade, que não existe mais, foi feito por vários professores. Não tem nada a ver com o mercado. Muitos professores continuam isso, em vários níveis.

    • MARCELO CIOTI
      09/06/2014 at 11:38

      Tu acertou em cheio,
      Guilherme.Esses
      professores chamam,
      por exemplo o Agnaldo
      Timóteo de reaça,
      enquanto eles mesmos
      são reacionários
      quando defendem
      aquela eterna ditadura
      da China.Tu acredita
      que eles acham que
      aquele sujeito que
      enfrentou os tanques
      em 89 foi pago pelos
      EUA?Como disse
      PT Barnum,a cada
      minuto nasce um
      otário no mundo.

    • Guilherme Gouvêa
      09/06/2014 at 21:24

      Segundo o Sunday Express (jornal britânico), que cobriu o evento à época, o nome do cara era Wang Wei Lin, estudante e tinha 19 anos.

      O destino do mancebo virou campo fértil para teorias da conspiração: as versões ocidentais dizem que foi preso por tentativa de subversão e agitação política, sendo executado poucos dias depois.

      A única declaração conhecida do PCC (Partido Comunista da China – não confundir com outros grupos criminosos) foi de Jiang Zemin, em 1990: “I think never killed”, teria dito em inglês castiço.

      Parte dos chineses, segundo soube, gosta de imaginar que o “tank man” fugiu para Taiwan e tocou a vida, ou que vive recluso, saudável e anônimo, no interior do país.

  3. MARCELO CIOTI
    07/06/2014 at 11:53

    A esquerda nunca vai perdoar
    Thatcher por ter vencido a
    Guerra das Malvinas.Claro
    que estou falando daquela
    esquerda a la Safatle e
    Chomsky.Parece jogador
    de futebol argentino.Nunca
    sabem perder.kkkk

    • 07/06/2014 at 12:39

      Ué, e tinha de haver guerra? A esquerda com Chomsky e Safatle? Meu Deus, que confusão mental!

    • MARCELO CIOTI
      09/06/2014 at 11:08

      Lendo teu artigo chamando
      Reagan e Thatcher de senis,
      me lembrei de um artigo
      do Roberto Marinho que
      chamou o Brizola de
      senil.O detalhe é que
      Marinho,quando
      escreveu isso,tinha 88
      anos,e o Brizola mandou
      ele pra aquele lugar.

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