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26/09/2017

O filósofo bobo da Corte


Ou se conhece Platão corretamente ou não se é filósofo. Todos nós sabemos disso. Todos nós, filósofos, não conseguimos não citar a frase de nosso colega de profissão Alfred North Whitehead: “A história da filosofia nada é senão um conjunto de notas de pé de página na obra de Platão”. Citamos e acreditamos nela. Conhecemos Platão o suficiente para saber da verdade da frase. Mas, infelizmente, nunca levamos a sério o mais terrível ensinamento de nosso pai e patrono, aquilo que está escrito na “Carta VII”.

As Cartas de Platão são consideradas como de autoria de outros, não de Platão. Mas a “Carta VII” tem lá seu prestígio como sendo, talvez, a única vinda realmente do filósofo dos ombros largos. Um dos temas da “Carta VII” é a “doutrina não escrita” de Platão. Giorgio Agamben escreveu sobre ela, produzindo um dos textos mais instigantes que já li. Trata-se de “A coisa mesma”, publicada no Brasil no interior do livro A potência dos pensamento (Autêntica), em 2015, sendo que o original em italiano foi publicado em 2005. O outro tema importante da “Carta VII” é a amizade (amor?) do autor com Díon, e isso relegado ao um segundo plano pelos filósofos, tomado como mera “peça autobiográfica”.

Caso fosse uma carta de Epicuro, Zenão de Citium ou Epíteto, teria lá recebido atenção de alguns filósofos. Afinal, hedonistas antigos e estoicos fizeram da filosofia um recado sério a respeito do como viver. Diferentemente, Platão seguiu a via posta por ele próprio na Academia, a prática do saber viver a partir de uma vida voltada à reflexão. A Academia de Platão, afinal, gerou o “academicismo”, um termo que quer dizer o apego à teoria e não à plicação. Aristóteles, fruto desse ensino, chegou mesmo a definir a curiosidade humana e a reflexão filosófica como o que é a essência da vida feliz. Sendo assim, criou-se a tradição de se ler Platão sem levar em conta aquilo que ele escreveu a respeito de seus infortúnios do cotidiano. Desse modo, o revelado na “Carta VII” para além da “doutrina não escrita”, que é a bateção de cabeça de Platão e de Díon diante de dois tiranos de Siracusa, que eles quiseram assessorar e ensinar a governar em aliança com a filosofia, é posto como sendo “curiosidade biográfica”. A maior parte dos leitores, inclusive os melhores, pelo que sei, nunca notaram que a própria “doutrina não escrita” só ganha seu sentido último se lida à luz da sua inapreensibilidade pelos governantes. Tudo corre , nessas leituras enxutas demais, como se Platão não estivesse, ali na “Carta VII”, reiterando o que já havia feito no Banquete, mostrando o quanto a figura do general e político Alcibíades não havia aprendido nada de Sócrates.

Os infortúnios de Platão com os tiranos de Siracusa foram tão terríveis que, num deles, ele acabou sendo vendido como escravo! Platão escreveu sobre isso exatamente para mostrar aos filósofos que a “doutrina não escrita”, ou seja, a parte da passagem do Conhecimento do Abstrato para o Conhecimento das Formas, por um trajeto de uma dialética máxima, não pode mesmo ser entendida pelo político, e que se o filósofo ousar tentar, irá se tornar propriedade do governante. Tornar-se-á escravo. E escravos podem ser vendidos. Pois já antes de tudo se venderam. Esse é o ensinamento da “Carta VII” que muitos filósofos não querem ver. Inclusive, alguns no Brasil nunca quiseram aprender com Platão esse dado essencial. A “Carta VII” explica a “doutrina não escrita” exatamente para que fiquemos sabendo de sua incompatibilidade com a política e com os políticos, pois se trata de uma doutrina da verdade como elemento imutável, algo completamente estranho à prática de comando da cidade.

Desse modo, FHC e Lula tiveram seus filósofos, os quais eles transformaram em escravos e realmente os colocaram à venda. Li na Folha, inclusive, que há “um filósofo ligado à Marina”. Coitado, mais um escravinho a ser vendido. A cada pensador que se une a um político para influenciá-lo me vem à cabeça uma única coisa: esse aí não entendeu nada da filosofia do mestre dos mestres, Platão. Não entendeu o essencial, o que está na “Carta VII”, na articulação entre filosofia e desespero.

Vi alguns filósofos se tornarem capachos da política e dos políticos a ponto de já não enxergarem os crimes desses seus tiranos. Mas vi também alguns filósofos, por conta da política e dos políticos, perderem o juízo e começarem a dar declarações que deveriam ser retribuídas com camisa de força para eles. Homens comuns quando perdem a razão podem ficar nervosos ou loucos. Um filósofo quando perde a razão, antes de tudo, deixa de ser filósofo. Todo passo do filósofo que atravessa a soleira da porta indo para o interior da residência do político é um passo de abandono da filosofia e do início da desgraça. O filósofo militante não é filósofo. Ele é o principal candidato a bobo da Corte.

O recado de Platão na “Carta VII” é decisivo: não se é escravo de um homem apenas, mas de ideias, principalmente a ideia de que é possível ensinar ideias a alguém com interesse político. Fica claro isso quando atentamos para o fato de que Platão foi vítima de dois tiranos, pai e filho, e não apenas um. Ele quis deixar para a posteridade esse fato, de ter sido escravo de dois, de modo que o problema todo não estava no tipo de tirano. Eis a lição que ele quis deixar: não foram os tiranos que o prenderam, mas a sua própria ideia de que seria possível praticar no palácio a filosofia e torná-la guia de governo. Essa ideia é que o fez escravo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 16/07/2017

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19 Responses “O filósofo bobo da Corte”

  1. Adriano Apolinario da Silva
    26/07/2017 at 20:45

    Eu precisava ler isto. O melhor texto que li este ano.

  2. LMC
    19/07/2017 at 12:05

    Se Marx fosse brasileiro hoje,chamaria
    o impeachment de Dilma de golpe,seria
    colunista da Carta Capital e tocaria
    violão com Chico Buarque.kkkkkkkkkkkkkk

    • 19/07/2017 at 12:24

      LMC acho que você NUNCA leu Marx. Nem mesmo o Marx em quadrinhos. É uma pena, dado que você posa de sabichão.

    • LMC
      19/07/2017 at 14:21

      Não,PG.É que muitos marxistas no
      Brasil se encaixam nesse perfil
      que escrevi acima.Não o Marx,claro.

    • 19/07/2017 at 14:28

      Você disse Marx! Admita, errou.

  3. Ezequias costa
    18/07/2017 at 16:24

    Quê belo comentário Paulo parabéns, essa é uma grande verdade, quando o filósofo deixar se induzido pelo qualquer sistema, corrupto, ele realmente se torna bobo do sistema.
    Um abraço.

    • 19/07/2017 at 12:25

      É um ensinamento de Platão, sobre seu próprio infortúnio. Um ensinamento para o qual fechamos os olhos.

  4. LMC
    18/07/2017 at 11:55

    Pensador de partido é mais velho
    que andar pra frente.O Marx que o diga.

    • 18/07/2017 at 13:47

      Marx não era pensador de partido, de onde tirou isso? Marx foi justamente o oposto do pensador de partido.

  5. Ciro
    18/07/2017 at 09:46

    Professor, permita-me um comentário de boteco: eu já o admirava como autor (desde A Aventura da Filosofia), mas, agora que vi o vídeo do rachão de basquete, sou teu fã!

    • 18/07/2017 at 09:59

      ha ha ha Ciro, eu estou no campeonato paulista 3×3, e não é na categoria senior não, é a “open”, com os jovens.

  6. 17/07/2017 at 23:51

    Eduardo Gianetti da Fonseca é o nome do sujeito. Sempre ouço alguma entrevista dele dada à rádio CBN, elogiando, babadamente, a xamã da floresta, Marina Silva

    • LMC
      19/07/2017 at 16:12

      E o Haddad na Folha
      da última segunda,hein?
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  7. 17/07/2017 at 21:28

    Deixa eu ver se entendi. Vc é o filósofo da intercessão?O espaço que existe entre as “pororocas”? O meio? Se for, procuro aprender filosofia assim, mas consciente que o equilíbrio oscila para um lado e para o outro. O alvo é o encontro dos meios.

    • 18/07/2017 at 00:14

      Não, Ricardo, na teoria da Sloterdijk não há intercessão. Se quiser entender, sugiro meu livro “Para ler Sloterdijk”

  8. Rodolfo Peroche
    16/07/2017 at 11:30

    Eduardo Boff se vendeu barato!

    • LMC
      17/07/2017 at 10:41

      Leonardo,Leonardo Boff,Rodolfo.
      E quem é esse filósofo ligado a
      Marina,PG?

    • 17/07/2017 at 10:54

      Todo dia aparece um, é o papagaio de pirata da vez, coisa como o Gianotti com o FHC e Marilena com Lula etc. Acho que é o tal do Gianetti. O Pondé quer chefiar o “Partido Novo”. E por aí vai. São ideólogos.

  9. 16/07/2017 at 09:54

    Gostei muito deste artigo, uma lição preciosa que Platão nos dá, sempre comento isso com meus alunos do ensino médio, que a filosofia não é partido político, que o filósofo não deve se sujeitar a uma ideologia política ou partido. Afinal a filosofia abre portas, e não as fecha.
    Está carta foi publicada em um belíssimo livro intitulado “Amigos e Inimigos: como identificá-los” (editora Landy) junto a cartas de Cícero e Plutarco.

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