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27/03/2017

O fascismo sem fascistas


Há dois tipos de pessoas: os que buscam soluções para problemas e os que querem eliminar aqueles que eles acham que são problemas. Esse segundo tipo alimenta o fascismo. No Brasil atual, após certa quietude, eles voltaram a botar a cabeça para fora.

Não estou dizendo que são fascistas, aliás, podem até se intitularem de liberais conservadores ou mesmo de esquerda, mas fazem contribuições aqui e ali e engrossam o caldo de um modo de vida fascista. Quem são essas pessoas? São os que incentivam aquilo que o professor de filosofia argentino, Jorge Mario Bergoglio, chamou de “a cultura do descarte”.

Há um cãozinho doente? Vamos descarta-lo na rua ou então sacrificá-lo. Há um travesti ousando posar como Jesus, que é um santo só nosso? Então vamos tirá-lo da jogada. Há uma moça que engravidou? Ah, simples, vamos matar a criança antes que saia da barriga. A moça está repetindo o ato? Então vamos jogá-la na prisão. E aquelas crianças negras que vivem fazendo pequenos furtos pelo bairro, será que não vão logo estuprar alguém? Isso é mais fácil resolver: é só pagar alguns rapazes para darem um sumiço nelas. E aquela árvore lá, atrapalhando os fios de eletricidade? Nada de mudar os fios, vamos simplesmente arrancar a árvore.

No mundo atual há o descarte e a cultura do descarte. O descarte tem a ver com a produção, a cultura do descarte é a moral associada a esse tipo de produção. O saber para cada trabalho fica simplificado e, portanto, os homens são descartáveis, trocáveis por quaisquer outros ou por robôs. O descarte torna-se corriqueiro, banal, e então surge a moral que vê todo e qualquer descarte como legítimo. A força das coisas e o poder das ideias empurram tudo para o mesmo lado, e eis que há aí uma sociedade em que os que pensam e refletem sobre isso, irritam demais, pois emperram o descarte. Ora, o descarte é a solução fácil. Todos querem o descarte. Foi-se o tempo que cada um tinha medo de ficar velho, pois sabia que ia ser descartado. Agora, o medo foi embora. Todos nós somos descartáveis e adotamos ideólogos que querem nos convencer que a luta “por um mundo melhor” não é só ingenuidade, é tolice, covardia, fanatismo e erro.

É realmente difícil estancar essa onda fascista que se apodera do Ocidente, e que no Brasil se manifesta no infantilismo dos que acham que se um presidente não vai bem, o certo é bater panela na rua de modo que ocorra uma mágica, que caia um raio e elimine o presidente. É como no Big Brother da TV: “aquele participante é chato, vamos tirá-lo”. Pago para fazer uma ligação e o arranco do programa. Chega!

Também os amores ficaram sob esse jugo. Antes, brigávamos com a namorada ou namorado, mas depois ficávamos amigos, pois tínhamos de encontra-lo na escola. Agora, tiro aquele que não quero do meu facebook. Mato-o virtualmente. Elimino. Descarto.

Na escola e no trabalho não quero mais ter dissabor. Não quero provas ou tarefas. Ou a escola é atrativa ou então eu a descarto. Em alguns casos, posso querer descartar o professor. Conto com o estado para tal, pois este me ensina não só a pagar pouco pelo serviço dele, mas a bater nele na rua. Descarto meu professor.

Tudo isso está acontecendo sob nossos narizes. É o fascismo sem fascistas. Todos somos democratas.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo e autor, entre outros, de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015)

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2 Responses “O fascismo sem fascistas”

  1. Osmar Gonçalves Pereira
    27/07/2015 at 22:14

    Democratas e verdes… garantimos a sustentabilidade do descarte transformando em comoditie o oxigênio futuro das sementes ainda não lançadas.

  2. roberto quintas
    27/07/2015 at 11:44

    eu achei interessante esse conceito da cultura do descarte e isso tem a ver com a Industrialização, a Produção em Massa, o Capitalismo. eu incluiria a cultura do simulacro, onde há uma neurose em desenvolver e encontrar materiais sintéticos que cumpram com a mesma função da matéria-prima.

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Filósofo