Go to ...

on YouTubeRSS Feed

18/12/2017

O filósofo leitor da Bíblia


“Professor, o senhor é ateu?”. “Todos os filósofos são ateus?”. “Filósofo Ghiraldelli o senhor acredita em Deus?”. Quando se é um filósofo como eu, que está na conversação comum e não escondido em colunas de jornais ou colunas da universidade, perguntas desse tipo têm de ser enfrentadas.

Claro que a cada pergunta desse tipo, não me furto de trazer a ironia à baila. O filósofo, desde Sócrates, é alguém que perde o amigo mas não perde a piada. Aliás, quando um filósofo faz o contrário, em geral ele é antes um verdadeiro covardão que o gentleman (que, afinal, é a capa falsa que ele usa para não se indispor e então arrumar sempre um bom emprego). Assim, em relação à pergunta “você acredita em Deus?” eu costumo responder: “Por quê? Ele deu de mentir agora?”

Todavia, a resposta correta, no meu caso, é a seguinte: “teísmo versus ateísmo” não é uma boa conversa para mim; eu não tomo o ‘crer em Deus’ como um problema, não é uma questão para mim a existência ou a não existência de Deus. Alguns não conseguem entender isso, pois acham que tudo que é um problema para eles deveria ser um problema para todos. Não sabem que, em filosofia, a discussão do Absoluto está em declínio ao menos desde o final do século XIX. Às vezes há até professores de filosofia que não se tocaram, ainda, que o “Deus está morto” de Nietzsche diz respeito ao fim da discussão séria em metafísica, estejam ou não as igrejas lotadas.

Todavia, não é difícil entender isso não. A filosofia é, ou era, uma busca pelo absoluto enquanto que a teologia é o estudo do próprio Absoluto – Deus. A teologia decaiu primeiro, depois veio a filosofia, ao menos enquanto metafísica. Vivemos hoje, ao menos desde Marx, Nietzsche e Freud – o trio da suspeita – envolvidos com a filosofia como uma narrativa que é diferente da literatura ficcional e da literatura científica, mas que já não tem como regra a metafísica o traço da literatura sobre metafísica. A filosofia é um gênero literário que procura descrever nossas atividades e o mundo segundo uma tradição que, antes, fazia investigação metafísica, a tradição criada por Platão. Todavia, hoje, a filosofia luta para dizer que ainda pode se manter atrativa mesmo que não possa prometer nenhum absoluto ao final de seu livro.

Há quem diga assim, como Comte, que uma filosofia que ultrapassou a metafísica não é mais filosofia e, portanto, que se chegue à fase de fim da filosofia para que se possa viver a fase científica da cultura. Outros disseram que a filosofia poderia apenas ser filosofia da ciência, uma espécie de metateoria da ciência. Outros falaram que ela ainda poderia ser ética, o estudo de posições normativas, mas que, mesmo nesse caso, estaria a reboque da sociologia e da psicologia. Houve quem a transformou em epistemologia agregada às pesquisas em psicologia ou neurociências etc. Mas nós, filósofos davidsonianos e rortianos, acreditamos que a filosofia é um gênero literário que é semelhante ao ficcional sem o seu necessário desvario, e é semelhante ao científico sem o seu apego desesperado ao experimento. A filosofia é o gênero literário que faz experimentos com o pensamento, que conversa e descreve experiências individuais, de grupos e de povos, e que, enfim, cria ficções sobre recepções de outras literaturas – a religião ou a política etc. – ou mesmo de literaturas filosóficas. A filosofia é história da filosofia e ao mesmo tempo não é. O filósofo é médico da cultura, ainda que sua farmacologia seja inaplicável.

Assim é que os filósofos contemporâneos, quase todos eles, se preocuparam em fazer a crítica da modernidade, ou seja, uma revisão do que havia se instituído como filosofia profissional, e em alguns casos quiseram até criar uma nova teoria que substituísse toda a filosofia. O marxismo e a psicanálise tentaram isso, ao menos por alguns de seus adeptos. Hoje, esse projeto morreu completamente. Marxismo e psicanálise são, novamente, coadjuvantes de filosofias que montam A Filosofia – a narrativa ou o gênero literário, entre outros, que não é da ordem da narrativa científica experimental e não é da ordem da narrativa da ordem puramente ficcional. A filosofia é o reino do erro. Só ela pode errar. As outras narrativas devem acertar. Os outros médicos possuem farmacologia positiva.

Assim, cada filósofo escolhe seus problemas – já que, afinal, o compromisso de resolvê-los não é sinônimo de promessa. Uns ainda escolhem Deus, mas não o fazem como no ateísmo de Feuerbach. Outros escolhem a metafísica, mas não podem mais agir segundo Kant ou Hegel. Outros, ainda, escolhem a justiça, mas estão longe de fazer um discurso fundacionista como o de Platão. Há os que escolhem a psicologia, mas não querem se reduzir à metapsicologia. As correntes filosóficas atuais aprenderam com Nietzsche que “não há texto, só interpretação”. Ou seja, aprenderam aquilo que Rorty resumiu falando da sua própria atividade: “eu apenas reajo a alguns livros que leio”. Eu complementaria: eu reajo aos que leio e, em relação a vários, eu não reajo.

O livro de Deus, a Bíblia, para mim, é leitura obrigatória. Não me ponho como crente ou não crente. Nem me ponho como antropólogo ou historiador para ler a Bíblia. Ponho-me como curioso, como filósofo. Minha pergunta é: do que estão falando aqui esses primeiros documentos da civilização, bem mais velhos do que seu parceiro grego, a Ilíada e a Odisseia? Quero conhecer o que disseram os que fundaram nosso mundo, do lado hebraico, e que depois se agrupou ao lado helênico para nos dar a Roma, que somos nós, ocidentais.

Leio a Bíblia porque sou culto e quero me tornar mais culto. E porque é uma leitura prazerosa, instigante, provocadora enquanto normativa. Leio-a também como deve ser lida: como muitos padres inteligentes nos ensinaram a ler, como um grande poema.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. – Aviso: o Hora da Coruja durante cinco semanas será ao vivo nas segundas às 22 horas. Na terça ele será gravado. Participe nas segundas!

Tags: , , , , , , , , , , , , ,

20 Responses “O filósofo leitor da Bíblia”

  1. Euclides Fidalgo
    07/10/2016 at 16:03

    Paulo, porquê que o conceito de filosofia é um problema filosófica????

    • 07/10/2016 at 17:07

      Uma longa história Euclides! Longa! Dê uma olhada no elogia da filosofia, do Merleau Ponty

  2. Aylton
    08/06/2016 at 00:18

    Certa vez li uns artigos que tinha cartas de Paulo a Sêneca e vice versa. Ora, os mesmos ( apóstolos) sabiam onde estavam vivendo e, ao menos nessa parte, tinham uma certa razoabilidade.Como filósofo, não leio a Bíblia para saber se crentes a praticam ou não, se estão certos com relação à interpretação da mesma e tal; no entanto me intriga quando Jesus fala: “você peca com o coração quando deseja a mulher do outro, já adulterou com ela” . Neste sentido, não seria errado colocar na bibliografia de uma disciplina de filosofia. Obs: lembrei do livro de ética do Frankena no qual aborda a ética cristã. Abraço esucesso

  3. felipe
    19/08/2014 at 18:19

    Parabéns, Paulo. Você é a prova viva de que todo esforço para melhorar é válido.Sem ironia nenhuma, mas tua qualidade de escrita melhorou muto, 100% mesmo. Antes tu não era dos mais virtuosos não, meu velho, mas deu um salto de qualidade bastante louvável.Continue.

    • 19/08/2014 at 20:08

      Ha ha ha Felipe é incrível que eu agrade quando escreva sobre assuntos que o leitor entende ou pensa que entende. E é incrível como que os que não me leem julgam minha evolução. Esse espaço do leitor às vezes é bom mostrar, aparece sempre o freak show individual.

  4. Thiago
    17/08/2014 at 12:40

    Paulo – desculpe-me a ignorância – qual o significado que o sr emprega na palavra “erro” quando dizes que “a filosofia é o reino do erro”? Por que os filósofos se empenhariam em algo que dará errado?

    • 17/08/2014 at 15:42

      Você não sabe que a investigação pode dar errado? Caso se soubesse seu resultado já se teria chegado. A investigação filosófica é autêntica, investiga-se para saber, mas, diferentes da ciência que produz tecnologia, a filosofia faz experiências com o pensamento, e se dá ao luxo de errar mil vezes, talvez nunca acertar.

  5. Luciano
    17/08/2014 at 01:34

    Nas aulas quando fazem estas perguntas ou chega nestes assuntos, digo que em um Ser absoluto e Perfeitíssimo é possível acreditar, difícil acreditar é no Deus que os religiosos mostram. Acredito ser difícil a criatura dizer de forma completa e objetiva do seu criador, pois se assim fizer inverterá o processo de gênesis.

    • 17/08/2014 at 09:44

      Luciano eis aí um problema filosófico, como em Descartes – a via ontológica e a via epistemológica, como nas Meditações. Esse é um dado da sua fala, que não sei até que ponto você mesmo sabe do que se trata em filosofia (Descartes etc.), pois não o conheço. Outro dado importante da sua observação é quanto ao Deus dos religiosos. Deus na Bíblia autorizou as duas formas. Primeiro se apresentou ontologicamente, como “eu sou (aquele que sou)”, depois, autorizou Moisés a falar dele como “o Deus de Abrahão etc etc. Deus deu a via teológico-filosófica e a via histórico popular ao mesmo tempo.

  6. Erivan Oliveira
    16/08/2014 at 10:47

    Paulo Ghiraldelli é sempre agradável a leitura de seus textos.

  7. Wagner
    15/08/2014 at 20:56

    Não é possível conhecer o que não é bíblia sem conhecer o que foi e ainda é a bíblia. Nietzsche, ao rejeitar a interferência do modo cartesiano de elaboração, escreve à moda antiga e não a sua moda.
    Tal competência, na antiguidade, carregava outro nome e era tida como vias para as manifestações do sagrado.

    • 16/08/2014 at 02:14

      Wagner Nietzsche conhecia mais que você e todos nós da Bíblia e dos gregos. Não era à toa professor de filologia. Agora, sobre o que ele disse de “Deus está morto”, isso NADA tem a ver com a Bíblia meu caro. O texto meu explicar bem. Mas se tem dúvida, recorra aos dois volumes de a Aventura da filosofia (Manole). Pegue o fio da meada por ali e então poderá avançar.

    • Wagner
      16/08/2014 at 09:01

      Não estou analisando a morte de Deus decretada por Nietzche. O que disse é que “es denkt in mir” já foi “movido pelo espírito santo” na antiguidade.

    • 16/08/2014 at 11:12

      Bem Wagner, aí você tem de ser mais claro, pois o que está dizendo não faz sentido para mim. Aliás, será que faz sentido para você?

  8. Jose Ildon
    15/08/2014 at 17:25

    Já me fizeram essa pergunta em sala de aula. Respondi que entre mim e Deus estava tudo bem. Inclusive tinha me despedido dele antes de ir para a sala. A aluna foi reclamar com a diretora, que veio reclamar comigo. Nesse dia, eu tinha levado a Bíblia em grego para mostra a grafia grega aos alunos de outra sala. Mostrei para a diretora e perguntei se ela sabia ler…

  9. Ademar Braga
    15/08/2014 at 17:19

    A filosofia pós Nietzsche retoma a problemática de parmênides e Heráclito; existe um principio de unidade por detrás das aparências da transformação constante? Se ela existe , ele é produto do espirito humano ou possui uma existência própria , independente da razão humana. Embates aos quais os sofistas se afastaram.

    • 15/08/2014 at 17:56

      Ademar de modo algum. A filosofia pós Nietzsche é nietzschiana, é perspectivista.

  10. 15/08/2014 at 16:13

    Prof. uma dúvida, é verdade que o apóstolo Paulo se inspirou em Platão para pregar e transmitir o evangelho da ressurreição?

    • 15/08/2014 at 17:57

      Enoque! São Paulo veio da terra dos estóicos. Estes tinham lá seu Platão sim. O neoplatonismo contaminou o cristianismo e vice versa. Mas Paulo tem lá sua interpretação pessoal, talvev muito mais de soldado romano do que de filósofo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *