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22/09/2017

O feminismo não entende nada de mulher? É verdade?


Para doloridas amigas feministas

“O feminismo não entende nada de mulher” não é uma frase simplesmente pedante, mas fundamentalmente inculta. O objetivo do feminismo nunca foi o de “entender a mulher”, mas de construí-la. Antes do feminismo tínhamos mulheres, segundo o nome “mulher”, mas não seres humanos mulheres, e sim apêndices sociais. Após as lutas por “direitos das mulheres”, levadas adiante por ondas de diferentes tipos de feminismo, nasceu a mulher. A mulher então ganhou de fato sexo e gênero, não só gênero.

A mulher ganhou sexo porque o sexo da mulher passou a contar. Contar a partir dela! A mulher passou a ser vista como gênero, ou seja, como um bípede-sem-penas com identidade social específica. Surgiu então, finalmente, a mulher. Só então Eva veio ao mundo, só então Adão passou a ter uma companheira, como pediu a Deus, pois só agora Eva poderia dizer se queria ou não aquele companheiro. Até então ele, o homem, em especial o homem moderno tão bem caracterizado no seu nascimento pelo personagem Dom Quixote, somente tinha um Sancho Pança.

Freud perguntou “o que as mulheres querem” sem saber da existência das mulheres. A mulher de seu tempo ainda não tinha identidade de gênero e seu sexo era pouco desenvolvido, não tinha status e nem independência para ser usado como elemento da mulher, caso ela quisesse. Só com o século XX as antropotécnicas, como diz Sloterdijk, deram continuidade de modo a gerar a mulher, e não só aquela progenitora que havia virado mãe. A mulher moderna passou a “agir como homem”, depois, começou-se a perceber que não era bem isso, que ela era então bem diferente, agora sim, mulher. A mulher tornou-se mulher no século XX.

Há toda uma psicologia e uma antropologia e uma sexualidade da mulher. Mas isso, que alguns acham que é segregação, como se antes também houvesse, é uma grande modificação, pois só passou a existir agora, há menos de cem anos, com o advento da mulher. Querer encontrar a mulher antes do feminismo é como querer encontrar a infância antes de Rousseau ou encontrar o proletariado antes de Marx ou encontrar inconsciente antes de Freud ou o Neanderthal antes de Darwin e assim por diante. A mulher é proprietária de disposições sexuais e de identidade de gênero, e agora sim, com isso, é mulher; é Eva que pode, se quiser, ser companheira de Adão.

Tudo isso é sabido por pessoas cultas. São aquelas pessoas que sabem que a palavra “machismo” explica pouco ou nada, e que há grupos de feministas que são incultas e que não conseguem entender essa questão da da mulher como uma construção semântica-social, e que imaginam que não podem ser mulher sem serem militantes de algum feminismo raivoso. E é nesse contexto que se faz necessário entender o que são “estudos de gênero”.

Estudos de gênero seriam um forma de antropologia-sociologia-teoria-da-mídia voltada para esse processo de constituição da mulher, da criação da mulher. Estudos que viessem a falar do “parque humano” e de descrições de antropoténicas com especificidades para a criação dos desdobramentos do que virá a ser a mulher. Todavia, o domínio de certas ondas feministas nesse campo, de caráter militante, trouxeram para os estudos de gênero todo o dogmatismo que sempre aparece em um campo acadêmico quando ele perde a autonomia para o movimento social correspondente. Assim, nos estudos de gênero, a mulher cedeu espaço, e praticamente desapareceu, para o seu contendor imaginário, este que inicialmente veio apenas como um “maldoso favorito” de de passagem. Ele ganhou a cena, empurrou a mulher de lado. Passou a ser o objeto e o algoz a ser estudado. Seu nome: sociedade patriarcal. Às vezes também aparece como “sociedade patriarcal capitalista”. E quando o cliché que ser mais ridículo do que já é, pode ser “sociedade patriarcal capitalista machista e opressora”.

Esse tipo de coisa fez alguma mulheres a deixarem de agir como homem, que não busca nunca dizer “ele me representa” ao ver outro homem, como a mulher desse tipo de grupo faz quando vem outra mulher. “Ela, Marcela, não me representa”. Nenhum homem diria, pensando em Temer como homem, “ele não me representa” ou “me representa”. As mulheres feministas de hoje caíram nessa, regrediram.

O que faz esse elemento, “sociedade patriarcal”, nos estudos de gênero? Ele cria o polo negativo que sufoca a mulher. Ela e sua constituição histórica somem diante desse elemento que, na negatividade, na pura negatividade, criou a mulher, ao menos segundo essa narrativa de cacoete dos estudos de gênero. Tal elemento não a deixa emergir, mesmo que ela já tenha emergido e as feministas não saibam ou queiram fingir que não sabem. E no âmbito das narrativas, esse elemento aparece no início e no fim. Ele é o que é investigado, e ele é o que deve explicar a investigação, e ele é que é o protagonista ao mesmo tempo o herói e o bandido. A maioria das narrativas de estudos de gênero se fazem já tomando tal coisa como uma petição de princípio. E assim, ao final do texto, chega-se à conclusão esperada, a que já se possuía desde o início: as mulheres, com muita luta, um dia poderão ser mulheres, ao derrotar a “sociedade patriarcal, capitalista, machista e opressora”. Nessa hora, a narrativa sobre gênero vira uma piada de mal gosto. Uma parte grande dos livros de feministas e scholars desse assunto é isso. É chato. As que têm coragem intelectual deveriam levar a sério meu texto e reler seus trabalhos.

O cânone obrigatório a que estão submetidos uma parte nada pequena do textos de estudos de gênero, repetem essa fórmula militante e anti-acadêmica. Prova-se o que já era uma petição de princípio. E o pior: impregna-se com essa modus operandi tolo um bocado de outras narrativas do campo em ciências humanas, voltados para outros temas, mas com elementos e características correlatas. Todo estudo sociológico que envolve minorias, então, ganha esse viés estragado. O resultado é que os conservadores menos tolos pegam logo o calcanhar de Aquiles dessa moças feministas de hoje e passam a fustigá-las fazendo troça. Elas, donas de imensa incultura e cabeça fechada, quanto mais abrem a boca, mais se enterram.

Seria necessário sair disso. Mas, para tal, as scholars dos estudos de gênero teriam de sair do cânone adotado. Teriam de ler coisas novas. Precisariam de um banho de teoria para tirar a sujeira ideológica. Deveriam, antes de tudo, perceber a complexidade do movimento entre preconceito, conceito e pós conceito. São três elementos que sobrevivem no mesmo plano, quando não percebemos isso e ficamos só na luta contra o preconceito, tornamo-nos defasados, anacrônicos e, para certos observadores, gente que não sabe de nada. A mulher já nasceu e já existe, e se as feministas não perceberem isso, continuarão a passar do ridículo ao ridículo, como o que vem ocorrendo já faz  algum tempo.

As mulheres já nasceram do mesmo modo que a infância já existe, ainda que muitas crianças não a tenham. O negro já nasceu ainda que muitos ainda vivam com o preto escravo ao seu lado. Os gays não só existem como se diversificaram de modo que ninguém mais aceita uniformização para se dizer pertencente a um novo estilo de vida, tanto é que a juventude não fala mais que vai gosta de X ou Y, mas o jovem diz “gosto de pessoas”. E isso num mundo em que muita gente diz que gosta “só de mulher”. O pós conceito é uma realidade. A mulher é um conceito que se desdobra agora, com sexo que se põe e gênero que se faz presente, nessa dialética entre conceito e pós-conceito. Falar de preconceito, agora, é algo que deve ser feito com cuidado. Cuidado semântico, ou seja, inteligência para sabe que há mulheres não só aquém do feminismo, mas muito além.

Terão minhas colegas que estudam gênero coragem para enfrentar esse desafio que descrevo? Ou irão se refugir no biombo do personagem “sociedade patriarcal” que criaram?

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 07/11/2016

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4 Responses “O feminismo não entende nada de mulher? É verdade?”

  1. 30/11/2016 at 15:35

    Professor:
    Eu não atuo assim diretamente na causa feminista. Pelo menos não como deveria.
    Sempre tive uma sensação estranha com essa causa.
    Me parece faltar alguma coisa.
    Eu vou, empodero meninhas novas, desconstruo “princesas”, oriento, explico, converso e tento abrir um pouco as cabecinhas.

    Mas estou falando de meninas pobres, meninas invisíveis, meninas negras de comunidades. Não de meninas mimizentas que nunca passaram fome na vida.

    Esse assunto de gênero ainda é muito complexo para mim.

    Mas enfim, acho que o senhor me respondeu em seu texto o porque a “causa” feminista não me atrai. Muito obrigada.

    desculpe o textão.
    Abraços !!

    • 30/11/2016 at 17:33

      Ana, toda vez que o feminismo fica muito “ismo”, ele atrapalha.

  2. Silvia
    20/11/2016 at 02:31

    Falando nisso, o senhor concorda com a opinião da Sasha Grey sobre feminismo nessa entrevista?: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/07/bsasha-greyb-eu-gostava-de-fazer-pornografia.html

    • 20/11/2016 at 09:07

      Sílvia, o que eu falo é de uma perspectiva da filosofia.

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