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26/09/2017

O filósofo contra a ideologia da mídia


Nos anos oitenta o tema da filosofia era a ideologia (só perdia para o tema da dialética). Hoje poucos falam nisso. Aliás, hoje há até confusão entre filosofia, doutrina e ideologia. Como o filósofo perdeu de vez a “perspectiva do Olho de Deus”, ou seja, aquela perspectiva que não era uma perspectiva, então agora toda vez que se faz filosofia, tenha ela um rabicho de doutrina, então terão também de ideologia. No limite, então, a filosofia nem mais se diferencia da propaganda.

Sou filósofo da velha guarda. Não penso que meu perspectivismo nietzschiano-rortiano-davidsoniano, por não admitir a neutralidade do positivismo ou a capacidade de olhar por meio do Olho de Deus, está desautorizado em dizer que filosofia e ideologia não se confundem.

A filosofia pode muito bem se colocar como quem detém instrumentos de desmonte da ideologia. Para fazer isso com certa legitimidade, basta que ela não endosse a contra ideologia. Ou seja, basta que seja capaz de apresentar em que pontos estão os mecanismos tradicionais do discurso ideológico em uma narrativa, tomando o cuidado para que esse seu exercício não seja, ele próprio, uma forma de transformar o leitor em um novo deslumbrado e, então, já vítima desses apontamentos e preso então à nova ideologia. Afinal, tirar poder de um discurso pode se transformar em investidura de poder.

As técnicas de desideologização não são complicadas. Citei-as em outros artigos aqui neste blog e fiz uso delas de modo a criar exemplos pedagógicos para jovens que começam seus estudos filosóficos. Discuto aqui outro elemento. Trata-se da tomada de posição.

A tomada de posição como exigência da inteligência é uma rede ideológica. Um exemplo? Dois: as propagandas da Veja e da Folha de S. Paulo atuais. Ambas dizem explicitamente isso: ser bem informado e inteligente é ter posição. No caso da Veja, a posição tem de ser a dela. Aí você é inteligente. A da Folha, a posição tem de ser a dela ou, se não for, pode ser de outro que ela publica – ela diz que publica posições de outros, diferentes da dela, para você ter seu cardápio. Nos dois casos, ser inteligente é ser o contrário do sugerido pela filosofia, tanto em Platão quanto em Kant, que é pensar por sua própria razão. E mais: ser inteligente, para essa mídia, é ter uma verdade, uma posição terminada sobre cada coisa. Quem suspende seus juízos e quer investigar mais, não tem opinião e, portanto, não sabe conversar e não sabe pensar.

Filósofos dizem o contrário da Veja e da Folha, felizmente: ter opinião ou ter posição importa bem menos que ter espírito investigativo. Não digo espírito cético, no sentido amplo da palavra. Digo espírito filosófico, aquela disposição socrática para investigar o sentido das coisas, ou a posição romântico-moderna que busca produzir sentido para as coisas. Em ambos os casos, há a liberdade do erro e a felicidade de não conseguir, ainda, acertar ou fixar posição.

A propaganda da Veja e da Folha são ideológicas, claro, mas ao mesmo tempo mostram tudo no sentido de nos darem instrumentos para desmontar a ideologia. Afinal, quem pode levar a sério aquele que força a ideia de que temos de estar posicionados ou decididos?

A questão toda da ideologia da mídia está na concepção de como se obtém a verdade. Para o jornalismo, já há algum tempo, a verdade tem a ver com a imparcialidade, e esta está umbilicalmente ligada a um esquema dual: o mundo tem dois lados e se ouvirmos os dois então a verdade emerge naturalmente.

Esse esquema é ideológico, falso. O mundo não tem dois lados. Nem muitos lados. O mundo não necessariamente é feito de lados. A metáfora espacial para “o nosso mundo” não implica em se ver o mundo como um cubo, nem mesmo como esfera. Não é em uma dancinha de piriguete jornalística que vamos encontrar o que dizer em uma reportagem. Mas o jornalismo fica nisso. Não pode dar crédito para a filosofia, só para a ideologia, pois então se desautorizaria, e por isso mesmo fica eternamente na proliferação da ideologia.

O filósofo é diferente de quem vê lados, ele vê o arranjo da dança como um todo, e notar o sentido que os movimentos dos corpos imprimem ao conjunto apresentado. O filósofo é um coreógrafo do ser. Nisso, é o que não tem como fazer ideologia.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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4 Responses “O filósofo contra a ideologia da mídia”

  1. leandro
    04/08/2014 at 09:56

    “Mas o jornalismo fica nisso. Não pode dar crédito para a filosofia, só para a ideologia, pois então se desautorizaria, e por isso mesmo fica eternamente na proliferação da ideologia”. Então o problema é com o gênero jornalístico em si? Não existe a possibilidade de um bom jornalismo? Em outras palavras, dentro do jornalismo não há salvação?

    • 04/08/2014 at 14:22

      Leandro fizemos vários Horas da Coruja sobre jornalismo.

  2. Roberto William
    02/08/2014 at 17:07

    Não estou ironizando; eu gosto quando você escreve mais de um artigo sobre um mesmo assunto. A primeira vez que li sobre essa coisa de “desideologização” me pareceu algo estranho. Mas agora esse tema soa familiar. Sem contar que um artigo facilita a leitura do outro!!

  3. vera bosco
    02/08/2014 at 16:37

    Ainda vou aprender a dançar devagar “só para te acompanhar”.

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