Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

29/03/2017

O filósofo monotemático político é filósofo?


Um indivíduo diz que estudou uma vida toda filosofia e, então, quando você espreme, a única coisa que sai dele é a regra de que é necessário que os ricos desapareçam para que os pobres, ungidos por sabe lá qual graça, possam ser alçados a herdeiros completos da Terra. Conheço gente que não estudou nada e consegue, com muito mais facilidade e lazer, ter o mesmo desejo infantil e messiânico.

Um indivíduo diz que estudou uma vida toda filosofia (ou quase) e, então, quando você espreme, a única coisa que ele diz é que em todo lugar há ativistas reformistas ou revolucionários que pedem o bem e, no entanto, farão o mal. Então, é necessário identificar e calar tais pessoas.  Até Mussolini tinha ideia melhor.

Gostaria muito que essas pessoas soubessem que para serem desse modo não precisariam ter estudado. Muito menos um estudo de filosofia. A filosofia é para tornar as pessoas espirituosas, ricas de curiosidade, amplas no pensamento, criativas na imaginação. Tais pessoas dos grupos apontados nos dois parágrafos iniciais acima não são nada senão ciclopes surdos. Nada tem a ver com a filosofia, ainda que cheguem à mídia e insistam em denegrir a filosofia, colocando-se como filósofos. Não pode ser assim. Visão política limitada não cabe mais para o filósofo. Um filósofo da Guerra Fria, como Sartre, podia existir. Gênio filosófico, mas fanático político, como Rorty o qualificou corretamente. Hoje em dia, um fanático político perde logo qualquer capacidade de fazer filosofia. A politização mata tudo, e chega a matar primeiramente o filósofo. Aliás, o faz não conseguir sair filósofo da faculdade, ainda que ele pegue o diploma.

Um filósofo que não consegue ter gosto por organizações sociais e políticas diferentes da que botou na cabeça como sendo a melhor não é propriamente filósofo, ou seja, não é um amante do saber. Faz parte do amor ao saber ter capacidade de fazer experiências com o pensamento, e isso inclui também a experiência de se imaginar em reinos inusitados. Dou um exemplo simples: Platão não imaginou a sua cidade ideal como uma democracia, nem a de modelo antigo, que ele conheceu, nem qualquer sonho com a moderna, a democracia liberal. Ora, mas não podemos ser filósofos para conversar com Platão se não formos filósofos no sentido de podermos experimentar mesmo, para valer, com gosto, a cidade ideal dele. Pois Platão não criou uma utopia, Platão criou uma teoria da justiça de modo que a cidade fosse justa. Uma utopia, eu concordo, é uma sociedade na qual não cabe ninguém. Não é para ocorrer. É algo inviável de viver até mesmo no pensamento. Mas uma cidade teórica, como a cidade de Platão ou a democracia liberal de Rawls, podem ser vividas no pensamento, podem ser experimentadas. Se torcemos o nariz para elas, se não pudermos pensar segundo os moldes de um habitante de uma cidade platônica ou rawlsiana, não temos capacidade imaginativa para ser filósofo. Se não pudermos gostar (e, portanto, não gostar) de entrar nessas cidades, não devemos nos meter com o filósofo criador. Somos medíocres demais para sermos filósofos e não somos experimentadores, com gosto.

Quando vejo gente na mídia se dizendo filósofo e defendendo a direita ou a esquerda como “o certo”, sem condições de experimentarem cidades diferentes, amarem cidades diferentes, sei que aquela pessoa está se engando. Ela não aprendeu filosofia, muito menos filosofar. Dá para fazer coluna de jornal, mas só. E coluna chata, em geral sempre a mesma coisa.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 17/09/2016

 

Tags: , , , , , ,

7 Responses “O filósofo monotemático político é filósofo?”

  1. igor
    19/09/2016 at 19:57

    entendo professor… deve ser difícil ver novatos da filosofia se tornando celebridades na mídia e ficar assim segregado, voz solitária em blogs depois de dezenas de livros escritos, como é o caso do sr.

    • 19/09/2016 at 20:45

      Igor somos uma legião de não midiáticos, nós filósofos que não nos dobramos a partidos e ao dinheiro. Acho que você ainda não entendeu o que é filosofia, nem de longe. Filósofos não abaixam a cabeça para os donos da mídia. Agora, sobre meu blog, ele é independente, e tem leitores bons, mas também tem gente como você, que geme impotente e, por ser impotente, se agarra em gurus. Percebe o tipo de buraco que se meteu?

    • 19/09/2016 at 20:50

      É interessante que quanto mais uma pessoa critica a mídia – e a garotada de esquerda e direita sempre enxerga a mídia como “manipuladora” – é a que mais vai na conta de professor midiático. Os caras criticam a manipulação e depois acreditam que os que aparecem na mídia não estão comprometidos com partidos, dinheiro, presos por conta de empregos etc

  2. João Paulo
    19/09/2016 at 12:45

    Paulo,

    Há muito que gostaria de lhe perguntar se você considerava o trabalho do Safatle (se encaixa perfeitamente na descrição acima) era trabalho de filosofo.
    A resposta veio antes de eu perguntar, então, obrigado.

    • 19/09/2016 at 13:12

      João Paulo o Safatle é talvez o modelo mais acabado daquilo que temos de evitar de produzir. Produzir jovens como ele é condenar o Brasil ao ficar ainda mais na lanterninha da fila do mundo.

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    19/09/2016 at 09:41

    Prof. PAULO
    Tente imaginar a ausência total da pobreza material entre os homens, a inexistência absoluta de desigualdade entre os seres humanos ( de gênero, de orientação sexual, de faixa etária, de cognição, de conhecimento, de sabedoria, de etnias, de mitos, de tabus, de religião e tudo o mais) e entre espécies de animais ditos irracionais, de vegetais e minerais. Em outras palavras, se não houvesse a diversidade genética, física, química, biológica, psicológica, econômica, social, ambiental e mesmo epidemiológica. Parmênides venceria Heráclito. Mas tudo não seria um tédio? Penso que só assim, e olhe lá, esses filósofos proselitistas, censurados no seu texto, estariam próximos da extinção.
    Socorro-me em Raymond Aron para dizer que o proselitismo político, à esquerda e à direita, é o verdadeiro ópio dos intelectuais que assim agem.

    • 19/09/2016 at 10:09

      A tese de Parmênides não tira a diversidade do mundo, ela permite que possamos expressar enunciados verdadeiros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo