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22/10/2017

O fabuloso mundo da criança (com Post Scriptum sobre o “golpe”)


“É de verdade mãe?” Foi isso que a menina perguntou ao ver o Pitoko vindo em sua direção segurando sua própria guia na boca e mostrando todas as expressões do mundo. Essa é a pergunta que algumas crianças não fazem e, então, podem sucumbir ao que Descartes e outros de seu tempo tanto temeram: a imaginação, a fantasia.

Depois, o século XVIII colocou outro caminho, com Rousseau, anunciando o que viria nas mãos dos românticos: “ousai inventar” e não somente “sapere aude!”. Mas, tão logo os românticos deram asas ao que era o perigo para Descartes, Marx denunciou um perigo maior: a fantasia andando por si mesma, sem qualquer autorização da cabeça dos homens: a fetichização das coisas e a sua correspondente coisificação do mundo por causa da universalização do mercado, o lugar da Grande Equalização. Nietzsche então fechou o século, ao notar que talvez nunca tivéssemos fantasiado ou imaginado ou inventado como alternativas ao pensamento que vê o real, mas que apenas tivéssemos sempre metaforizado, uma vez que nossa linguagem mesmo nada seria que uma atividade de transposição de um estímulo físico para um resultado simbólico. Assim, a verdade, ou seja, o adjetivo que qualifica as sentenças que estampam a realidade, nunca tenha sido outra coisa que um batalhão de metáforas e metonímias.

A mãe respondeu à criança: “claro que é filha!”. O Pitoko é de verdade, ou seja, não é “da TV” e não é um brinquedo mecânico ou um holograma saído de um celular qualquer. Essa é a pergunta que Maísa não fez e, um dia, descobriu-se que ela não sabia onde estava o palco e onde estava a escola, onde estava o representar e onde estava o apresentar. Tendo começado muito cedo na TV, sempre se apresentando e representando ao mesmo tempo, Maísa foi um prodígio até que um dia ocorreu aquilo que eu dizia que não iria ocorrer: a síndrome de Vera Fisher. Não é que ela deixou de saber se o Pitoko seria ou não de verdade, mas pior, ela tomou todo e qualquer não-palco como indistinto do palco. Não é que ela perdeu a noção do que é um papel no teatro televisivo, mas é que talvez ela nunca tenha podido sentir o cheiro do conceito de papel e de representação.

As crianças brincam e, um belo dia, Descartes aparece na forma do professor primário e diz: chega fedelhos! E ele continua: agora nós vamos separar as coisas, imaginação de um lado e razão do outro, e vamos dar privilégio à razão de modo a tornar todos aqui adultos, gente capaz de “enfrentar a realidade”, isto é, pessoas capazes de notar que o mundo caminha por causa e efeito e por razão e resultado. Um exercício para tal, na escola, era aquele que se fazia muito no meu tempo de criança, olhar um quadro e fazer uma “descrição” de seu conteúdo detalhadamente, como quem enuncia elementos de um mapa, e então olhar o mesmo quadro e fazer uma “redação”, a criação de uma história a partir da gravura. Ora, para Maísa esse dia de entrada na escola não fez nenhuma diferença, pois viver a realidade e viver uma fantasia nunca foi um problema, tudo era somente viver – viver no palco, fosse palco mesmo ou não.

Quando os psicólogos resolveram intervir no “caso Maísa”, tirando-a de circulação, as coisas já estavam adiantadas. Eu mesmo havia já escrito, quando Maísa era criança, que isso não ocorreria, que ela não sofreria danos psicológicos. É que eu superestimei a capacidade dos pais. Eu superestimei a capacidade do século XVII sobre nós. Eu subestimei o que Marx falou sobre a fetichização e a reificação, ou seja, sobre a ideologia calcada na abstração da mercadoria, que faz tudo em nosso tempo se equalizar via dinheiro e, então, perder características próprias capazes de criar distinções fortes. Eu subestimei a descoberta de Nietzsche, que insistiu que a própria atividade racional poderia ser uma atividade imaginativa, ou seja, que nossa linguagem já é sempre algo bem menos literal que pensamos, e que por isso mesmo, não é difícil para cada um de nós, em um determinado momento, “viajarmos na maionese”, para usar um termo de gíria nova que já seja antiga.

Marx falou de um tempo que as cadeiras iriam dançar. Disney mostrou o quanto os bichos podiam falar. Nietzsche alertou para o quanto nós, bichos, falaríamos sempre demais. Os games virtuais nos contaram que não iríamos só falar, mas deixar de falar para que bichos de outro mundo falassem. Entre a regra do capitalismo segundo Marx, onde tudo é igual a tudo, e entre a regra da vida humana segundo Nietzsche, onde tudo-ser-igual-a-tudo é dizer que nada vale, as hierarquias ficam confusas ou mesmo desaparecem. Maísa perdeu o pé da hierarquia palco e não-palco. A menina que cruzou o Pitoko tentou escapar disso!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Post scriptum. Notaram pessoas, em nossa sociedade brasileira deste momento, que pedem “intervenção militar”? O problema delas não é serem protofascistas. Antes disso, elas são crianças fascistas. Crianças que acreditam que apertam um botão do seu PC ligado à Internet e, então, um anjo (no caso, um demônio) é chamado para salvá-las de algo que não está lhes fazendo mal algum, talvez até fazendo bem (nunca os ricos foram tão ricos!). Mas é que crianças sempre estão a chamar deuses, anjos, amigos imaginários, super-heróis e pais. Ora, não há Exército brasileiro em clima de golpe ou querendo a tal coisa chamada de “intervenção militar constitucional”. Não há lideranças importantes querendo acionar o Exército. Nem mesmo Impeachment! (Aécio e FHC já disseram: “não está na agenda”). Não há Partido da Imprensa Golpista (PIG) porque golpe não se faz com meia dúzia de artigos (nem com mais de meia dúzia). Não há sequer um inimigo efetivo, como já houve com o “comunismo” ou a invenção de que havia o comunismo (como em 1964); os únicos inimigos comuns mesmo, existentes, é o mosquito da dengue e as madeireiras. Os outros inimigos, ora bolas, até que a Polícia Federal está lá fazendo seu serviço! Então, do nada, da pura imaginação infantil, cada “criança fascista” (alimentada às vezes pela “criança comunista”) crê que há um botão em um aparelho do seu quarto, chamado Facebook, ligado a Deus, e que este vai realizar seus sonhos, tirar seus medos. Nessa doideira, a “criança fascista” fala para si mesma que Deus vai mandar o Exército e este já até está nas ruas, com vontade de obedecer Deus! Talvez Descartes, ao temer a imaginação como temeu, estivesse pensando na produção maligna desse tipo de gente, fruto de uma infância não superada, morando nos Jardins, o bairro rico de São Paulo.

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6 Responses “O fabuloso mundo da criança (com Post Scriptum sobre o “golpe”)”

  1. alexandre
    16/03/2015 at 15:21

    Essa do facebook foi boa, ele virou uma plataforma de protesto online em tempo real, cagou postou bem assim, o pior que ver na tv tanta gente empenhada em tirar a Dilma do governo e ver gente que foi pra la para fazer selfie e postar no FB e pior ainda e ir pra la com a camiseta da seleção… enfim ja perdi a referência do meu papel na sociedade, sera que sou um tucano petista, um petista tucano, um ateu que crê em Deus, um facista, um reacionario, um petista fanatico?

  2. 15/03/2015 at 16:39

    Nós compomos a música, mas em certo momento alguns acabam sendo tomados pela música e acreditam que esta os compõe. A frase “o que seria de Deus sem Bach” poderia ser pensada como uma frase marxista, por comparar a alienação de Deus com a alienação da música?

    • 15/03/2015 at 17:45

      Pedro a música de fato alienaria, mas para onde? Se estamos imersos, ela não tem como nos tirar de onde estamos, alienar-nos.

  3. Amauri Nolasco Sanches Junior
    15/03/2015 at 00:45

    ótimo texto professor

  4. Rony
    14/03/2015 at 12:15

    “Crianças fascistas”, não há adjetivação mais adequada.
    Ouvi, por esses dias, um indivíduo dizer que, no Brasil, haverá uma “Intervenção Federal de Direita” e, em seguida, uma “Intervenção Federal de Esquerda”. Para minha surpresa maior, várias pessoas que conheço, inclusive profissionais da área do Direito, acreditaram nessa paranoia.
    Explicar para essas pessoas que nossas instituições constitucionais democráticas são sólidas e que não há perspectiva alguma de golpe é ser tomado por ingênuo.
    Tempos difíceis.

    • 14/03/2015 at 12:51

      Rony! “Profissionais da área do Direito” nada são senão Profissionais do Analfabetismo. Falo isso com pedido de desculpas aos bons, mas eles, os bons, sabem que estou certo.

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