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11/11/2019

O fetichismo do dinheiro: todos só somos saudáveis se somos verdes


Em A felicidade paradoxal, Gilles Lipovetsky acerta a mão ao descrever as fases do consumo moderno em correspondência às fases da produção industrial. É difícil discordar dele quando nos diz que vivemos um consumo que não é mais “para o outro” e sim “para si”. As pesquisas realmente mostram, hoje, um consumidor menos preocupado em provocar inveja e reiterar status social, ou criar distinções classistas, que um consumidor voltado para a curtição de experiências individuais e prazeres um tanto solitários e, digamos, pessoais.

Assim, hoje em dia seria mais fácil endossar teses sobre o narcisismo social, tendo no horizonte Christopher Lasch, que falar do consumo conspícuo, bem recortado na sociologia de Max Veblen. Todavia, estaríamos nós proibidos de voltar a Marx, e perguntarmos se sua análise do capitalismo – em especial as teses sobre o fetichismo – não seriam úteis aqui? É difícil calar o marxismo nessas circunstâncias.

O consumidor do passado, da fase da produção fordista e, enfim, também da fase pó-fordista de mercadorização de sentimentos e disposições, nada era senão aquele que aprendeu a guiar-se pelo fetiche da mercadoria. De fato, a mercadoria passou a funcionar como o vivo, e nós, os humanos, ficamos como o mortos diante dela. Ela adquiriu a condição de sujeito, e nós nos pusemos como objetos. Voltar à vida, então, nos fez imitar o fetiche, ou seja, a mercadoria. Mercadorizamo-nos para voltarmos a sermos gente! Imitamos os objetos para nos sentirmos sujeitos. Até pouco tempo, toda a crítica social se via na obrigação de denunciar nosso óbvio comportamento esteriotipado, maquinal, feito objeto, ou então de meros zumbis. Mais recentemente, no entanto, o horizonte do fetiche da mercadoria tem ficado mais distante. O fetiche do dinheiro o substituiu.

A partir de Nixon, que em 1971 retirou o dólar de sua condição de atrelamento ao padrão ouro, o dinheiro americano – ícone e mandatário do dinheiro no mundo – se viu liberto para exibir toda a sua autorreferencialidade. O dinheiro, desde então, não mais significa algo a não ser ele mesmo, um número de conta. Isso favoreceu enormemente o capitalismo financeiro, que passou a se utilizar de uma moeda completamente fiduciária, gerada agora, em tempos de internet, apenas pelo fluxo magnético, o ideal para tempos em que o que vale não é ciclo D-M-D’, e sim o ciclo D-D’, o do dinheiro que gera dinheiro. Esse tipo de capitalismo, chamado de “era do capital improdutivo” ou de vigência do “capitalismo de cassino”, fez vingar uma fetichização ainda maior. Agora, se o valor não dá mais base para o fetiche da mercadoria, ele alimenta o fetiche do próprio dinheiro. O vivo a que temos que imitar não é mais a mercadoria, e sim o próprio dinheiro. A autorreferencialidade do dinheiro é o que nos mostra o que é ser “gente”. Somos alguém se exercemos a autorreferencialidade. Somos alguém se  somos imitadores do dinheiro. Ainda de nós se nos comportamos sem a virtualidade do dinheiro!

Se o dinheiro anda depressa, também nós devemos fazer o mesmo. Se o dinheiro é onipresente por ser dinheiro magnético, também nós desejamos ter uma vida como ele, única e exclusivamente virtual. Que sejamos avatares! Se o dinheiro participa do cassino da bolsa, também nós nos sentimos vivos se o dia todo estamos em algum jogo no celular. Se o dinheiro se reproduz sem trabalhar, também nós achamos que podemos fazer o curso de empreendedorismo para acordarmos no sonho que, agora, nem é mais o de sermos empresários, mas o de sermos “pequenos investidores”! Ou “médios investidores”! Temos de curtir nosso creme e nosso novo vestido diante do espelho. Temos de curtir o que comemos no Facebook, postando para nós mesmos nosso prato preferido em um falsa rede social de amigos que não temos. Nossa vida prenhe de narcisismo espelha a autorreferencialidade do dinheiro atual, também ele um umbigo do mundo.

A cada dia, não mais nos relacionamos com o outro. O outro seria fruto de um mundo de um reino passado, o do fetiche da mercadoria. Afinal, mercadorias ainda possuem materialidade física e algum diferencial de aspecto. Ora, o dinheiro, diferentemente, não se diferencia a não ser por zeros a mais. A abstração máxima, agora, torna-se realidade da vida. A ideologia – que indica um mundo regido pela abstração fora da mente, nas relações sociais – se materializa em condições que atinge todos. Entramos para o mundo no qual nossa subjetividade, se existe ainda, é tornada verde, como o dólar. Ou é verde, ou não tem cor alguma. Ser verde -vômito indica, agora, ser saudável.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo.

7 Responses “O fetichismo do dinheiro: todos só somos saudáveis se somos verdes”

  1. Meiriele Pereira
    13/06/2019 at 10:08

    Vim parar aqui pelo Canal no Youtube. Gosto muito de filósifia, porém tenho dificuldade por onde começar a estudar. Alguma dica de Livro para iniciantes? Grande abraço, Professor!

  2. PAULO ALTINO FREITAS DA CRUZ
    10/06/2019 at 21:53

    Professor Paulo, esse termo “autorreferencialidade do dinheiro” é um termo marxista ou é criação sua, a toque do livro de Dowbor? Parabéns excelente texto…!!!

    • 18/06/2019 at 07:18

      Nada além do que um termo comum, eu o uso e outros também

  3. Valter
    08/06/2019 at 15:02

    Professor, muito bom o artigo. Quando disse em 1971 houve a exclusão do padrão ouro, e com isso sua autorreferência, considero que ainda permanece alguma ligação com governos e seus bancos centrais. Nesse ponto imaginei o advento das criptomoedas, onde nem vinculação com bancos centrais, nem a países há. Seria essa a autolibertação total do capital?

  4. adenilson
    08/06/2019 at 11:18

    Muito bom Professor, descreve exatamente o momento que vivemos, o artigo soou quase poético e profético.
    Grande abraço e obrigado.

  5. 08/06/2019 at 02:31

    Caramba…um dos melhores textos que já li na minha vida. Vim aqui por seu vídeo no canal.
    Vou imprimi-lo e colocar-lo no mural.
    O conhecimento liberta mesmo.

  6. Daniel Vargas
    08/06/2019 at 00:08

    Paulo, escreva um conto alla Rosa com este artigo, seria muito legal!!!! 😉 Continue divulgando as suas idéias!! Abraços!!

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