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30/05/2017

“O fim do marxismo” – uma perspectiva


O fim do marxismo. Como é isso?

O comunismo foi derrotado por si mesmo com o fim da URSS, no início dos anos noventa. Foi uma derrota para o então “horizonte da visão popular”, segundo alguns intelectuais. Essa derrota não implicou em avario daquilo que nunca esteve no âmbito de uma visão popular, e que sempre foi assunto de intelectuais e especialmente de professores de filosofia: o marxismo. Este, quando da queda do Muro de Berlim, já estava há muito moribundo. Se podemos dizer que caiu de novo quando do fim da URSS, foi por causa de então nada que estava sólido no campo da esquerda conseguiu ficar sem esfumaçar-se no ar.

O marxismo chegou a um impasse antes mesmo de Lênin ter encabeçado a Revolução de 1917 na Rússia. A doutrina de Marx entrou em crise não por elementos históricos, mas única e exclusivamente por seus próprios problemas filosóficos. Conto como isso se deu.

A ideia básica de Marx, ao menos em termos filosóficos, é que a sociedade de mercado produz algo chamado ideologia, ou seja, uma representação da realidade capaz de mostrar os homens não como eles de fato vivem, mas segundo aquilo que poderiam e deveriam estar vivendo. Ao se representarem socialmente, os homens se autoproclamam indivíduos conscientes de seus pensamentos e responsáveis pelos seus atos, e assim são tomados juridicamente. Todavia, em uma sociedade de mercado, essa visão de si mesmo apenas esconderia a verdadeira relação entre homens e mercadorias. Em uma sociedade de mercado, as mercadorias comandariam a vida, elas teriam alcançado poder de vontade e estariam fazendo o papel de sujeito, colocando o homem como objeto. O homem se descreve vivo e seus produtos são os elementos mortos. Mas essa é a representação ideológica. Pois o que ocorre mesmo é aquilo melhor descrito pelo fetichismo da mercadoria e a reificação do homem. Na relação sujeito-objeto, o homem é transformado em coisa enquanto que a mercadoria ganha aspectos vivos.

Marx deu vários exemplos disso e os teóricos marxistas trabalharam e retrabalharam o tema. Muitos de nós nos acostumamos, inclusive, com os exemplos. Afinal, não raro nossa linguagem acaba nos dando a impressão de poder denunciar a ideologia que mascararia essa realidade de dominação. Eis uma forma pela qual notaríamos a ideologia. Por que falar “bela como uma boneca?” O belo humano não poderia mais ser belo se não fosse mostrado como o belo próprio da mercadoria, do objeto, do morto. Desse modo, ao pronunciar “bela comum uma boneca”, o que se revela ao falante e a quem escuta é que o artefato estaria sendo o sujeito, sua fetichização é que permitiria ver o quanto a moça, o vivo, seria realmente bela. Ela, a moça, teria se reificado, ganhando feições do morto, o objeto, para se apresentar com traços vivos, os da beleza. Assim, “bela como uma boneca” seria um deslize da linguagem capaz de mostrar que não se estaria vivendo senão segundo relações invertidas. Relações não percebidas claramente, pois nubladas exatamente pela ideia de que valeria, ainda, a doutrina liberal de colocar o homem como sujeito ou, como diriam os sociólogos, como indivíduo livre e autônomo. Desse modo, ao não representar mais o que estaria ocorrendo, o liberalismo deixaria de lado sua condição de doutrina para ir para a sua condição de ideologia.

Essa foi a parte filosófica do marxismo. Foi exatamente por acreditar nessa formulação que os comunistas marxistas não quiseram seguir os social-democratas marxistas. Pois os comunistas não queriam apenas ganhos paulatinos dentro da sociedade de mercado, eles queriam o fim da sociedade de mercado porque os professores de filosofia haviam lhes ensinado que isso seria o fim de toda a ideologia, seria o equivalente à saída da Caverna platônica. Os social-democratas eram marxistas pragmáticos, até pragmatistas (nos Estados Unidos, por exemplo). Os comunistas eram marxistas filosóficos (ou metafísicos, melhor dizendo), para estes a vitória só seria uma vitória se a filosofia se realizasse na prática, ou seja, se o mundo vindouro fosse um mundo sem ideologia, sem a Caverna platônica. O homem realizaria então uma série de preceitos da doutrina liberal, e não mais viveria a doutrina liberal como farsa. A doutrina liberal tornada efetiva, desse modo, ganharia outros melhores aspectos ainda, o da total libertação do homem de qualquer dominação. Seria o fim da dominação das mercadorias sobre os homens e seria então o fim do homem sob o regime da visão nublada. No comunismo as pessoas veriam suas relações reais e a vida seria vista “como ela é”.

Desse modo, se para os trabalhadores o comunismo era um ideal de viver bem, para os intelectuais e principalmente para os professores de filosofia o comunismo era uma situação real de saída da Caverna, de fim das ideologias, de visão de tudo que se apresenta como o que se apresenta. Seria o iluminismo realizado na prática. Ninguém mais não teria luzes, pois nenhuma ideologia estaria presente para nublar a visão de quem quer que fosse.

Todavia, havia um problema nisso tudo. E enquanto estamos na sociedade de mercado, imersos na ideologia, sufocados pela doutrina liberal que estaria, então, funcionando como mentira, quem poderia, mesmo nessa situação, vislumbrar o erro, apontar a situação vivida como invertida? Quem que de dentro do nevoeiro veria a luz que ninguém mais estaria vendo?

Junto da doutrina marxista a respeito da ideologia, o marxismo gerou a ideia de “última classe”. Todas as classes sociais até então teriam, de alguma forma, colaborado com alguma ideologia, com alguma doutrina que teria favorecido a dominação, a visão do homem no interior da Caverna. Assim fizeram porque suas vistas estavam presas pelo “interesse de classe”. Queriam a libertação, mas, como iriam perder muito, acabavam por deixar o interesse falar mais alto e, assim, terminavam por reiterar a representação social dominante, a ideologia. Seria necessário que elementos de uma classe social sem qualquer interesse em privilegiar qualquer status quo tivesse sua visão aguçada. O proletariado seria essa “última classe”. Após o seu domínio ou, melhor dizendo, com o seu domínio, não haveria mais sentido a existência de classes. A burguesia e o proletariado desapareceriam e todos seriam primeiro trabalhadores e, depois, com a maquinização associada à nacionalização dos meios de produção, apenas humanos livres.

Não querendo preservar nada da vida antiga, a vida de antes da revolução, o proletariado seria a única classe a estar no meio do nevoeiro e enxergar que a doutrina liberal estaria funcionando como ideologia. Mas todo o proletariado faria isso? Não, claro que não. Os cérebros que pensam são cérebros individuais. Então, no interior do proletariado, haveria os melhores preparados para associar “visão de classe” com “disciplina de partido” e “inteligência revolucionária”. Estes, naturalmente formariam a elite do partido, a vanguarda, e eles enxergariam o mundo quase que sem ideologia. Se não vissem assim, ao menos poderiam, intelectualmente, saber que era assim. Seriam os que mesmo não saindo da Caverna, saberiam muito bem que nas suas paredes não haveria objeto real, mas somente sombras. Contariam isso aos outros. Pediriam fé. Conduziriam os outros à terra prometida, o comunismo. Para tal, teriam esses outros fazendo consigo e sob seu comando a revolução socialista, a última das revoluções.

Ora, é exatamente nesse pedido de fé da vanguarda para com o resto do proletariado que o barco fez água. Nem sempre essa fé foi concedida. E nos lugares que foi, nem sempre os que concederam a fé não se arrependeram – as vanguardas não pareciam tão iluminadas quanto diziam estar.

Esses problemas de ordem filosófica, todos eles envolvidos nessa metafísica da doutrina de visão maior para o proletariado e dentro deste para a vanguarda e dentro desta para o secretário geral do partido comunista, foram tratados seriamente no início das discussões marxistas. Mas, no decorrer do século XX, se transformaram em piada. Secretários de partidos comunistas do mundo todo, completamente imbecis, bêbados e senis eram mostrados com grandes fotos, em passeatas, como gênios em todas as ciências, uma vez que eram o cume da visão do proletariado. Essa piada trágica se espalhou dos dois lados, no Oriente e no Ocidente. E então o comunismo passou a só existir reprimindo todos, os que haviam sobrado como burgueses e também todos os proletários que, afinal, por décadas serviam “a causa” e não conseguiam se transformar em puros humanos, continuando como operários escravizados, não raro até pior do que no Ocidente.

A social democracia não endossou nada disso. Ela seguiu seu rumo de fazer reformas dentro do capitalismo e só veio a passar por crise, de fato, quando nos anos setenta para os anos oitenta a Europa começou a não querer pagar impostos para sustentar aquilo que veio a se chamar Welfare State. Foi então que Thatcher e Reagan surgiram, na Europa e Estados Unidos, com o “governo do estado mínimo”, que para alguns ganhou o nome de “neoliberalismo”. Essa crise atingiu também o marxismo, mas não o atingiu na sua parte filosófica. Esta, a essa altura, era apenas teoria carcomida vigente em aulas de sociologia e filosofia das universidades. Ninguém no mundo dos negócios e da política acreditava de fato nela. Por isso mesmo, ninguém levava a sério professores de ciências humanas para fora de seus departamentos, quando eles começavam a insistir em dizer que ainda ensinavam Marx.

Claro que quando a URSS veio abaixo, então tudo foi levado de roldão. A social democracia foi junto com o comunismo. E Marx foi escada abaixo mais uma vez. Mas, os filósofos já sabiam que ele havia rodado há muito. É que alguns filósofos marxistas nunca quiseram contar isso ao seu público. Não compensava desmantelar editoras e toda uma hierarquia de mando, mais no Ocidente que na URSS, que havia se formado na associação entre poder universitário, doutrina marxista vendida no mercado capitalista e indústria cultural de ciências humanas ligada às hierarquias partidárias e sindicais poderosas.

Essa maquinaria toda veio abaixo após o fim da URSS e atingiu a vida intelectual de toda a Europa, América Latina, Ásia, África e Oceania. Os Estados Unidos se salvaram disso, uma vez que o marxismo havia sido abandonado pelos intelectuais no início do século XX. Os intelectuais de esquerda, nos Estados Unidos, optaram por John Dewey e, depois, quando voltaram ao marxismo, por meio da “nova esquerda”, fundiram tal doutrina a uma série de outros pensadores, os da Teoria Crítica, Foucault, Nietzsche, Derrida e outros. Mas, é preciso sempre lembrar, a “nova esquerda” se enclausurou na universidade, especialmente nos departamentos de Letras, e pouco quis se envolver com a política do Partido Democrata. Isso foi uma verdade, de certa forma, até Bill Clinton e Obama. Talvez Obama tenha feito essa “nova esquerda” se tornar mais arejada e pensar nas possibilidades de vir a fazer “política real”. Marx, então terá novo espaço, mas nunca mais como foi na transição no início do século XX e, felizmente, nunca mais como foi no decorrer de tal século.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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7 Responses ““O fim do marxismo” – uma perspectiva”

  1. Samir Faraj
    21/11/2013 at 17:48

    Talvez haja uma “falha” filosófica no “marxismo” por crer em um homem diferente, consciente da existência de um ser maior (o coletivo) sem perceber a “vontade” em trair. Mas isso só começa a minar o sistema após a morte de Stalin, quando alguns elementos, de forte poder político – dominantes no politiburo, começam a modificar, sobremaneira, a política comunista.

    O que o senhor fala em:

    “E então o comunismo passou a só existir reprimindo todos, os que haviam sobrado como burgueses e também todos os proletários que, afinal, por décadas serviam “a causa” e não conseguiam se transformar em puros humanos, continuando como operários escravizados, não raro até pior do que no Ocidente”

    é, mais, uma repressão do revisionismo marxista de Kruchev e cia (mesmo que a posição política tenha sido revista por Brejnev posteriormente, a política econômica, favorável ao capitalismo continuou) para manter a URSS fora do rumo comunista do que uma repressão para manter a “filosofia” marxista incólume dos “operários escravizados”.

  2. Vitor
    06/07/2013 at 13:55

    Fico me perguntando o que a recusa desesperada marxista tem a dizer sobre as mazelas do capitalismo. Repare, eu não estou querendo debater Marx, e nem vou levar em consideração que tal etiqueta não dê conta de uma complexa obra e nem de autores posteriores que se apropriaram do seu pensamento, os quais você sugere que sejam colocados na lixeira; uma questionável postura intelectual, diga-se de passagem, já que não estamos numa mesa de bar para gozarmos desta “sinceridade acadêmica”. O que me intriga é saber como se posicionam diante dos problemas que nossa condição pós-moderna capitalista nos impõem, os quais não são vistos ou por ignorância ou por cinismo. Ou será que o válido mesmo é se colocar numa condição de “tudo o que sei é que nada sei” e se vestir a camisa do relativismo desconsiderando assim o papel social e ético do intelectual? Mas claro, talvez Gramsci também tenha ficado no lixo…

    • 06/07/2013 at 14:48

      Vitor, o problema seu é que você não lê nada e comenta.

  3. Francisco Sulo
    03/06/2013 at 00:18

    E ninguém mais viu Napoleão e Bola de Neve…
    E onde se inserem David Harvey, Slavoj Zizek, dentre outros?

    • 03/06/2013 at 03:40

      Olha, se você tiver uma lata de lixo próximas, insira-os lá. Isso é ruim demais.

  4. Mario Luis
    26/05/2013 at 21:51

    Que a apropriação conceitual do marxismo, em seu viés político, não teve consistência para manter-se em razão de sua contradição interna é admissível. A questão filosófica da reificação ás vezes se confunde com uma problemática mais profunda e que Marx levantou, inspirado em Hegel, que é a questão da alienação. Alienação não no sentido da força de trabalho, nem da mais valia, mas não reconhecer-se naquilo que produz. Essa grande cisão da lida do homem com o mundo e aquilo que ele realmente é passa a ser o grande desafio para o homem contemporãneo, cuja ética lhe empurra em direção a enxergar-se como algo que não pode ser coisificado.

    • 27/05/2013 at 00:46

      Sim, a teoria da alienaçao, mas não de Hegel somente, mas vinda lá de Rousseau. Mas, enfim, consegui evitar de falar nisso, para que o texto pudesse sair no âmbito da internet: liso.

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Filósofo