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26/09/2017

O fascismo inerente à política moderna


Exceto a extrema direita, que ainda acha que chamar de “comunista” é xingamento, todos nós estamos usando “fascista” simplesmente para o outro, basta ele discordar. O interessante é que até mesmo os conservadores aderiram à moda.  Em geral, o chamamento de “fascista” vem sem qualquer argumentação, apenas frases reiterando que o outro não pode pensar como pensa, e que deve se calar. 

Há países em que o nazi-fascismo causou transtornos de tal ordem que certos comportamento e gestos se tornaram crimes. A Alemanha é exemplo disso: o cumprimento nazista não poder ser executado. Historicamente isso se justifica. Nenhum povo que fez o Holocausto e assume a culpa a duras penas pode, depois, desconsiderar esse calvário. Há países que lutaram bravamente contra o nazi-fascismo, mas em terra alheia, e a liberdade de manifestação de fascistas é tolerada, como é o caso dos Estados Unidos e o nosso mesmo. Independentemente disso, a pior coisa que pode ocorrer, ao menos do ponto de vista da filosofia e, creio eu, particularmente para a democracia, é uma semântica manca. Ou seja, chamar quaisquer manifestações contrárias de fascistas é perder o rumo da linguagem, do vocabulário. Quando isso ocorre, a liberdade é maculada e, então, as chances de conseguirmos verdades diminui. Ficamos à beira de um caos intelectual, um regime de guerra de desentendimento de todos contra todos.

Então, o que é fascismo? O que se pode realmente chamar de fascismo? O fascismo não se caracteriza por emitir opiniões ultra conservadoras e apelar a certo irracionalismo repetitivo. Qualquer pessoa de pouca sofisticação intelectual faz isso. Comunistas, social democratas, liberais, católicos podem agir assim. O fascismo se caracteriza por algo específico, mantém firme, sempre, a origem de seu nome: fascio, ou seja, feixe. Vários ramos de varas juntos, amarrados, bem apertadinhos, formam um bastão terrível e serve de arma. Leve e ao mesmo tempo forte. Arma romana e medieval que deu o símbolo do grupo fascista. “Sozinhos e individualizados não somos força, mas em um feixe, bem apertados uns aos outros, podemos virar um grande bastão capaz de servir para bater em outros”. “Se for possível colocar ainda um machado na ponta do feixe, mais sangrentos seremos.” Isso ecoou na Itália. O fascismo é sempre o ataque de grupos que agem não como reunião de indivíduos, mas como feixe, como uma coisa só, uma única arma.

Nenhuma gang ou quadrilha ou mesmo exército é fascista. O grupo fascista é sempre de ataque unificado, sem planos, sem pensador, ele apenas ataca unificado, elimina o outro e pronto. O fascismo é de ação, sempre de ação. A reflexão democrática e lerda o irrita.

Um professor de esquerda ou de direita que fala em sua cátedra vê na porta da escola um fascio exigindo que ele perca o emprego. Esse grupo grita palavras de ordem, unificadamente, agressivamente, e quer que o professor perca seu ganha pão imediatamente – é para eliminá-lo do mercado, da vida enfim. Isso tem cheiro de fascismo. Parece ser algo democrático, mas é exatamente o fascio atuando. É exatamente o modo como se fez com que os judeus fossem para guetos antes mesmo de Hitler tomar o poder.

Quem chama o outro de fascista pode não ser fascista. Mas, se não argumenta, se não nomina de modo correto, se não percebe que seu autoritarismo é um dogmatismo que não pensa, pode estar também montando o seu próprio fascio, seu feixe. É por isso que o texto jornalístico, quando é diminuto, sempre precisa de complemento em outros meios, por exemplo o livro. Mas se o livro também foge da argumentação, e passa a utilizar da mera fraseologia autoritária, mesmo que esteja denunciando o fascio, pode estar incorrendo no erro da preparação do fascio. Esse é, aliás, o perigo da política moderna. Ela tem uma propensão para o fascismo exatamente à medida que passa pela nossa cabeça que o outro efetivamente como outro (e não como cópia nossa) poderia não existir. Deveria haver um sanatório para ele, ou um campo de concentração, um Gulag qualquer, ou então apenas uma aposentadoria.

Quando FHC foi cumprimentar Lula no hospital, o fascista atacou: “hipocrisia!” Pois, para ele, FHC teria que eliminar Lula da política e Lula teria que eliminar FHC da política. O fascista não entende a ideia de “oposição”. Ele acha a democracia liberal um jogo nojento que precisa acabar. Ele vê o congresso e as instituições democráticas ruins, pois elas estão premiadas por contradições. O fascista adora o pensamento único que não pensa, que vira ação. Ele quer uma ordem. A ordem de ataque.

Os fascistas podem ser fascistas, mas o mais estranho na política moderna é que ela faz comunistas, liberais conservadores e até liberais radicais, não raro, alimentar uma retórica que logo pode virar a palavra de ordem repetitiva para um fascio. O remédio contra o fascismo que conheço é a reflexão do filósofo, a sua dúvida, a sua capacidade de ter dúvida da dúvida. Não a dúvida tola, mas aquela que leva à produção do texto raciocinado, que é bom elemento no sentido de interromper o fluxo da “maria-vai-com-as-outras”. O conto de um gênio como Machado de Assis age assim. O cinema de contradições é outro elemento anti-fascismo. A liberdade de cátedra mais um. A não criminalização de opiniões também funciona. Sempre procuro colocar pequenas contestações nas opiniões tomadas como sagradas (você, bom leitor, pode notar isso nos meus artigos – o filósofo tem a propensão para o contraponto raciocinado, não o contraponto dogmático), mesmo quando partilho delas, e essa é a minha forma de ficar atento para com a ordem que faz o fascio.

Uma manifestação de rua, mesmo que conturbada, não é fascismo. Mas um grupo até que pequeno, forçando pela Internet ou na rua, que o outro perca seu ganha pão, sempre é fascismo. O fascismo nunca faz oposição, ele se caracteriza pela eliminação do outro da sociedade, ou lhe tirando o ganha pão ou simplesmente criando gueto e, depois, o campo de assassinato. Estamos confundindo tudo no Brasil.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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4 Responses “O fascismo inerente à política moderna”

  1. Micaías Souza
    08/11/2015 at 14:07

    Roberto, quando confronto a questão da liberdade (isegoria) com a garantia de direitos de minoria, o que coloco em questão é a formação de conceitos políticos (filosofia política e ética) que assegure ambas. Quando diz que alguém é preconceituoso por tal prática, já houve, em sua fala, uma construção ou desconstrução das práticas e discursos ditos preconceituosos. Quando alguém diz: “o racismo é crime”, pronto! Houve já a superação da tolerância com o racista que Habermas diz. Ou seja, os movimentos de criminalização (racismo) já se consolidaram, obtiveram êxito.
    E conceitos como igualdade e diversidade são utilizados como contraditórios. A questão é que nossa discussão sempre pega exemplos de procedimento legiferante exitosos – caso do gesto nazista na Alemanha. Em termos históricos-filosóficos este argumento é válido e correto, entretanto se ficarmos só nesta corroboração de validação da história, estamos no campo desta e não avançamos em conceitos filosóficos – mais abstratos.
    É possível retirar destes exemplos de procedimentos legiferante exitosos um princípio que equilibre a isegoria (liberdade de expressão) e a garantia de manifestação de grupos de resistência – que posteriormente virarão princípios legais, sem recorrermos ao fato já consolidado? Pois se o fato foi consolidado só estamos constatando para onde a balança pendeu? Mas, por que ela pendeu para este lado?

  2. Micaías Souza
    06/11/2015 at 20:03

    Me ocorreu uma dúvida: Habermas diz que o racismo, por exemplo, não deve ser tolerado ou preconceito de gênero; mas devia, antes, ser combatido com lutas de minorias, assim o racista deveria deixar de sê-lo. Entretanto, as políticas liberais garantem a liberdade de expressão, inclusive dos grupos neonazistas. Portanto, na concepção de Habermas, a garantia de liberdade de expressão liberal não seria uma espécie de tolerância com um preconceituoso ou racista? Ou seja, como conciliar o limite da tolerância, relacionados à racismo, xenofobia, etc, com a liberdade de expressão liberal? Há contradição na liberdade de expressão liberal e a concepção de Habermas sobre o limite da tolerância (com racistas, etc)? Pois Habermas endossa a luta de movimentos de resistência contra os preconceitos, portanto estes, os resistentes, não serão tolerantes em relação aos outros. Mas se os movimentos de resistência (não gosto da acepção de resistência, mas não encontrei outra palavra) são contra e proíbem a manifestação de grupos neonazista não estaria infringindo o direito de liberdade de expressão? Qual o peso que equilibra liberdade de expressão, na acepção liberal, e movimento de resistência e ampliação de direitos? Quando um grupo de resistência pode se manifestar contra uma expressão preconceituosa sem violar o direito de liberdade de expressão?
    OBS: um exemplo é sobre o machismo, quando grupos usam este sem a devida aplicação pode limitar a liberdade de expressão.

    • 06/11/2015 at 20:11

      Foi o que eu falei a respeito de lugares históricos de combate ao nazismo.

    • 08/11/2015 at 10:45

      Micaias, um discurso preconceituoso, a priori, irá sempre violar o sentido da liberdade de expressão, visto que parte da ignorancia. tanto a xenofobia quanto o racismo é essa recusa de superar preconceitos, vendo no “diferente” o “outro” que constitui, por si só, uma ameaça ao fascio.
      desta questão podemos ir mais além, elaborar pensamentos a respeito da “igualdade” e da “diversidade”.

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