Go to ...

on YouTubeRSS Feed

26/06/2019

O filósofo corrupto


As pessoas se corrompem por dinheiro e poder. O filósofo também, mas é mais fácil ele se corromper por carência.

Como se dá a corrupção dos homens? Bem, é relativamente simples. Alguém percebe que a vida se resume a ter dinheiro e, então, deixa qualquer outro valor de lado cedendo aos que lhe podem dar dinheiro. Alguém percebe que poder político ou algo próximo disso lhe dá prestígio e segurança, e acreditando que todos os outros valores são secundários a estes, cede a quem lhe pode proporcionar tais coisas.

Mas como é a corrupção do filósofo? É diferente!

O filósofo cede ao seu pequeno público, porque em geral é alguém muito carente.

A filosofia é um trabalho de estudo árduo e, não raro, solitário. Alguém assim não deve nunca ter um grande público, pois, se o consegue, por carência, nunca mais pode deixá-lo. Então, faz de tudo para agradar esse público cativo. Quando se dá conta, se é que isso ocorre, já está totalmente serviçal não mais da filosofia, mas simplesmente da mesquinhez do público que amealhou. Um público medíocre. Por que um público mais amplo que aquele da filosofia é sempre senão mesquinho, então medíocre.

Não existe filósofo não carente – como não existe ator ou professor não carente. Todavia, o problema é que o filósofo nunca pode sentir o gosto de uma pequena satisfação de sua carência. Caso isso ocorra, é difícil que ele não se corrompa. Filósofos devem ter um público não muito pequeno e não muito grande. Devem ter um público do tamanho da filosofia. Quando possuem nenhum público, tornam-se ou amargos demais e apenas capengas de cérebro, burocratas que entregam textos para contar pontos em agência de fomento. Quando possuem um público muito mais amplo que o da filosofia, deixam a condição de filósofos e se tornam ou escritores políticos ou de autoajuda ou simplesmente jornalistas ideólogos. Satisfeitos para além da conta em sua imensa carência, não suportam mais não ter uma claque. Nada escrevem, então, senão o que a claque quer ouvir.

A melhor maneira que o filósofo que caiu nessa armadilha corruptora possui para continuar a fazer isso e fingir para si mesmo que não saiu da filosofia, é a de publicar coisas aparentemente rebeldes. Torna-se panfletário. Fustiga estereótipos. Cria caricaturas para poder bater. E pior de tudo, já não analisa mais nada e não quer mais investigar e compreender a vida, apenas destila frases relativamente bombásticas. Torna-se ele próprio, então, a caricatura do filósofo. Seus livros se adaptam logo ao estilo visual de uma paródia da poesia concretista.

Ninguém pode escapar disso por sua própria decisão. Só um acontecimento fatal na vida de um filósofo o tira disso ou o impede de entrar nisso. E esse acontecimento é individualizado demais para que eu possa citá-lo.

Isso tudo, a corrupção, nada tem a ver com orgulho intelectual ou vaidade ou mesmo arrogância etc. Tudo isso é só a falta de um pai amoroso ou uma mãe atenciosa ou uma namorada gostosa ou um namorado disputado. Cria-se um monstrengo filósofo carente que poderia viver bem, mas, a vida lhe dá um trança pés e o coloca como guru da rebeldia dos tolos. E eis que ele experimenta o prazer de ser querido na proporção inversa dos insucessos de juventude, principalmente quando criado fora do mundo, em clausuras várias, inclusive a clausura do fracasso. Se isso ocorre, temos aí o filósofo aberto para a corrupção. Não vai conseguir vencer esse buraco negro que o sugará para todo o sempre.

Vi vários filósofos entrarem por esse estúpido cadafalso cósmico e não voltar mais. Só restou deles os cadáveres pendurados pela corda da ideologia.

Mas, não podemos esquecer, às vezes enforcados se tornam mártires.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

Tags: , ,

11 Responses “O filósofo corrupto”

  1. LENI SENA
    10/08/2014 at 20:49

    É engraçado que justo a carência atinja em cheio essa classe. É bem improvável que um filósofo tombado pela corrupção volte a ser somente filósofo. Enfim, na possibilidade de que isso ocorra, que tipo de filósofo seria?

    • 10/08/2014 at 21:08

      Leni Sena, um filósofo tombado não é mais filósofo. O filósofo para ser filósofo precisa manter o orgulho e, para tal, não pode viver de um afago de quem o toma antes como ideólogo que como filósofo.

  2. Caçapava
    09/08/2014 at 23:30

    O Zizek não é isso aí não, apesar de ter amplo público. Ou ser filósofo fica impedido de ser ideólogo?

    • 09/08/2014 at 23:44

      Filósofo é filósofo, ideólogo é ideólogo. Essa lição é tão básica que me sinto mal tendo de afirmá-la.

    • Caçapava
      10/08/2014 at 00:02

      Karl Heinrich Marx

    • 10/08/2014 at 10:49

      Piorou Caçava, este realmente era avesso à corrupção. Marx preferia perder público que ganhá-lo, quando chegava às conclusões duras de engolir. Aliás, foi realmente isso que ocorreu com ele. Caçapava, uma sugestão, leia os dois volumes de A aventura da Filosofia.

    • Caçapava
      10/08/2014 at 00:04

      John Locke, …

    • 10/08/2014 at 10:47

      ha ha ha não! Não Locke.

    • Cesar Marques - RJ
      10/08/2014 at 05:19

      “Filósofo é filósofo, ideólogo é ideólogo.” – Então o Sartre, não era Filósofo?

    • 10/08/2014 at 10:47

      Cesar ele pagou um preço alto por conta da ideologia, não acha? Outros não pagaram igual? E Foucault? Ele foi fazer a matéria jornalística sobre a Revolução do Irã, elogiou tudo aquilo e, depois, arrependido, disse que nunca mais escreveria para jornal. Leia uma entrevista do Rorty sobre Sartre, que preparei e traduzi para um caderno da Folha especial sobre Sartre. Rorty explica bem a situação de Sartre.

  3. Maria Madalena
    09/08/2014 at 23:28

    Excelente, sem mais palavras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *