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20/09/2019

O eu dinâmico em creme da Natura


Hegel comemorou o feito de Descartes. Foi ele, Hegel, quem ensinou todos nós a marcarmos a modernidade, ao menos no campo filosófico, como tendo sido inaugurada pela ideia cartesiana de criação do eu absoluto. O Cogito ou o Eu que se pensa e, então, se ontologiza como “substância pensante” geraram o nosso tempo.

Todavia, também na mesma época, Pascal contestou Descartes: o eu seria apenas um conjunto de qualidades, não uma substância, muito menos, portanto, um absoluto. Depois, Hume também foi pelo mesmo caminho, delineando o eu como feixe de sensações e percepções. Essa tradição de crítica a Descartes chegou ao século XX pelas mãos de Nietzsche e virou moda com Benveniste. Foi ele quem deu ao eu condição exclusivamente linguística. O eu é como um “aqui” ou um “agora”; pronunciamos tais palavras que nos servem para indicar tempo e lugar em que estamos. O eu nos serve para podermos entrar na linguagem e ser um usuário da linguagem. Assim, usamos expressões que são referentes a nós mesmos: “Eu cheguei a São Paulo”. Dito por mim, significa uma pessoa chegando a São Paulo, exatamente aquela que pronunciou a frase, e não outra, ou seja, não você. Eu, Paulo, cheguei a São Paulo, e não o Pedro. Eu que uso a linguagem no momento sou quem chegou a São Paulo.

Mas, sendo substância ou mera peça linguística, ninguém nega a importância do eu na modernidade. Todos sabemos o quanto o eu predomina na vida moderna, uma época em que já se tornou normal falarmos de narcisismo: um culto do eu, um culto de si mesmo, uma disposição para projetar o eu sobre o horizonte e só enxergar aquilo que é o eu nosso, seja este eu real ou seja mera criação imaginária nossa, idealizada para mais(ou para menos – um narciso que admirasse sua feiura!).

No entanto, eis aí o problema de nossa época: somos narcisos em graus diversos e, ao mesmo tempo, temos sido bombardeados pela ideia de que estamos vivendo uma época de descentramento do eu, de vigência de múltiplos eus. Uma propaganda de TV que mostra bem essa situação vigente é a do comercial da Natura, agora de 2019 (vídeo aqui). Nela, várias mulheres vão retirando da pele pequenas tarjas, etiquetas que contém qualificativos. O texto falado na propaganda explica: “rótulos não me servem, mudo o tempo todo, como a minha pele”. Ou seja, sou aquilo que sou na internet: avatares e múltiplos eus. Sou na vida real isso, porque minha pele é, como disse Nietzsche certa vez em relação ao corpo, um conjunto de seres vivos. A propaganda leva ao pé da letra tal fisiologia, mas com base científica: a pele é de fato mutável e também um conjunto de micros organismos. Então, para que ela continue sendo plural e meu eu também, devo usar um tal creme da Natura. O texto termina assim: “vista sua pele e viva seu corpo”.

Nesse caso, o recado é narcísico, mas não na indicação de um eu centralizado e substancial. Um eu corporal, não mais o Cogito. Um eu deteriorável e, no entanto, cuidável pelo creme. Livros não mais servem, pois são para a mente. O corpo quer creme. E o corpo é plural. Ele dá a personalidade que, enfim, agora é cultivada por um narciso que se olha no espelho e se vê não mais unitário, mas em diversidade. Somos tantos rostos quanto micro-organismos da pele que, como roupa, vestimos. Para viver temos de vestir a pele da multiplicidade. Ora, mas continuamos narcisos. Pois a propaganda mostra mulheres solitárias: ninguém curte o creme ou o visual delas, só elas mesmas. A propaganda é essencialmente contemporânea: lida só com desejos íntimos que são feitos para serem curtidos no espelho. É o fim da era da inveja para a entrada na era narcísica e intimista. Visto-me para mim! Tanto é que visto-me com minha própria pele. Minha experiência é com o creme, não com textos ou pessoas.

Esse narcisismo pode se explicado por Peter Sloterdijk: falta-nos um parceiro que, enfim, abandonamos sem o devido cuidado ao nos desfazer da placenta. Pode ser notado por Agamben: se é o corpo o eu, então não temos ética. Não há ética para aquilo que é mera biologia e que pode ser trocada por um número e identificado por máquina. Podemos também lembrar de Byung Chul Han: é a falta do Outro que nos levou ao eu narcísico. Anselm Jappe, por sua vez, diz que este eu narcísico pode combinar bem com a ideia de pluralidade, de fragilidade, de diversidade. Aliás, ele acha mesmo que o narcisismo só combina com uma tal situação: a do capitalismo pós-fordista, pós-referência, ou seja, o neoliberalismo que é (des)regrador do capitalismo atual, aquele que o dinheiro não tem mais referência, não tem mais lastro, aquele em que as regras econômicas desapareceram. Nessa situação de volatização, nada melhor que um eu que imita o sistema de vida, um eu que narcisicamente não tem referência unitária, mas se multiplica em avatares não fixados em um espelho movente. Creio que poderia chamar de isso, por minha conta mesmo, de narcisismo dinâmico.

No mundo da não-regra, onde o valor, sendo abstrato, cria uma sociedade tautológica, tendemos a não ver mais nada de diferente, somente o Mesmo. Então, também o horizonte não apresenta nada de novo, somente nós mesmos. Melhor ainda se o horizonte apresenta vários eus que sou eu mesmo. Forja a impressão de diferente, sendo que se trata da mesma coisa mas com o que se apresenta plural (“rótulos não servem” – ensina a Natura). É como a moeda: cada uma com o seu uniforme nacional, mas são somente algo que não passa do igual, ou seja, dinheiro: o equivalente universal que tudo iguala. Moeda muda de nome e cada mulher que usa Natura pode mudar de pele – a própria pele é plural. Quando o dinheiro se olha no espelho ele se vê, na aparência, na forma de tipos de moeda, mas em essência, se enxerga como dólar, ou então não se vê; quando a mulher olha no espelho ela se vê múltipla se embalsamada em creme Natura, e aí sim, é mulher, ou simplesmente não se vê.

Paulo Ghiraldelli Jr, 62, filósofo

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10 Responses “O eu dinâmico em creme da Natura”

  1. 08/09/2019 at 12:49

    Teria como você dar uma olhada no meu blog ?

    O endereço é https://fatosdocotidiano24.wordpress.com

    Gostaria de saber sua opinião sobre os textos

    Sobre a questão da censura

    https://fatosdocotidiano24.wordpress.com/2019/09/08/os-cidadaos-de-bem-e-a-censura-na-bienal

  2. 04/09/2019 at 12:45

    Paulo, tudo bem ? Teria como você dar uma olhada na minha postagem ? Tem outras postagens na página. Se puder dar um retorno do que achou

    https://diariocotidianobr.wordpress.com/2019/09/04/bolsonaro-agora-ataca-bachelet

  3. 31/08/2019 at 10:13

    “A propaganda é essencialmente contemporânea: lida só com desejos íntimos que são feitos para serem curtidos no espelho. É o fim da era da inveja para a entrada na era narcísica e intimista. Visto-me para mim! Tanto é que visto-me com minha própria pele. Minha experiência é com o creme, não com textos ou pessoas.”

    Professor, há alguns anos , uma amiga postou uma imagem de uma nova cor de esmalte que estava usando e cometi o erro de expressar a minha opinião, de achar a cor “feia”. A resposta que tive de várias amigas foi de que a opinião dos outros (ou Outro) não era importante, o que importava era a opinião ou desejo da própria mulher pois ela não estava se enfeitando para os outros ou, mais especificamente, para um homem.

    Talvez eu tenha amigas estranhas, talvez sejam apenas e justamente o que o sr. esteja descrevendo.

    Lembro-me que, na época, o meu raciocínio foi Darwinista. A cauda do Pavão tem uma função, atrair as fêmeas e aprimorar a espécie. Para mim, os enfeites, a indumentária, todos os valores que usamos e cultivamos são frutos das sociedades em que estamos integrados e tem uma função na luta pela sobrevivência e continuação de nós na nossa prole. Essa é uma forma de Narcisismo que beneficia a espécie.

    Pareceu-me que uma das preocupações dessas amigas e, generalizando, das mulheres modernas, é a luta pela auto afirmação, justamente, pela recusa da necessidade de afirmação do Eu na aprovação pelo Outro, que, se entendi, quando o sr. exemplifica, em outro vídeo, que ao dizermos que uma mulher está bonita estamos apenas cumprimentando-a, expressando nossa admiração e educação social e não emitindo nosso selo de aprovação. Nem dizendo que ela precisa dele.

    Então, como sempre defendi e tive como prática pessoal nunca fazer o que os Outros ou a Sociedade esperam de mim em conformação com o que seriam os padrões aceitos foi assim que compreendi a argumentação dessas amigas.

    Mas.

    Como nos (a)parece (se revela?) hoje, essa necessidade de auto afirmação teve consequências nefastas como a emergência de movimentos anti científicos, fascistas, anti historicistas, anti intelectualistas etc. que, apesar de encontrar sua afirmação na formação de grupos que se validam uns aos outros (não como Outros mas como espelhos) são frutos desse Narcisismo.

    Meu dilema é, valorizando a individualidade narcísica pelo que ela me proporciona, como diferenciar as suas diversas formas. Ou basta a consciência e aceitação do mecanismo, como na revelação de como funciona a construção de uma Ideologia, para desvelá-la?

    Pessoalmente, eu me reconheço Narcisista justamente na confrontação do Eu com o Outro e na procura, não do espelho, do reflexo, mas da sombra que o Outro projeta sobre mim, sobre a minha imagem refletida.

  4. Thainá Guimarães
    30/08/2019 at 12:24

    Olá professor,

    Se for possível gostaria de ver um vídeo um pouco mais didatico, e de cunho tragicamente filosófico, a respeito da vista desse “eu” em meio ao neoliberalismo. Tenho lido o Psicopolítica do Byung-Chul Han, por isso peço o video.

    Mais uma vez, parabéns pelo canal!

    Um abraço!

    • 31/08/2019 at 13:19

      Thainá, dá uma olhada nos meus textos aqui do blog sobre o assunto!

  5. Themis Scalco
    29/08/2019 at 21:27

    Boa noite professor! Existe um index dos seus vídeos em algum lugar?? Gostaria de encontrar um publicado ontem 28/08 mas como já vi, o YouTube não me mostra. Thanks for the help. Seu canal me traz esperanças de que um dia conseguiremos pensar melhor.
    Obrigada

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