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18/08/2019

O filósofo em 2015


Quando um filósofo começa a ter seguidores, a caminho de se tornar um guru, toda a sua função filosófica já se encerrou. Ele poderá percorrer com a memória sua vida e tentar descobrir em que momento sua vocação (se é que a tinha) se perdeu. Todavia, tentar recuperá-la é quase impossível. A boca torta provocada pelo cachimbo do público produz o autor. Infelizmente, para este tipo, não é a sua criação literária que se impõe, mas é o público que dirige qual o lixo deverá produzir. Ele é aquele que se engana  fácil ao ver os aplausos. Não percebe que é o medíocre, o conservador do interior do rincão perdido, que o está aplaudindo, dizendo “nossa, o senhor é corajoso, é um verdadeiro rebelde dizendo isso que diz”. 

Vendo alguns comentários ao programa Hora da Coruja, especialmente quando os convidados possuem sua claque, noto que tais observações são bem menos objetivas e produtivas que as apresentadas quando não há convidados. A conversação minha com a Fran traz o público interessado em filosofia, a conversação nossa com o convidado, principalmente no momento em que acirramos nossas questões e divergências, incomoda o seu público. Ou seja, não raro o convidado tem uma parte de seu público que é antes um grupo de seguidores que um público leitor crítico. Querem ver a “aulinha” do convidado, não entendem a dinâmica do programa. Ficam felizes se o convidado reitera aquilo que já escutaram dele em outro lugar, e que gostaram. Esses seguidores, uma vez em grande número, podem estar levando ou até já ter levado o convidado para a porta de saída da filosofia.

Em um clima como este, talvez seja interessante lembrar uma das observações de Peter Sloterdijk sobre o papel do filósofo. “A missão do filósofo na sociedade”, diz ele, “continua precisamente a ser essa: demonstrar que um sujeito pode ser um interruptor da informação e não um simples canal de transmissão que serve de passagem às epidemias temáticas e às ondas de excitação”. E fecha: “Os clássicos exprimem isso pela palavra reflexão”. O termo “sujeito”, nesse caso, tem sim uma conotação filosófica, conceitual. O filósofo pode, ele próprio, não conseguir ser um interruptor, mas ele não pode abrir mão de tentar criar uma narrativa que mostre a possibilidade da existência do sujeito como elemento interruptor.

Exijo mais de mim como filósofo. Tenho de ser eu próprio filósofo e sujeito. Dá-me nos nervos ver o fluxo de “epidemias temáticas e ondas de excitação” me atravessar. Torno-me deprimido quando percebo que posso estar servindo de leito de um rio que carrega as pessoas para a atividade do “bando”. Uma maneira positiva de ser o interruptor é o perspectivismo nietzschiano ou, melhor ainda, a contínua redescrição solicitada por Richard Rorty. Que tal uma outra narrativa? Que tal contar de outra maneira? Que tal até mesmo mudar de assunto? Que tala uma nova experiência com o pensamento? Essas perguntas, que raramente se associam à filosofia nos manuais, são boas perguntas filosóficas. São perguntas dirigidas não ao tema do assunto da conversação, mas diretamente a quem está na conversação.

São essas perguntas que os seguidores não suportam. Eles querem que o guru faça o mesmo discurso de  sempre para se sentirem inteligentes, uma vez que entendem a ladainha. Mas então aparecemos nós, Fran e eu, lá no Hora da Coruja, para interromper o convidado e dizer: vamos contar outra história. Eles, esse público de claque, imagina o convidado como entrevistado, mas ele não é. Eles imaginam o convidado como o sábio que irá fazer uma aulinha no estilo ridículo dos famosos “cafés filosóficos”. Eles querem que o programa não funcione em TV WEB, mas em TV tradicional, mas o programa é interativo. Então esperneiam e vociferam. Não suportam que nós, filósofos, que temos por função pensar, pensemos. Querem que o guru vomite verdades. Somos o interruptor disso. Quebramos, cortamos, paramos, invertemos, repomos, perguntamos, inventamos e fustigamos. Não pode! O guru como o Füher deve falar sozinho.

Temos feito do Hora da Coruja um espaço de expulsão de seguidores de gurus para podermos acolher gente interessada em filosofia. Temos feito filosofia. Em 2015 faremos mais ainda.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

1 Sloterdijk, P. O sol e a morte. Lisboa: Relógio D’água, 2007, p. 72.

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6 Responses “O filósofo em 2015”

  1. José
    28/12/2014 at 02:02

    O filósofo Olavo seria um desses gurus da filosofia brasileira atual?

    • 28/12/2014 at 12:13

      José! Só um completo analfabeto funcional falaria de Olavo, um cara que não conseguiu terminar a terceira série (!), como um filósofo. Olavo é apenas um débil mental.

  2. LENI SENA
    27/12/2014 at 23:29

    Só o acompanho por causa disso, por bagunçar assuntos debatidos sempre numa mesma ordem.Qualquer assunto se torna interessante quando o que se fala realmente diz alguma coisa. Gosto de ti porque o que falas é sempre um absurdo a vista de um orelha seca, para o gaiato que vem aqui te cutucar ou mesmo o mané do you tube nunca vai fazer sentido o que tu falas. Só quem está dentro da conversação entende alguma coisa. Tô em falta com o hora da coruja vou aproveitar as férias e curtir os programas. Ah, a Fran tá me devendo um com a minha sugestão.

    • 28/12/2014 at 12:14

      Leni obrigado por ler minhas coisas, que são feitas para um público seleto. Cobre a da Fran a sugestão.

  3. Allan
    27/12/2014 at 22:05

    Belo texto, Paulo. É triste ver gente que se considera filósofo, e se acha o máximo por isso, alimentar tanto reacionarismo, ressentimento e inveja entre sua horda de bajuladores. Pra mim esse tipo não é filósofo em canto nenhum. Penso que um filósofo de verdade jamais se prestaria a esse tipo de atividade seja qual for suas posição política. A função da filosofia é fazer pensar e não ser usada como arma de doutrinação.

    • 28/12/2014 at 12:16

      Slotterdijk e Rorty possum um olhar aguçado para esse tipo de “profissionalismo” surgido até na filosofia.

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